A astúcia moralista do “seja você mesmo”

Alçada a mandamento, expressão sugere que sempre há, nos recônditos humanos, uma bússola ética de um eu essencial. Mas serve mais como escudo às metamorfoses da vida, ao tornar-se outro e perder-se — no amor ou em nós mesmos

Na mitologia grega, o personagem Ulisses ficou conhecido por sua astúcia. Suas habilidades diante dos perigos são descritas principalmente na Odisseia, poema grego atribuído a Homero. Um bom exemplo da astúcia de Ulisses encontra-se no episódio em que foge do ciclope Polifemo. Ao oferecer vinho ao ciclope, Ulisses informa que seu nome é “Ninguém”. Em seguida, elabora um plano para cegar Polifemo e fugir. Com a aproximação de outros ciclopes e questionado sobre a identidade de quem o havia cegado, Polifemo responde: Ninguém.

A astúcia é a habilidade de não se deixar enganar, ao mesmo tempo em que sabe fazer enganar para angariar vantagens. No episódio que narramos, nosso herói grego eleva o pronome indefinido “ninguém” à condição de nome próprio. Ulisses se passa por um outro – não se apresenta como Ulisses –, mas não um outro comum, e sim um outro que não pode ser identificado. Por fim, não se trata apenas de um outro que não pode ser identificado, e sim de um outro que neutraliza toda a ação – se ninguém cegou Polifemo, então pode-se questionar se não foi o próprio ciclope que se cegou ou se de fato essa ação ocorreu, nos conduzindo a um paradoxo.

A habilidade do herói Ulisses pode nos ajudar a entender uma expressão que tem circulado fácil e livremente em nossa época: “seja você mesmo!” Essa expressão não é exclusiva da língua portuguesa, mas é mais conhecida em sua versão original em inglês (be yourself) e pode ser reconhecida em diversos filmes e músicas estadunidenses. Seja como for, fica a pergunta: qual seria a astúcia dessa expressão, que nos parece tão evidente e verdadeira?

Para começar, lembremos que a expressão “seja você mesmo” está no modo imperativo, ou seja, transmite uma ordem, um convite, um pedido, um comando, um dever. Entendemos que não se trata de um convite ou de um dever qualquer, e sim de um dever moral, pois é uma orientação que define quem o ouvinte pode ou deve ser: o ouvinte não deve ser um servo, um rei, seu pai, seu ídolo ou um outro qualquer, e sim ele mesmo. Existiria um “si mesmo” em cada um de nós, uma referência de nossa identidade, um modelo daquilo que somos, a forma imutável a partir da qual fomos feitos. Aparentemente, esse “si mesmo” é confundido com uma certa noção de alma que habitaria todo ser humano. Em nosso caso, contudo, não estamos falando de uma alma genérica ou universal, e sim de uma alma específica e singular para cada um.

Se é preciso dizer que você deve ser você mesmo, é porque certamente houve situações em que você não foi você mesmo, comportamento que pode ser considerado imoral, pelo menos do ponto de vista que estamos analisando. Assim, se faz necessário que, ao ser você mesmo, você retorne àquele que você é, você se reconcilie consigo mesmo. Portanto, não somente haveria em você uma essência, um eu essencial, mas também você saberia qual é essa essência e qual seria o caminho de volta para casa.

Essa orientação não é fornecida em qualquer situação, mas mais precisamente em situações em que a pessoa envolvida possui dúvidas a respeito do que fazer sobre determinada questão ou de como deve ser diante dessa ou daquelas pessoas. Você não sabe como convidar aquele rapaz para tomar uma cerveja? Seja você mesmo! Está nervosa por conta da entrevista de emprego e não sabe como se comportar? Seja você mesma! Quer se reaproximar de sua ex-amiga? Seja você mesmo!

