Para ir além dos seminários e seu egocentrismo

Onipresentes nas universidades, eles têm méritos inegáveis, mas reproduzem com frequência lógicas da competição e vaidade, a ponto de criarem um mercado simbólico. Será possível imaginar dinâmicas intelectuais mais colaborativas?

Por Antonio Lafuente |Tradução: Simone Paz

Sempre desconfiei do espírito crítico. Sempre me vi vulnerável quando algum amigo ou colega o defendia. Nunca me senti à altura desses colegas sábios, eruditos e empoderados que sabiam mais do que eu e que também saberiam encontrar sem maior esforço as fissuras de meus argumentos. Tenho algumas amigas com as quais brinco sobre a possibilidade de que alguém descobrisse nossa condição de impostores. Eram brincadeiras, mas também expressavam dúvidas que tínhamos medo de não saber gerir. Não é de se estranhar, então, que eu tenha uma batalha pendente com o tão prestigiado e superestimado espírito crítico.

Inclusive, eu mesmo, como acadêmico, vivo pregando seus méritos. Mas agora percebo que não sabia muito bem do que estava falando. Não que eu tenha lido pouco, mas parece que não aproveitei bem. Acho que, de modo genérico, eu queria dizer que temos de aprender a não confiar nas aparências, e desconfiar das coisas que suscitam consenso em demasia, ou que são escritas em letras maiúsculas, ou em negrito. Reconheço agora que minha vontade de continuar a defendê-lo evaporou-se. Mas tenho outro ídola para me apaixonar e as linhas a seguir serão sobre isso.

Desconheço um lugar onde o espírito crítico seja mais venerado do que no seminário acadêmico. Além de ser um lugar de culto, é também de produção. E prestam-se homenagens a ele por dois motivos. Existem seminários de todos os tipos, incluindo aqueles que consideram crucial não só o que acontece dentro, mas também o que se desenrola nos prelúdios e em suas extensões no bar. Os cafés prévios e as ressacas posteriores devem ser consideradas com uma justiça, no mínimo, substancial. Não é obrigatório comparecer a esses transbordamentos, mas não é bem visto não saber valorizá-los. O seminário então funciona, inclusive quando não há cerveja, como um artifício acadêmico que não contraria a forma cordial de entender a sociabilidade.

O seminário é um modelo de comunicação bem-sucedido entre pares. Todos têm um formato semelhante. O organizador convida alguém para fazer uma apresentação, que é então discutida pelos participantes, que agem como se estivessem participando de um processo de brainstorming. Os participantes revezam-se na fala e apontam para o palestrante que alguma ideia merece ser matizada, que alguma prova precisa de mais esforço, que algum conceito foi utilizado sem o devido rigor ou que algum autor merece ser mais citado. Todos contribuem, cada um do seu jeito, para uma melhor compreensão do tema escolhido.

Um seminário consiste, então, em um exercício coletivo projetado para medir o escopo, a robustez e as implicações de uma proposta. Existem algumas atitudes que não são aceitáveis, como propor uma abordagem diferente, defender uma matriz conceitual alternativa ou questionar quão pertinente é a abordagem. Não é comum a autoridade do convidado ser questionada e isso explica o fato de todos os assistentes assumirem como legítimo o credenciamento dos que fazem uso da palavra.

Não é surpreendente que o formato do seminário esbanje tanta saúde e prestígio. Na academia, é uma das peças-chave nos processos de transmissão de conhecimento e formação de aprendizes. Bons seminários são uma ótima forma de manter atualizada a cultura da instituição que organiza os mesmos. Baseiam-se em uma hipótese mil vezes verificada: um especialista sempre poderá identificar com critérios qual é a novidade que devemos considerar, onde está o grupo que promove a alternativa mais inovadora ou como está sendo feita a abordagem mais promissora para um problema. Em 120 minutos (às vezes menos), um grupo acadêmico aborda novidades que levaram anos para serem produzidas. E se isso for feito semanalmente, não há dúvidas de que o grupo pode se orgulhar de estar atualizado. Como sabemos, estar atualizado é essencial para quem deseja estar na vanguarda.

Manter-se atualizado, no entanto, sai caro. A pessoa tem vantagens que seus concorrentes almejam e, sem dúvida, ser atualizado é um dos componentes mais apreciados de qualquer marca. Tem muito prestígio. Muitas pessoas desejam sentir que estão adquirindo algo novo e especial. Muitas pessoas se sentem especiais por estarem atualizadas. É como se, de alguma forma, você fosse melhor. Além do mais, você está mais perto e melhor preparado para bisbilhotar e agarrar a próxima novidade que surgir. É como se presumíssemos que o novo é melhor do que o antigo e que sua promessa nos tornará mais felizes, mais sábios ou mais capazes.

