Crônica: O touro dos tolos e os “bichos” lá fora

Na Bovespa, o signo do rentismo à brasileira: cafona, brutal e colonialista. Chifre em riste contra os de fora. O sistema tem cara: enquanto acumula riquezas e acossa a democracia, milhões, tratados como animais, catam comida entre detritos

A crônica que entregarei ao leitor não tem a mínima intenção de traçar um panorama completo sobre a desigualdade no Brasil, tão pouco de reunir-se às sátiras que pipocaram nas redes sociais em torno do Touro de Ouro erguido em frente à Bolsa de Valores de São Paulo. O que pretendo ao invadir as retinas do leitor é botar o dedo na ferida, dispensando a licença poética do cronista e dando vazão à paixão de um economista embebido nos valores da democracia universalista. Por isso, adianto que estas linhas são flechas combatentes, não guardando relação com a posição impoluta do acadêmico, dando cor ao veneno da tinta e declarando total e irrestrita posição contraria à ideologia reinante na elite brasileira.

Ofereço três imagens que por serem caricaturas tristes do Brasil real formam uma versão lúdica da desigualdade. Do ludismo retira-se a anti-magia que encobre a realidade, como quem vê a pobreza e a fome diante da nudez do olhar e passa olimpicamente por elas, justificando-se pelo atraso cotidiano. Paralisado, o tempo lúdico permite que sejam rompidas as cortinas da correria cotidiana, possibilitando que olhemos a realidade tão crua quanto o caviar que o farialimer saboreia num passeio de barco.

A primeira imagem é a do ânimo geral entre os gestores de fundos de investimento que viram a Bovespa ultrapassar seus recordes históricos de crescimento, como um touro que flutua a cada chifrada, saltando os patamares anteriores ao altar das expectativas futuras que se realizaram com a celeridade de quem se via coberta pelo voo solo do dólar rumo aos píncaros (em economês, se diz: desvalorização cambial).

A segunda imagem recorda a tristeza retratada por Graciliano Ramos em Vidas secas e por Manuel Bandeira no poema O bicho: panelas vazias, ossos sendo oferecidos por açougues, caçadas no lixo por restos de comida. A fome voltou, anunciaram os jornais, como se algum dia a infausta realidade tivesse abandonado o cotidiano brasileiro. No sertão de Graciliano, comida na mesa dependia da boa vontade do patrão para agonia, quase humana, da cachorra Baleia que se compadece com a sequidão da vida humilde, da pobreza e da desilusão do bicho humano que caça trabalho para comer. O preenchimento das barrigas dependia se choveria demais ou de menos. Assim como vida de bicho, anotou Manuel Bandeira, nos seus tercetos:

“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.”

Como ratos, como gatos, como bichos, vivem milhões de brasileiros. A pobreza, transformada em estatística, esconde o mais desumano caráter da fome: a necessidade de trabalhar para comer, num país sem trabalho, onde a subsistência depende da propriedade e a propriedade é concentrada por quem tem dinheiro. A desumanidade se transforma em tristeza, quando vislumbra-se os termos retorcidos do compromisso da Constituição para com os desamparados. Da democracia para cá, o direito universal à vida minimamente digna foi substituído pelo pacto entre aqueles que tem poder e aqueles que tem dinheiro.

Quem tem poder, respeita o conselho de Maquiavel, para mantê-lo e expandi-lo. Quem tem dinheiro, é encarnado pelo espírito do capital: se a riqueza não cresce, ela diminuirá, pois outros engolirão as fatias de lucro lançadas no tanque de tubarões que os economistas denominam concorrência. O aperto de mãos entre a elite política e econômica é consagrado por esse duplo espírito cooperativo: faça-me mais poderoso, enquanto te deixo mais rico.

A terceira imagem é a do Touro de Ouro erguido em frente a Bovespa como duplo sinal de prosperidade e confiança que aconteça o que for, os chifres do touro sempre abaterão os riscos presentes na manutenção da riqueza financeira, pois protegida pelo pacto político estabelecido, tornando a democracia um verniz para a autarquia da Faria Lima com sede fantoche em Brasília.

Lado a lado, no mesmo museu de grandes novidades, diria Cazuza, as três imagens estão longe de transparecerem um contraste entre o lúdico e o real. O que fazem é embaralhar a mente do apreciador de arte, ao perguntar se a imagem da pobreza não está exposta na galeria errada. As elites e as classes médias veem na pobreza, a demonstração do sucesso da concorrência que elege os vencedores e perdedores pelo mérito. Ao se depararem com a fome, olham para o outro lado, transformando por um instante, a Avenida Paulista em Paris, anos-luz de distância de Paraisópolis.

