Trump, supremacia branca e nazismo: o elo persistente

Ao tentar impor sua força e interesses, em nome de suposta superioridade moral, Washington ressuscita a crença no Destino Manifesto. Foi ela que estabeleceu hierarquias raciais e o suposto direito à violência branca. Foi ela que inspirou Hitler

Karl May, escritor alemão que escrevia romances ambientados no Oeste estadunidense sem nunca o ter conhecido. Suas obras contribuíram para a surgir um ecossistema cultural que normalizou hierarquias raciais e a noção de expansão civilizatória violenta
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Título original:
Quando o mito governa – Destino Manifesto, supremacia branca e anticiência: a genealogia do America First

Antes que os regimes totalitários possam se impor,
a realidade precisa ser destruída
Hannah Arendt

Fronteira, raça e a longa sombra do século XIX

O trumpismo não inventou o ódio à ciência – apenas o elevou à condição de método político. Tampouco inventou o racismo como linguagem de Estado – apenas lhe devolveu centralidade institucional. A novidade é outra: pela primeira vez em décadas, a extrema direita norte-americana tenta transformar uma guerra cultural em engenharia administrativa, com diretrizes explícitas para capturar agências, domesticar a produção de dados e punir a autonomia do conhecimento.

Para compreender esse movimento, é preciso recuar: ao século XIX, ao mito do Destino Manifesto e à pedagogia da fronteira – quando a violência colonial foi apresentada como progresso inevitável e a supremacia branca como destino histórico. É dessa matriz que deriva, em linha sinuosa, mas persistente, a passagem da conquista do Oeste ao Lebensraum nazista, e deste ao America First contemporâneo.

A partir dessa matriz, este texto acompanha suas radicalizações no século XX, quando o mito da fronteira e da missão histórica foi transposto para o coração da Europa sob a forma do “espaço vital”, combinando racismo biológico, esoterismo político e uma relação instrumental com a ciência. Por fim, examina como esse mesmo padrão reaparece no século XXI, na reativação do slogan America First, na retórica de exclusão racial e no ataque sistemático ao método científico e às instituições do conhecimento – hoje formalizado em projetos políticos que tratam a razão como inimiga. A hipótese é direta: quando o mito governa, a realidade precisa ser neutralizada.

O Destino Manifesto: expansão como mandato moral

O Destino Manifesto surgiu nos Estados Unidos do século XIX como a crença de que a nação estaria predestinada – por desígnio divino, pela suposta superioridade moral associada aos valores do protestantismo anglo-saxão e pelo vigor racial – a expandir-se do Atlântico ao Pacífico. Tratava-se menos de uma estratégia política circunstancial do que de uma doutrina moral, que convertia a expansão territorial em dever histórico. A terra a oeste era descrita como vazia ou mal aproveitada; seus habitantes originários, quando reconhecidos, apareciam como entraves ao progresso.

Essa visão cumpriu uma função decisiva: naturalizar a violência. Guerras de extermínio, deslocamentos forçados, confinamento em reservas e destruição cultural passaram a ser apresentados como efeitos colaterais inevitáveis do avanço da civilização. A fronteira operou como pedagogia política: ensinou que a história avança pela substituição de povos considerados fracos ou atrasados por outros, tidos como superiores.

A fronteira e o indígena como “passado a ser superado”

O destino imposto aos povos indígenas foi central nessa pedagogia. Em poucas décadas, sociedades inteiras foram desestruturadas ou empurradas para territórios inóspitos. No imaginário dominante, o indígena ocupou um lugar ambíguo: ora idealizado como “bom selvagem”, digno e honrado, ora demonizado como bárbaro e irrecuperável.

Mesmo quando revestida de nostalgia ou tragédia, essa representação reforçava a ideia de que os indígenas pertenciam ao passado, enquanto o homem branco encarnava o porvir. A fronteira não era apenas um espaço geográfico, mas antes um limiar temporal e racial: cruzá-la significava subjugar povos considerados obsoletos e abrir caminho para uma nova ordem.

A romantização cultural da conquista e a exportação do mito

A força do Destino Manifesto não se limitou às políticas estatais; também se consolidou e expandiu-se por meio da cultura. Literatura, pintura e, mais tarde, cinema transformaram a conquista do Oeste em epopeia fundadora. A violência colonial foi estetizada, convertida em aventura moral, enquanto a expropriação de terras e o extermínio de povos eram diluídos em narrativas de heroísmo e de progresso inevitável.

