Eles não se rendem à mercadoria

Acampamento Terra Livre revelará povos que resistem a se encapsular em roupas, automóveis e cimento; que se desapegam; que querem a tecnologia sem abrir mão da identidade, diversidade e conexão com o cosmos

Por Angela Pappiani | Imagens: Acampamento Terra Livre, edições anteriores

Quando Kuwamutü, o criador, perguntou aos homens, recém-transformados de animais em gente, o que cada um gostaria de ter para afirmar sua identidade, os povos do Alto Xingu escolheram arcos de madeira forte, caramujos para confeccionarem seus adornos, o barro para as panelas, o beiju, as plumas… cada etnia escolheu a sua habilidade e sua forma de beleza. Quando o criador perguntou aos brancos, criados na mesma ocasião, eles escolheram a arma de fogo.

Para o povo Xavante, a história é semelhante. Os humanos, gente de verdade, viviam em harmonia até que um garoto se revela guloso, insatisfeito, ganancioso, querendo sempre mais e mais. Depois de uma decisão inesperada de sua mãe, é deixado pela família. Ele cresce sozinho e vai desbarrancando as margens do rio, afastando cada vez mais a margem onde se estabeleceu, criou família, conquistou roupas e armas de fogo, até que a outra margem fica tão distante que o povo Xavante já não o vê mais.

O chefe de Estado brasileiro, eleito por uma parcela não muito significativa da população, está revisitando os mitos de origem: ele fez sua escolha pelas armas de fogo, pelos tratores, por um sistema que destrói a natureza, que busca silenciar o conhecimento, o belo, o afeto, o que está em equilíbrio.

Estes dias, diante de tantas notícias que apenas comprovam que isso que temos travestido de governo são apenas gerentes do capital global, dos interesses mais imediatos e escusos, me veio à memória a fala dos sábios Xeramõi Guarani, os pajés que cantam para manter o céu suspenso.

Há mais de uma década, quando tínhamos a ilusão de estar caminhando para um Brasil mais igualitário, com direitos sendo batalhados e conquistados por parcelas excluídas da população, os sábios Guarani diziam que tempos difíceis estavam por chegar, tempos sombrios, de muito sofrimento. Era difícil ouvir essas previsões e encarar o rosto preocupado dos velhos. Sempre confiei na sabedoria ancestral e acreditei no que dizem os anciãos nas aldeias, mas naquele tempo eu queria que estivessem enganados.

Não demorou muito para a previsão começar a se materializar. As nuvens de tempestade que previam os anciãos se aproximaram, assustadoras, como aquele momento em que o grande Jaguar captura definitivamente o sol, deixando surgir a noite eterna, a queda do céu, o fim.

Os povos tradicionais que convivem hoje com o Estado Brasileiro já viveram, pelo menos uma vez em suas histórias, a queda do céu, o fim de seu mundo. O desencontro com o “branco”, o estrangeiro, o não-indígena, causa danos e perdas irreparáveis, sempre. Seja há 500 anos atrás, seja agora ou no futuro, as populações que conhecem a vida livre, na natureza, com sua sabedoria e conhecimento do espaço, do cosmos, de seu corpo, sem a dependência das mercadorias, um dia vivem o assombro do encontro com esse “outro”. Percebem que há outro tipo de pessoa, menos humana e natural, que vive encapsulada em roupas, capacetes, automóveis, prédios, aviões, apegada a coisas, transformando tudo a sua volta, deixando marcas cada vez mais pesadas e indeléveis sobre a terra.

E esses outros seres, que não são “o povo verdadeiro”, esses que abandonaram há muito o ensinamento de seu criador, agora dominam a paisagem, o ar, a água, corpos e almas, em nome de um novo deus, global, unânime, todo poderoso e onipresente, que a tudo vê e controla desde o espaço sideral até o subsolo mais profundo deste planeta. Acreditam eles…

Essa gente, criada para dominar, não conhece os seres e lugares dominados. Não conhece e não reconhece seu poder. Por isso vive sofrendo as consequências inevitáveis de suas ações. Reconstruindo cidades depois dos furacões, enchentes, secas e terremotos; remendando corpos depois das guerras, sucumbindo aos extremos da natureza, ao frio, ao calor, à falta de água, a todo tipo de veneno circulando nos rios e mares, ao ar que já não pode ser respirado.

