São os ETs uma distração política?
Debate sobre OVNIS intensificou-se nos últimos três anos. Talvez seja mais que “curiosidade científica” e “espetáculo midiático” – afinal, é eficaz ao ocupar o imaginário coletivo em tempos de guerras e crise, ao deslocar o conflito para fora da esfera humana…
Publicado 28/01/2026 às 16:56 - Atualizado 28/01/2026 às 16:57

Título original: O céu como campo de batalha: vida extraterrestre, psyops e a crise da hegemonia global
Protocolo analítico: o objeto real desta análise
Este artigo não investiga a existência de vida extraterrestre. Investiga a função política e psicológica da narrativa social sobre vida extraterrestre em um momento histórico específico, marcado por conflito global, escaladas híbridas, crise de legitimidade institucional e exaustão cognitiva das sociedades centrais. O objeto não é ontológico nem científico. É material, comunicacional e estratégico.
Declarações públicas de políticos, falas ambíguas de autoridades militares, vazamentos atribuídos a fontes anônimas, reportagens especulativas e a proliferação de intermediários autodeclarados “insiders” são tratados aqui como eventos políticos em si, não como evidências factuais do extraordinário. O interesse analítico está menos no conteúdo literal dessas alegações e mais no modo como elas circulam, no timing de sua aparição, nos atores que as amplificam e nos efeitos mensuráveis que produzem sobre atenção, medo e tomada de decisão coletiva.
A abordagem rejeita dois atalhos igualmente improdutivos. O primeiro é o conspiracionismo, que pressupõe um comando central onisciente e intencional, capaz de controlar integralmente narrativas complexas em ecossistemas informacionais fragmentados. O segundo é a ingenuidade, que trata grandes deslocamentos simbólicos como resultado espontâneo de curiosidade pública ou acaso midiático. Entre esses extremos, trabalha-se com hipóteses concorrentes e verificáveis, incluindo explicações prosaicas baseadas em erro e limitação de dados, a possibilidade de fenômenos humanos associados a tecnologias sensíveis, o uso histórico de narrativas extraordinárias como cobertura para capacidades estratégicas e, sobretudo, a hipótese de psyop funcional, na qual o efeito político emerge da convergência de incentivos distribuídos, independentemente de uma diretiva explícita.
O farol analítico combina realismo político e psicologia comportamental. Parte-se do pressuposto de que Estados e instituições agem para preservar poder, reduzir vulnerabilidades e manter liberdade de ação em contextos de competição sistêmica, e de que narrativas eficazes são aquelas capazes de modular comportamento coletivo por meio da gestão da atenção, do medo e da incerteza. Nesse sentido, a questão central não é se uma narrativa é verdadeira, mas se ela é útil, para quem, em que contexto e com quais consequências.
Ao longo do texto, o debate será reconduzido sistematicamente ao terreno da causalidade histórica e dos efeitos observáveis. Quando uma narrativa reorganiza o espaço público, desloca o foco de conflitos materiais em curso e favorece sigilo, exceção e autoridade, ela deve ser analisada como instrumento de poder, não como curiosidade cultural. É a partir desse enquadramento que a atual centralidade do tema extraterrestre será examinada.
O fato político do presente: por que o hype importa mais do que a verdade
Em janeiro de 2026, o retorno do tema da vida extraterrestre ao centro do debate público não decorre de descobertas científicas conclusivas, mas de uma reconfiguração do ecossistema político-midiático. O dado relevante não é a existência de novos fatos, e sim a persistência coordenada da pauta por meio de declarações ambíguas, reportagens especulativas e vazamentos sem lastro verificável, tratados como se fossem prenúncio de revelações iminentes.
Esse hype se expressa de forma concreta. Autoridades políticas e militares recorrem sistematicamente à fórmula do “não podemos confirmar nem negar”. Veículos de imprensa transformam ausência de prova em mistério contínuo. Personagens apresentados como ex-funcionários ou fontes próximas ao aparato de segurança ocupam o espaço da evidência com testemunhos indiretos. O resultado é um ciclo comunicacional autorreferente, no qual a repetição substitui a demonstração e a expectativa passa a ser o próprio produto.