É nesse ponto que a obra de Karl May adquire relevância histórica. Extremamente popular na Alemanha do final do século XIX e no início do XX, May escreveu romances ambientados no Oeste americano – como a série Winnetou – sem jamais ter conhecido a região. Seus livros apresentavam indígenas dotados de nobreza, coragem e honra, mas quase sempre condenados à derrota ou ao desaparecimento. A empatia individual coexistia com uma mensagem estrutural: a expansão branca era inexorável, e a história avançava por substituição.

Essa romantização teve efeitos que ultrapassaram o campo literário. Ao apresentar a conquista do Oeste como um processo quase natural – no qual povos “primitivos” cedem lugar a uma civilização superior –, Karl May contribuiu para internalizar, no imaginário europeu, a lógica colonial norte-americana. Não é irrelevante que, na Áustria dos Habsburgos, o jovem Adolf Hitler, leitor voraz de Karl May, tenha sonhado com as aventuras épicas da raça branca em terras da América. O Destino Manifesto tornava-se, assim, um modelo exportável: a ideia de que um povo investido de missão histórica teria não apenas o direito, mas o dever de ocupar territórios e submeter – ou eliminar – populações classificadas como inferiores.

Esse imaginário não se restringia aos Estados Unidos. Ele fazia parte de um espírito dominante no mundo branco europeu e norte-americano do final do século XIX, marcado pela crença na superioridade da raça branca e no direito das potências “civilizadas” de decidir o destino de outros povos. A Conferência de Berlim (1884–1885) foi a expressão mais acabada desse consenso colonial: representantes europeus retalharam o interior do continente africano à revelia de suas populações, traçando no mapa fronteiras artificiais que, em muitos casos, perduram até hoje. Assim como no Oeste americano, a violência colonial era legitimada como necessidade histórica, e a subjugação de povos inteiros apresentada como preço inevitável do progresso.

Não por acaso, a expansão da civilização branca na América do Norte foi observada com admiração por setores do pensamento político europeu no início do século XX. A expansão territorial norte-americana passou a ser vista como um precedente histórico bem-sucedido de dominação racial – uma gramática simbólica e política que seria radicalizada em outro contexto. O Lebensraum nazista – a ideia de “espaço vital” a ser conquistado no Leste europeu – dialoga estruturalmente com esse imaginário: povos eslavos e judeus seriam tratados como os indígenas da fronteira norte-americana, obstáculos históricos a serem removidos em nome da grandeza nacional.

Pesquisas recentes mostram, inclusive, que juristas e ideólogos nazistas analisaram leis de segregação e políticas migratórias dos Estados Unidos ao formularem sua própria legislação racial, buscando referências e limites jurídicos para a institucionalização do racismo.

Karl May não foi ideólogo do nazismo, nem defendeu políticas de extermínio. Mas suas obras participaram de um ecossistema cultural que normalizou hierarquias raciais e a noção de expansão civilizatória violenta. A fronteira americana, romantizada e despolitizada, ofereceu uma gramática simbólica que ajudou a legitimar, em outros contextos, projetos de dominação racial muito mais extremos.

Da fronteira americana ao século XXI

Esse legado não pertence apenas ao passado. Quando Donald Trump fala em muros, deportações em massa, países descritos como “indesejáveis” ou na necessidade de preservar a grandeza americana contra inimigos internos e externos, ele aciona uma tradição que associa identidade nacional, território e hierarquia racial. O America First não é apenas um slogan econômico ou isolacionista: ele ecoa o Destino Manifesto, deslocando a antiga expansão territorial explícita para formas contemporâneas de exclusão política, cultural e migratória.

Na América Latina, os efeitos dessa tradição não são meramente teóricos. Eles aparecem no repertório de intervenções, golpes, bloqueios e tutelas que, ao longo do século XX, fizeram do continente uma espécie de “fronteira externa” permanente – território a ser disciplinado em nome da ordem, do mercado e da civilização. O America First não contradiz essa história: ele a reorganiza, atualizando o velho direito de definir quem merece futuro e quem deve ser contido.

A fronteira física do século XIX desapareceu, mas suas categorias mentais permanecem ativas. Elas ressurgem na distinção entre cidadãos plenos e populações descartáveis, entre vidas protegidas e vidas sacrificáveis. Compreender essa genealogia é essencial para evitar a tentação de tratar o trumpismo como uma anomalia passageira, desvinculada de processos históricos mais longos.

Nazismo: ciência instrumental e mito político

A história do século XX oferece um precedente instrutivo. O nazismo não rejeitou a ciência por princípio; ele a subordinou a uma visão de mundo racial. Médicos, biólogos, estatísticos e juristas foram amplamente mobilizados, desde que operassem dentro de um quadro ideológico rígido. A eugenia e a biologia racial forneceram a linguagem técnica para políticas de esterilização, segregação e extermínio, enquanto evidências empíricas que contrariavam a doutrina eram ignoradas ou suprimidas.