Por conta dos exemplos acima, podemos perceber que “ser você mesmo” se torna um mandamento ético, uma bússola moral capaz de norteá-lo naquelas situações em que você precisa lidar com... o outro! Essa orientação não é transmitida nos momentos de solidão, e sim no encontro com o outro. Ao nos encontrarmos com o outro, corremos o risco de deixarmos de ser quem nós somos ou mesmo de nos perdermos de nós mesmos por conta de nosso desejo de estar com esse mesmo outro. Dessa maneira, o mandamento que estamos analisando surge como uma proteção, uma defesa.

Depois de reconstituirmos seus “fundamentos éticos”, agora é necessário esclarecermos os limites do mandamento “seja você mesmo!” Já mencionamos que essa expressão pressupõe existir um eu interior, uma essência. Nesse caso, mesmo que nos comportássemos das mais variadas maneiras, nossa essência permaneceria a mesma. Reconciliar-se com nossa essência implicaria uma resignação a respeito daquilo que não pode ser mudado, implicaria um “estar de acordo” com aquilo que permanece sendo sempre a mesma coisa. Assim, nada de ficar mudando de opinião ou de afetos: ser você mesmo é conservar as mesmas opiniões a respeito do mundo, os mesmos afetos a respeito das pessoas.

Permanecer o mesmo diante do outro: consequência direta do mandamento que estamos analisando. No encontro com o outro, seja no amor, seja no trabalho ou em qualquer outra atividade produtiva ou criativa, deveríamos ficar protegidos contra a tentação de nos modificarmos, de nos transformarmos. Consequência muito pobre, diga-se de passagem. A riqueza de uma experiência amorosa não reside no fato de vivenciar afetos até então desconhecidos e, muitas vezes, de se tornar outra pessoa? Uma atividade produtiva não se torna mais interessante quando, ao seu término, percebemos que nos tornamos outros?

O encontro entre Polifemo e Ulisses nos conduz a um profundo estranhamento quando partimos do “seja você mesmo”. Para fugir e sobreviver, Ulisses tornou-se outro. Aparentemente, nosso herói grego foi um covarde, pois não foi capaz sequer de se identificar pelo nome, mas foi justamente por meio daquela astúcia que Ulisses conseguiu fugir e se manter vivo.

Pensemos, agora, em uma situação em que se torna outro, se passa por um outro, não para fugir de um encontro ou para conservar um encontro, e sim como efeito desse encontro. Uma metamorfose, um metamorfosear-se para poder continuar. Não uma metamorfose qualquer, e sim uma que nos conduza a uma preocupação menor e menos exigente com a fixação do próprio eu.

Se Ulisses tivesse se orientado pelo mandamento “seja você mesmo”, certamente teria mantido seu nome, sua “honra, mas também teria sido assassinado por Polifemo ou pelos outros ciclopes. Por outro lado, a astúcia de Ulisses o serviu para colocar fim àquele encontro com o Polifemo por meio do engano, por meio do engodo. Em uma terceira situação, podemos pensar em um encontro que promove transformação, de si e do outro.

Assim como Ulisses, depois de realizarmos essa viagem, podemos entender qual é a astúcia do mandamento “seja você mesmo”. Com esse mandamento, pressupomos que existe, no mais íntimo de nós mesmos, um “si mesmo”, um eu essencial que pode nos servir de bússola moral. Vasculhamos e vasculhamos, mas nunca o encontramos – justamente porque esse “si mesmo” é uma invenção, uma astúcia para nos protegermos do movimento, da transformação, do perder-se. Não se perde apenas objetos de amor, perde-se também a si mesmo.

O tornar-se outro no encontro com o outro talvez tenha se tornado, em nossa época, um sinal de fraqueza, de indignidade consigo mesmo. Se a falta é constituinte de todo e qualquer encontro – nos encontramos com o outro porque o outro nos falta –, então o encontro produtivo e criativo, mas principalmente o encontro amoroso, é o testemunho de nossa vulnerabilidade.

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