A desigualdade no Brasil é produto da dupla relação: do poder com o dinheiro, e das elites consigo mesmas, tomando a aleatória distribuição das oportunidades de emprego, estudo e condições de vida, como fruto da natureza transformada pela razão humana em ações, perdedoras ou vencedoras. Aqueles que vencem na vida, guardam seus ganhos nas ilhas britânicas, livres de impostos, enquanto os perdedores consomem as migalhas que sobram. A escravidão deu fim ao império, mas não terminou como símbolo que recheia a imaginação de quem detém a propriedade do dinheiro: o açoite do desemprego demarca quem será eliminado pela fome – ou pelo exercício policial. O mandonismo se reproduz sob bases mais complexas, transformadas pelo feitiço do capitalismo na Terra Brasilis: entre investir a riqueza nas fortalezas financeiras, ou investir e criar empregos, a decisão sob inadiável incerteza, cede a sedução do lema de Paulinho da Viola: “dinheiro na mão é vendaval, dinheiro na mão é solução”. Sem investimentos, incluindo os de origem pública, o capataz do ‘sinhô’ ricaço oferece a corda, os desempregados entram com as cabeças, trafegando pelas cidades em cima de motos, ou dirigindo carros para aplicativos.

Nas dobras pudendas do Brasil real, existem ainda as categorias cujo descarte social reprisa o ambiente posterior a abolição da escravidão. De um lado, os encarcerados, marcados pelo signo do desencaixe social, esperando pelo abate, mantendo as nucas em sobreaviso, ou morrem esperando a sentença, ou são assassinados pelo mundo violento que tornam polícia e bandido, dois polos atraídos para o mesmo redemoinho, numa cidade não muito longe daqui, para relembrar o eterno Arlindo Cruz. Do outro lado, os dependentes de transferências de renda que veem no direito social um alento para a fome, assistiram o Bolsa Família se transformar em Auxilio Brasil, verificando que além de mudar de nome, condena o foco na pobreza a mudar de ângulo e mirar nas intenções eleitorais do presidente. Enquanto isso, o novo programa remodela o sentido da inclusão excludente ao submeter o sistema do Cadastro Único, feito para catalogar os alvos da política social, a tarefa de etiquetar aqueles que com sorte venderam o almoço para comprar a janta. Para os que foram empurrados para fora do Bolsa Família, sobram os pratos vazios e as barrigas cheias de desesperança.

O problema da desigualdade no Brasil, no entanto, não é meramente econômico, como querem resumir os esquemas dos doutores economistas. Mais aterradora do que a desigualdade econômica, são as distinções de raça e de gênero que adicionam um tom a mais à etiqueta daqueles que são eliminados pelo sistema protetor do status do bom cristão, bom cidadão, bom descendente de europeu, que esconde seu tom mulato nas idas ao freeshop. Essas várias facetas transformam a desigualdade no Brasil em algo tão complexo que atribuir a culpa ao “sistema” é a única coisa que se pode fazer, ao retornar para a casa depois de horas de trabalho duro, cochilando entre as várias conduções, habitat do cidadão comum.

Qual sistema?, nos perguntamos com ares de quem se acostumou tanto com o fato do “Brasil ser assim”, que não fazemos questão de eleger as raízes, atribuindo à naturalidade, o significado místico da realidade. Os governantes se enforcam mutuamente em suas alianças, sem exceção. Os endinheirados, brindam seus patrimônios na alcova decorada pelo brilho do retorno, ofuscado pelos riscos. O cidadão comum, vive com o que tem, quando tem alguma coisa, tendo menos a cada dia. Quando promulgada a Constituição de 1988, o sonho da civilização multirracial nos trópicos herdado de Darcy Ribeiro, guardava a seguinte ordem:

Realidade social –> Arranjo político –> Viabilidade econômica.

De lá para cá, a urgência da estabilização monetária sucedida pela governabilidade petista sustentada entre rentistas e golpistas, e depois do golpe, a escancarada ofensiva conservadora que descerrou seu símbolo em Bolsonaro, inverteram o sentido das relações de poder. Primeiro preocupam-se com o nível da dívida pública, com a inflação, o risco-país, etc.; depois arranjam politicamente as formas de manter dentro da meta, os compromissos com as elites financeiras, retirando dos gastos sociais a grana que falta para fechar a conta. A realidade social navega em meio a esse arranjo como quem não avista horizonte, sobrevivendo por migalhas, das mais amplas e bem geridas como o Bolsa-Família às mais escassas e eleitoreiras como Auxílio Brasil. Tomando a liberdade de surrupiar, um termo do professor Denis Maracci Gimenez: “no Brasil se faz política social pobre para os pobres”. Eis o sentido que comanda as decisões políticas no Brasil:

Reprodução da riqueza financeira –> Arranjos Políticos –> Descarte Social

O Touro dos Tolos no coração financeiro de São Paulo ferve como os bezerros de ouro na Idade Média, servindo para queimar vivas as almas famintas, cozinhando no caldo da riqueza a mistura preferida da elite financeira: políticos nas mangas, pobres e famintos servidos quentes, como mão de obra. O exército industrial de reservas transformou-se em exército de pobres e famintos prontos para a convocação, ao cárcere, à depressão, à bala perdida, ao aplicativo virtual, ao descarte: são seres humanos, tratados como bichos, Manuel.

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