Esse povo espalhou-se pelo mundo todo, subjugando os povos originários, as sabedorias ancestrais e parece agora mais enfurecido do que nunca, em sua ânsia de devorar tudo que é vivo e belo.

Os povos nativos que sobreviveram teimosamente aos planos de extinção, tiveram que aprender, à força, a conviver com essa nova ordem mundial, tentando viver dentro de sua tradição, mesmo quando isso parece quase impossível. São também vítimas das catástrofes provocadas pela queda do céu. Sofrem as consequências de ações com as quais não compactuam.

Não conheço todos os 305 povos que se reconhecem como indígenas no Brasil de hoje. Boa parte deles resiste dentro de seus territórios a todo tipo de violência e invasão, defendendo a natureza da qual são parte, defendendo uma forma de vida que valoriza cada pessoa, que se organiza no coletivo, que busca a alegria e a saúde e enxerga longe, o mundo das futuras gerações. Outros, e muitos, estavam ou ainda estão vivendo dentro das cidades ou nas suas periferias, escondidos, camuflados, esperando o momento de se revelarem, de externarem seus pensamentos e anseios de povo verdadeiro.

Os indígenas no Brasil hoje são mais de 1 milhão de pessoas, muito pouco perto dos cerca de 5 milhões que habitavam este pedaço de continente quando chegaram os portugueses. Mas com certeza posso afirmar que a grande maioria não quer ser diferente do que são, não querem trocar seus princípios e valores pelos do colonizador, não querem mudar de identidade ou de cor. Querem ser o que são porque não podem ser outro.

As promessas de uma vida melhor ofertadas pela sociedade dominante não convencem. Se nem mesmo os seus membros “brancos” acreditam, muito menos os negros, amarelos, mestiços, a grande maioria da população que não habita o andar de cima. Todos sentem na pele que há algo de muito errado. Não há, nem haverá, educação ou saúde de boa qualidade para todos, nem empregos ou aposentadoria. Não há água, saneamento, estradas, bens de consumo, lazer, segurança. E como acreditar que para os povos indígenas isso será diferente?

Por que trocar a floresta, o cerrado, os rios, os alimentos da roça, os remédios que a natureza provê por uma cesta básica, uma roupa descartável made in china, um cartão do SUS? Como trocar o conhecimento transmitido pelos anciãos pelo livro didático desconectado da realidade e as carteiras escolares que aprisionam as crianças? Por que trocar o ritual no pátio da aldeia pelo culto neopentecostal ou o capítulo da novela? Mas é exatamente isso que é proposto e imposto: mais do que a troca, o abandono do que se é. Não o diálogo, a ponderação, a garantia de direitos inalienáveis, a possibilidade de uma vida melhor, a proteção da natureza e dos conhecimentos milenares.

Depois de aceitar os espelhinhos e os facões, as comunidades indígenas são empurradas para a beira do abismo de onde podem vislumbrar o fim de seu mundo. Muitos andam iludidos, tentando correr atrás dessa fantasia prometida, acreditando que serão mais respeitados ou aceitos pela sociedade se usarem o tênis da onda, cantarem o hino religioso ou o nacional, comprarem o automóvel mais potente. Muitos quebram a cara e fazem o caminho de volta, valorizando as raízes.

Felizmente a maioria resiste, e busca caminhos de convivência com os novos tempos apropriando-se de forma positiva das novas tecnologias – sem abrir mão da identidade e diversidade, da conexão com a natureza e o cosmos.

Seria difícil listar aqui todas as ameaças que pairam sobre essa população. Mais de 305 povos que estão em todos os estados da federação e ainda cuidam dos lugares sagrados, onde a natureza está preservada.