O mundo das ideias opera em um mercado, simbólico se quiser, mas não muito diferente. Nele, as novidades são muito valorizadas, e muitos esforços são feitos para merecer o status de criativo, original ou visionário. E, entre todos os dispositivos que os acadêmicos inventaram para construir ideias, nenhum é mais cúmplice da ideia de competição do que o seminário. É por isso que ele também consegue ser tão hostil e exaustivo. Cercado por tantas pessoas inteligentes, quem intervém pode facilmente sentir-se analisado e com medo de cometer um erro. Alguns participantes podem até aproveitar a oportunidade para serem mais nítidos, mais incisivos ou mais ágeis. A cultura da excelência age a fim de ser respeitada, e enfim, como bem sabemos, para que exista um primeiro devem existir dezenas (ou milhares) de segundos e terceiros.

Enxergar a academia como um ambiente agônico não é menosprezar as outras coisas boas sobre as quais poderíamos escrever. Nem a academia cabe em uma palavra, nem o seminário é uma ferramenta que possa ser liquidada num punhado de parágrafos. Os mais novos têm a oportunidade de conviver com os professores e ver como apontam o lápis, apreciam as nuances ou se enfeitam de anotações eruditas. É fascinante, embora possa ser perverso. Como já dissemos: tem pedigree, é eficiente, dá prestígio e funciona. Seria absurdo, entretanto, acreditar que não há outra maneira de reunir as pessoas para fazerem as coisas juntas. E só para constar, não estou pensando em praticar esportes, passear ou fazer música. Fico pensando na produção coletiva de ideias. Mas agora eu gostaria de falar sobre os espaços de experimentação. Um deles é o laboratório, mas existem muitos, como, por exemplo, a cozinha, as jam sessions, as comunidades afetadas, a ciência de garagem e as oficinas de prototipagem.

Para experimentar não é preciso ferramentas caras, conhecimento sofisticado ou linguagens exclusivas. Não é preciso usar jaleco branco, ter barba espessa, arrumar cabelos grisalhos, ser sociopata nem andar desleixado. Esses eram clichês de Hollywood, já desatualizados. Agora os cientistas são jovens, bonitos, sexies e até ricos. Que mudança! Em suma, você nem precisa ser um cientista para experimentar, basta ser um pesquisador. Tudo o que você precisa fazer é achar que tem o direito de fazer a si mesmo outras perguntas e tentar encontrar respostas diferentes. Acreditar-se com esse direito é se dar permissão para, mesmo sem saber, ousar imaginar e testar diferentes formas de se relacionar com os outros e com o meio ambiente. O direito de investigar independe de você ser bonito ou feio, de usar jaleco ou não, nem de seu gênero, raça ou identidade cultural. Crianças, analfabetos e funcionalmente diversos sabem como experimentar.

Experimentar não é o mesmo que ter experiências. Se você sentir uma dor, ganhar na loteria, descobrir uma paisagem ou der à luz um bebê, você aumentará suas experiências. Você vive mais, sabe coisas diferentes e pode entendê-las melhor, ou pode falar com outras referências. Você pode ter muita experiência e ter experimentado pouco. A experiência é individual e a experimentação, coletiva. Ter experiência é como ter intimidade ou vida interior. Ser experimental é ampliar a “extimidade” (termo lacaniano para o oposto de intimidade), reconfigurar a noção de vida pública. A diferença é óbvia: só experimenta a pessoa que contrasta experiências. Viver não basta: experimentar é uma forma de se relacionar com os outros. E vai além, implica construir um ensaio do que somos nós: nos colocarmos à prova.

Você não pode experimentar sozinho, porque a comprovação com os demais é necessária; ou, em outras palavras, você tem que construir um mundo compartilhado. E, claro, habitável! Não sei o que vem primeiro, se são os objetos que constituem e dão mobília ao espaço hospitaleiro ou se são as relações que incentivam a criação daquelas coisas que cuidam de nós. Não sei se as coisas nos tornam melhores ou se são as melhores pessoas que transformam as coisas. A ordem da equação não importa muito. O importante, eu acho, é que visualizemos essa codependência entre nós e nossas coisas. E como fazer coisas comuns? O que é esse ato tão importante que chamamos de experimentar?

Eliminemos de nossas mentes as imagens do telescópio, do vestido, do seminário e do especialista. Vamos ficar com o que resta, que não é pouco. Vamos separar o hardware do laboratório. Experimentar não tem nada a ver com a parafernália de papéis e dispositivos que podemos encontrar nos bastidores. Tudo o que precisamos é construir um objeto experimental. Ou, em outras palavras, produzir um objeto ao alcance de todos e expô-lo ao jogo de olhares e, agora sim, de experiências; isto é, do que chamamos de expectativas, desejos, medos e limitações. Vamos construir esse objeto sem deixar ninguém de fora. Coloquêmo-lo equidistante da ignorância de todes, para que ninguém possa apropriar-se dele facilmente. Vamos fazer esse objeto nos representar a todes. Vamos nos esforçar para que o objeto não seja apenas uma expressão dos valores que compartilhamos, mas também uma infraestrutura para garanti-los.