O aspecto decisivo é que essa dinâmica produz efeitos políticos reais, independentemente da veracidade do conteúdo. Ela captura a atenção pública de maneira prolongada, introduz o léxico da ameaça e normaliza o sigilo como condição do debate. Em vez de exigir posicionamento racional sobre guerras, sanções, disputas energéticas ou coerção institucional, a pauta desloca o foco para o indeterminado, onde nenhuma decisão concreta é cobrada e nenhuma responsabilidade histórica pode ser atribuída.
Esse deslocamento não é neutro. Em contextos de alta tensão internacional e desgaste interno, pautas de baixa auditabilidade e alto impacto emocional tornam-se funcionalmente superiores às discussões sobre poder material. Elas permitem reorganizar o espaço público sem enfrentar diretamente conflitos que dividem, custam capital político ou expõem contradições estruturais. O hype extraterrestre cumpre exatamente esse papel.
A questão estratégica, portanto, não é se algo novo foi descoberto, mas por que essa narrativa voltou a circular com tanta intensidade agora e por que ela é tratada como relevante mesmo na ausência de evidências conclusivas. Quando a dúvida se torna permanente e a revelação é sempre adiada, o debate deixa de ser informativo e passa a ser operacional. Nesse estágio, o tema já não pertence ao campo da ciência, mas ao da gestão da atenção e do medo.
O hype como fato histórico verificável: datas, eventos e a institucionalização da incerteza (2023–2026)
O retorno do tema da vida extraterrestre ao centro do debate público entre 2023 e janeiro de 2026 não pode ser compreendido como resultado de descobertas científicas disruptivas. Trata-se de um fenômeno historicamente datável, sustentado por eventos institucionais, audiências parlamentares, relatórios oficiais, ciclos reiterados de cobertura midiática e episódios específicos de espetacularização que demonstram um aumento mensurável da circulação de especulações. O hype não é uma impressão difusa; ele se estrutura como sequência de fatos públicos.
O marco inicial dessa inflexão recente ocorre nos Estados Unidos, em 26 de julho de 2023, quando a Câmara dos Representantes realiza a audiência intitulada “Unidentified Anomalous Phenomena: Implications on National Security, Public Safety, and Government Transparency”. O evento, amplamente transmitido e repercutido, introduz no espaço público depoimentos de ex-militares e ex-funcionários de agências de segurança que alegam conhecimento indireto sobre programas secretos envolvendo UAPs. Independentemente da fragilidade probatória desses relatos, a audiência inaugura uma fase: o tema passa a ser tratado formalmente como assunto de segurança nacional.
A partir desse ponto, a pauta deixa de ser episódica e assume caráter contínuo. Em março de 2024, o Departamento de Defesa dos EUA, por meio do All-domain Anomaly Resolution Office (AARO), publica relatório anual informando o recebimento de 757 relatos de fenômenos anômalos, sendo 485 registrados apenas no período entre maio de 2023 e junho de 2024. O dado é relevante não pelo conteúdo dos casos, mas por demonstrar a normalização burocrática do fenômeno: há coleta sistemática, classificação e reporte periódico ao Congresso.
Essa institucionalização se aprofunda em 13 de novembro de 2024, quando ocorre nova audiência no Congresso norte-americano dedicada ao tema da “transparência” e da liberação de informações classificadas sobre UAPs. O enquadramento muda: não se trata mais de investigar eventos específicos, mas de discutir o direito do público a saber o que o Estado “eventualmente” ocultaria. A incerteza torna-se o próprio objeto político.
Em 9 de setembro de 2025, a House Oversight Committee, por meio da Task Force on the Declassification of Federal Secrets, realiza a audiência “Restoring Public Trust Through UAP Transparency and Whistleblower Protection”. O título é emblemático: UAPs passam a ser associados diretamente à crise de confiança institucional e à proteção de denunciantes. O tema se consolida como ferramenta discursiva em um contexto de desgaste do Estado e polarização interna.
