40 ideias de periferia

Livro denso, mas para “se ler no balanço do busão”, mostra uma periferia sem mistificação: histórica, complexa, potente e em constante disputa. Em trecho, as ações solidárias na pandemia, suas raízes ancestrais e operárias, e o fosso entre partidos e quebradas

Imagem: projeto Pé de Meia, desenvolvido pelos fotojornalistas Tadeu Vilani, Jefferson Botega, Bruno Alencastro e Jorge Aguiar

O texto abaixo é a ideia 35 do livro “40 Ideias de Periferia: história, conjuntura e pós-pandemia”, de Tiaraju Pablo D’Andrea, publicado pela Dandara Editora. Leia também artigo de Outras Palavras: Tiaraju D’Andrea: Periferia brasileira, além dos clichês

Sem nenhuma assistência estatal decente, as periferias combateram a disseminação do coronavírus por meio de uma prática tão antiga quanto fundamental para a sobrevivência dos mais pobres: a solidariedade. Solidariedade herança indígena, de cuidado compartilhado de crianças. Solidariedade herança africana, da partilha do alimento em roda. Solidariedade da classe trabalhadora, do fundo de greve e da mão amiga. Solidariedade feminina, da troca de saberes e da ajuda mútua. Esse legado foi reativado por meio de uma memória afetiva que não há neoliberalismo que consiga apagar, e o que vimos foi uma mobilização gigantesca que envolveu times de futebol de várzea, grupos de samba, movimento hip-hop, igrejas católicas, igrejas evangélicas, centros de umbanda, centros espíritas, torcidas organizadas, associações de moradores, estudantes, escolas, creches, movimentos de moradia, movimentos de saúde, movimento sem-terra, coletivos culturais, comerciantes e mais um sem fim de organizações. As atividades foram múltiplas, variando de confecção de máscaras até a distribuição de cestas básicas e a montagem de brigadas de orientação. A reconstrução do laço social é a única saída possível e deve continuar para além da pandemia. No entanto, as redes de solidariedade não conseguirão resolver tudo. Os recursos seguem concentrados nas mãos do Estado dominado pela elite. Lutar por esse recurso que é produzido pela classe trabalhadora também deve fazer parte das estratégias do “é nóis por nóis”, entendida aqui como a prática de ações realizadas por nós mesmos, sem intermediários, mas não necessariamente somente no território. Começa-se no território para então se pensar o mundo. A solidariedade em tempos de pandemia também fez renascer frentes políticas e uniu grupos com dificuldades de diálogo. Uma das questões mais notáveis foi a ausência de partidos políticos nos bairros. Em uma situação como esta, fez falta uma sede, uma portinha que seja, desde onde um partido político tivesse não mais que dez militantes pra contribuir na organização das distribuições de marmitas e de cestas básicas. Essas ausências em momentos cruciais expõem o fosso existente entre os partidos e as questões cotidianas da população, aprofundando o descontentamento com essas instituições, em particular, e com as eleições, em geral.

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