Os territórios garantidos pela Constituição como um direito anterior ao Estado brasileiro não foram e, pelas ameaças dos novos gerentes, não serão demarcados. Os que foram demarcados estão sob ameaça de revisão e/ou de entrega ao agronegócio, às mineradoras, rasgados pelas estradas e linhas de transmissão de energia, inundados pelas hidrelétricas, espremidos pelas fazendas e cidades, com os rios poluídos. A agência governamental de proteção – a FUNAI, está com morte cerebral decretada enquanto os interessados tomam posse de seus órgãos e membros. Parte de suas atribuições já havia sido entregue aos ministérios da Educação e Saúde. Agora já não há perspectivas de ações afirmativas, com especificidades garantidas à grande diversidade de povos, línguas e culturas que temos o privilégio de ter em nosso país. Há dezenas de emendas à Constituição, projetos de leis ou planos diabólicos de apropriação do que ainda temos de melhor em nosso país – a biodiversidade, o conhecimento tradicional, a diversidade cultural, as artes e espiritualidade que mantêm os povos tradicionais vivos e nossa vida futura ainda garantida.

Os Guarani armados de arco e flecha e pintados de negro, cantando seus lindos cantos tradicionais no prédio da prefeitura de São Paulo no dia 27 de março em protesto à municipalização da saúde indígena. O discurso consciente de David Karai Popygua no palco do Lollapalooza, na abertura do show da banda Portugal. The man. Tudo isso revela a face guerreira desse povo, mostra que não estão domesticados, engolidos pela cidade que insiste em devorá-los há tanto tempo.

Os jovens que entoam cantos no seu idioma também cantam rap, estudam em universidades, lecionam nas escolas das aldeias. Eles não estão “integrados”, não disputam vagas de emprego nas filas quilométricas. Eles mantêm tradições, cuidam da pouca natureza que os cerca, ensinam amigos e aliados sobre um novo modo de vida. E lutam por seus direitos, contra o desrespeito do Estado que os ignora e não desiste de eliminá-los. O povo indígena do Brasil mais uma vez toma a liderança da luta e ocupa o espaço público com sua força e beleza. Aí dá uma vontade danada de pintar o corpo de urucum e jenipapo e celebrar com o coletivo os princípios e os desejos, o que queremos e é fundamental para a vida. Uma vontade de ser de verdade Povo Verdadeiro.

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3 comentários para "Eles não se rendem à mercadoria"

  1. Ivo Marcos Theis disse:

    Prezada Angela Pappiani:
    Você afirma, logo na entrada de seu interessante texto, que xs indígenas brasileirxs não querem “abrir mão da identidade, diversidade e conexão com o cosmos”. Ao lembrar disso, você faz um ponto importante. No entanto, uma contradição se desvela quando você afirma que xs indígenas brasileirxs “querem a tecnologia”. No contexto, imagino que você se refira às tecnologias dos “homens brancos”, da nossa sociedade produtora de mercadorias; caso contrário, você qualificaria, devidamente, a tecnologia a que se refere. A contradição salta daí: com a tecnologia dos homens brancos não há como não abrir mão da identidade, da diversidade e da conexão com o cosmos. Xs indígenas brasileirxs sabem disso. Elxs sabem que a tecnologia não é neutra. A tecnologia dos homens brancos rompe com o cosmos de suas respectivas comunidades. A nós nos cabe aprender também isso delxs: se queremos superar a sociedade produtora de mercadorias, temos que enfrentar, ao mesmo tempo, o seu imperativo tecnológico. Uma outra sociedade requer outra tecnologia.

  2. Odete Andrade Silva disse:

    Excelente! Não temos palavras suficientes para corroborar com tantas verdadeiras constatações! 3

  3. Li disse:

    Quando você apresenta no seu comentário a impossibilidade dos povos indígenas manterem a conexão com sua tradição fazendo uso da tecnologia, nos apresenta um ideal de mundo, como se romantizasse esse povo. Nessa romantização você coloca os povos indígenas na invisibilidade dos seus ideais, negando o contato com os benefícios do real que lhes é um direito.

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