Esse movimento não permanece restrito aos Estados Unidos. No Brasil, em 16 de setembro de 2025, a Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados realiza audiência pública para debater fenômenos aéreos não identificados, sigilo estatal e Lei de Acesso à Informação. O evento é noticiado por veículos da imprensa nacional, incluindo a CNN Brasil, marcando a entrada formal do tema no circuito político-institucional brasileiro. O dado é decisivo: o assunto atravessa fronteiras e passa a operar como pauta global, não como excentricidade norte-americana.
Paralelamente às audiências e relatórios, a mídia tradicional intensifica a cobertura. Entre 2024 e 2026, grandes veículos publicam matérias recorrentes baseadas em fórmulas narrativas semelhantes: ausência de prova conclusiva combinada com linguagem de mistério e expectativa. O tema deixa de ser tratado como curiosidade científica e passa a integrar o noticiário político e tecnológico, com chamadas que enfatizam o “não explicado”, o “estranho” e o “potencialmente revelador”.
É nesse ambiente já saturado de ambiguidade que emerge o episódio do objeto interestelar 3I/ATLAS, observado a partir do final de 2025 e amplamente discutido em janeiro de 2026. O objeto, identificado por sistemas de monitoramento astronômico, é rapidamente convertido em evento midiático global após a circulação de hipóteses minoritárias sugerindo possível origem artificial. Em resposta à escalada especulativa, a NASA publica comunicados rejeitando a hipótese de nave extraterrestre, enquanto veículos internacionais noticiam as negativas como parte do próprio enigma. O padrão é recorrente: negação institucional não encerra o debate, mas o realimenta.
Em 16 de janeiro de 2026, transmissões ao vivo organizadas por projetos de observação astronômica acompanham a passagem do 3I/ATLAS, transformando um evento técnico em espetáculo global acessível ao público leigo. A simultaneidade entre observação científica, cobertura jornalística e circulação de vídeos especulativos em plataformas digitais consolida o objeto como catalisador do hype naquele momento específico.
O elemento final de espetacularização surge quando respostas institucionais ambíguas passam a ser noticiadas como fato em si. Reportagens internacionais destacam que agências estatais evitam confirmar ou negar informações adicionais sobre o objeto, reforçando a lógica do “mistério permanente”. A gestão da incerteza, mais do que o fenômeno observado, torna-se o centro da narrativa pública.
A sequência desses eventos, distribuídos ao longo de três anos, demonstra que o hype extraterrestre não é produto de um único episódio, mas de uma acumulação histórica. Audiências em 2023, relatórios em 2024, novas audiências em 2025, expansão internacional da pauta e espetacularização de casos específicos em 2026 compõem um ciclo contínuo de atenção. O efeito político é mensurável: o tema permanece ativo no espaço público mesmo sem avanço empírico correspondente.
Dessa forma, o hype deve ser compreendido como fenômeno histórico estruturado, sustentado por instituições, mídia e plataformas. Ele não depende da confirmação da hipótese extraterrestre para produzir efeitos. Sua eficácia reside na capacidade de ocupar tempo, atenção e imaginação coletiva em um período marcado por guerras, coerção econômica e crise de legitimidade. Nesse contexto, a narrativa não opera como curiosidade científica, mas como tecnologia contemporânea de gestão da incerteza.
O mecanismo psicológico central: atenção capturada, medo difuso e obediência cognitiva
Narrativas sobre vida extraterrestre operam com alta eficiência porque ativam mecanismos básicos da psicologia comportamental, especialmente aqueles ligados à atenção, à percepção de ameaça e à gestão da incerteza. Em contextos de instabilidade, o cérebro humano prioriza estímulos associados a risco existencial. A hipótese de um agente não humano, desconhecido e potencialmente superior funciona como um sequestrador automático de atenção, deslocando o foco coletivo de conflitos complexos para um único eixo simbólico de perigo.