Agora, vamos imaginar um grupo de pessoas que são colocadas em modo experimental. Como elas deveriam se comportar? O que deveria acontecer? De longe, a coreografia parece a mesma do seminário. Há também aquele que foi convidado e nos oferece uma abordagem, um problema ou uma preocupação. Claro que se trata de alguém cujo conhecimento não está sob suspeita. O que se espera dos participantes? Podemos discordar e, com sorte, poderemos transformar a diferença num ativo que nos ensine a colaborar sem competir. A tarefa que temos diante de nós não é refinar sua proposta até garantirmos abordagens sólidas ou, em outras palavras, canônicas, padronizadas ou objetivas. Agora não estamos em um seminário. Tentamos criar outra maneira de construir juntos.

Os participantes renunciaram à ideia de que exista alguma ideia objetiva e melhor do que as outras. A renúncia não é uma rendição, pois a objetividade só é alcançável quando compartilhamos os instrumentos, conceitos, dados, protocolos e instâncias de validação. E isso, sim, é pedir muito. É caro, tedioso e disfuncional. Tanto é que reservamos isso aos objetos que podemos guardar dentro do laboratório. O objetivo é inatingível para o comum dos mortais, especialmente se o grupo for muito heterogêneo.

Entrar no modo experimental é ousar tornar públicas as diferentes maneiras com as quais o objeto que olhamos nos rejeita ou nos ignora. Construir um objeto experimental equivale a encontrar as palavras com as quais não nos sintamos excluídos ao nomeá-lo. Não será fácil, porque o mundo experiencial é infinito, labiríntico e elusivo, enquanto o mundo experimental tem que ser compartilhado, aberto e concreto. Uma pessoa pode ter várias experiências, enquanto um experimento deve recrutar várias pessoas. À medida que experimentamos, formamos uma comunidade. Mais do que nos reunirmos em torno de um ritual de limpeza, o mundo da experimentação evoca os rituais da comunhão.

Um grupo de pessoas em modo experimental rapidamente descobrirá aquilo que os divide e alguns ficarão tentados a sair. Sempre existirá alguém disposto a defender que suas evidências são mais numerosas e contrastantes. Nunca faltam aqueles que se sentem ameaçados por um conhecimento que ignora suas experiências. O que sempre fizemos foi tirar da conversa aqueles que não sabem e é por isso que muitos de nós discutimos se essa estratégia é politicamente sustentável e epistemicamente desejável. Temos que aprender a resistir e a não levantar da mesa.

Precisamos mais das habilidades do diplomata do que do metodólogo. Em vez de esperar novas evidências para emitir um julgamento conclusivo, temos o direito de confiar que todos os presentes se deixarão afetar e que irão reformular suas convicções em termos que consigam atrair mais adeptos, com palavras que ampliem o espaço comum. Vai ser lento, principalmente no começo, mas nos permitirá ir longe. Mais do que uma linguagem para especialistas, quase privada, encontraremos uma linguagem comum: uma linguagem que nos represente, uma linguagem hospitaleira, uma linguagem de todos nós.

O modo experimental não se limita a colher palavras inclusivas, pois não reúne uma turma de retóricos ou palavristas. Ele é projetado para construir juntos um objeto que nos represente. Ele deu vida a algo que não nos questiona, nem nos ignora, nem nos nega. Isso tornou a cidade mais habitável. Ele forneceu o espaço que ocupamos com coisas, materiais ou não, que nos abrigam. Criou um ecossistema onde deixamos de ser julgados como estranhos, diferentes ou deficientes. Preencher o mundo com tais objetos experimentais é mobiliá-lo para o convívio. Mais do que sacudi-lo, é mobilizá-lo.

Mais uma coisa: o modo experimental não se dá entre amigos de roda, mas em uma oficina de produção de objetos que cuidam de nós. E eles cuidam de nós de várias maneiras. Em primeiro lugar, como já dissemos, porque não nos negam nem nos ignoram: são hospitaleiros; segundo, porque são provisórios, sempre na expectativa de novas incorporações ou abordagens diferentes: não nos ameaçam, são abertos; e, terceiro, porque estruturam um mundo feito de nuances e diferenças: são recursivos. Mobilizar o mundo é uma tarefa que não poderemos realizar sem muita inteligência e não poucos desaprendizados. E, finalmente, não é tarefa para tribunos nem decoradores, nem para cientistas políticos ou urbanistas. Precisamos de muito mais do que especialistas. Ninguém sobra, mas faltam atores que nossos objetivos deveriam reconhecer: mobilizar o mundo é mais urgente do que movimentá-lo.

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