Paralelamente, setores centrais do poder – sobretudo na SS – cultivaram um esoterismo político destinado a legitimar a supremacia ariana por meio de mitos de origem, símbolos rúnicos e narrativas pseudo-históricas. Instituições como a Ahnenerbe foram criadas para conferir aparência científica a conclusões previamente estabelecidas: o passado mítico substituía a história crítica; a crença, a evidência.

O resultado não foi irracionalismo caótico, mas uma forma moderna de dominação: ciência quando útil, mito quando necessário, violência convertida em dever histórico.

Trumpismo e a recusa contemporânea da ciência

O trumpismo inscreve-se nessa continuidade ao confrontar especialistas, universidades, imprensa e agências técnicas, ao tratar a ciência climática como conspiração, pandemia como exagero e dados oficiais como opinião. Em diferentes frentes, políticas públicas passam a ser formuladas não a partir de evidências, mas de intuições, lealdades e conveniências políticas imediatas.

Como advertiu Hannah Arendt, antes que regimes totalitários possam se impor, a realidade precisa ser destruída. Na política norte-americana, esse processo pode assumir a forma descrita por Richard Hofstadter como “estilo paranoico”: a mobilização emocional e a suspeição sistemática substituem a verificação empírica e o debate racional.

Project 2025: a engenharia institucional do negacionismo

Essa estratégia encontra formulação explícita no Project 2025. Longe de ser manifesto retórico, o documento propõe um redesenho institucional do Estado norte-americano com um objetivo preciso: subordinar as agências técnicas e científicas ao controle político direto do Executivo.

Em termos práticos, trata-se de um manual para colocar o Estado sob tutela ideológica: enfraquecer reguladores, controlar a produção pública de dados e reordenar as agências técnicas segundo critérios de lealdade política. Entre seus eixos estão o esvaziamento de órgãos reguladores, a politização da produção de dados e a substituição da expertise pela lealdade ideológica. A ciência não é abolida; é domesticada – o que não confirma a narrativa passa a ser rotulado como viés, militância ou sabotagem.

Nesse ambiente, dissemina-se o mote de que “as pessoas estão cansadas de especialistas”, frase celebrizada durante a campanha do Brexit, ao passo que o trumpismo converte a desconfiança em relação ao saber técnico e às instituições de conhecimento em princípio de governo, agora formalizado em diretrizes administrativas.

Project Esthere a teologia política

Em paralelo, iniciativas como o Project Esther explicitam a dimensão teológico-política do ataque à razão. Aqui, a ciência não é apenas um inconveniente: é tratada como uma ameaça moral. Educação crítica, estudos de gênero, pesquisa climática e biologia evolutiva tornam-se alvos prioritários não por seus resultados, mas por confrontarem visões de mundo baseadas em dogmas religiosos e identidades fechadas.

A lógica se aproxima daquela do esoterismo político nazista: quando a evidência contradiz a fé ou o mito identitário, a evidência deve ceder. A verdade deixa de ser buscada; passa a ser revelada.

Conclusão: a política contra a realidade

Raça, identidade e “civilização ocidental” reaparecem como categorias políticas destinadas a bloquear o escrutínio racional. Minorias, imigrantes, mulheres – especialmente as que reivindicam autonomia reprodutiva e igualdade de direitos – e cientistas são retratados como ameaças à ordem porque a ciência desmente hierarquias inventadas, expõe custos sociais e revela limites ecológicos e sanitários. O ataque à razão não é colateral; é estrutural: visa neutralizar aquilo que ainda pode conter o poder – a capacidade coletiva de distinguir fato de crença, método de fé, verdade de propaganda.

O fio que liga o Destino Manifesto ao America First e o mito racial à anticiência contemporânea não é acidental. Ele revela uma constante histórica: projetos autoritários prosperam quando substituem a realidade por narrativas impermeáveis à evidência. No século XIX, o mito da fronteira justificou a conquista territorial e o extermínio; no século XX, o mito racial legitimou o genocídio; no século XXI, o ataque à ciência busca silenciar aquilo que ainda pode resistir ao poder. Quando o mito governa, a razão não desaparece – ela é deliberadamente silenciada.

E é por isso que o combate ao autoritarismo hoje não é apenas eleitoral ou institucional: é também um combate pela sobrevivência do mundo factual, do método e da crítica – a única base possível para qualquer democracia que não seja apenas formal.

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