O primeiro mecanismo explorado é a atenção orientada à ameaça. Diferentemente de disputas políticas ou econômicas, que exigem contexto e interpretação, a ideia de uma ameaça externa absoluta é intuitiva e transversal. Ela atravessa clivagens ideológicas, religiosas e culturais, reduzindo a necessidade de mediação racional. O medo, nesse caso, não precisa ser intenso para ser eficaz; basta ser difuso e permanente.
O segundo mecanismo é a heurística da agência. Diante de fenômenos ambíguos, indivíduos tendem a buscar um agente intencional por trás dos eventos. Quando esse agente é apresentado como externo à ordem humana, a narrativa oferece uma explicação totalizante para um mundo percebido como caótico. Crises econômicas, guerras, colapsos institucionais e perda de controle social passam a ser simbolicamente reorganizados em torno de uma causa externa, o que alivia a ansiedade cognitiva no curto prazo, mas empobrece a análise estrutural.
O terceiro mecanismo é a gestão da ambiguidade prolongada. A narrativa extraterrestre não se fecha. Ela opera em estado intermediário contínuo, sem confirmação definitiva e sem negação conclusiva. Essa ambiguidade mantém o sistema psicológico em alerta constante, produzindo engajamento recorrente e fadiga cognitiva. O público acompanha, especula e reage, mas perde capacidade de hierarquizar problemas e sustentar atenção em conflitos materiais concretos.
Há ainda um efeito decisivo: a substituição da evidência pela autoridade. Em cenários de incerteza prolongada, a validação empírica cede lugar à validação social. Falas de militares, políticos ou supostos insiders passam a funcionar como atalho cognitivo, reduzindo a exigência de prova. Esse mecanismo favorece a aceitação passiva do sigilo e enfraquece a demanda por transparência.
O resultado combinado desses processos é um estado de obediência cognitiva suave. As pessoas não são convencidas de uma tese específica, mas condicionadas a aceitar a suspensão do debate racional. Em termos estratégicos, isso equivale a uma forma avançada de controle comportamental, na qual a atenção coletiva é mantida ocupada, ansiosa e dependente de mediação institucional. Nesse ponto, a narrativa já cumpre uma função de poder, independentemente de sua origem ou veracidade.
A vantagem estratégica do “não humano”: consenso, sigilo e despolitização
A narrativa da vida extraterrestre oferece uma vantagem estratégica que ameaças tradicionais não conseguem replicar. Ao deslocar o conflito para fora da esfera humana, ela opera em um plano onde o dissenso se torna disfuncional. Inimigos convencionais exigem posicionamento político, geram controvérsia e expõem interesses. O “não humano”, ao contrário, produz alinhamento emocional automático. Não convoca debate, convoca coesão.
O primeiro ganho é o consenso negativo transversal. Diante de uma ameaça indefinida e absoluta, diferenças ideológicas perdem centralidade. A crítica parece inadequada, a divergência soa irresponsável. Esse efeito é particularmente valioso em contextos de polarização interna, pois suspende temporariamente o conflito político sem resolvê-lo, deslocando-o para um plano simbólico superior.
O segundo ganho é a neutralização do antagonismo social. Ao enquadrar o problema como externo à história, a narrativa dilui conflitos estruturais. Questões como imperialismo, desigualdade, guerra e coerção institucional deixam de ser percebidas como produto de decisões humanas concretas e passam a parecer contingências menores diante de uma suposta ameaça existencial. O conflito de classes é substituído por um imaginário de sobrevivência coletiva que bloqueia a responsabilização.
O terceiro ganho é a elasticidade do sigilo. Diferentemente de ameaças humanas, que exigem provas, prazos e respostas verificáveis, a hipótese extraterrestre tolera indefinição prolongada. O sigilo deixa de ser exceção e passa a ser condição natural do debate. A ausência de dados não enfraquece a narrativa; ao contrário, a sustenta. Isso reduz drasticamente o custo político da opacidade.
Por fim, há a polivalência narrativa. A mesma história atende a públicos distintos sem fricção. Para o campo militar, justifica vigilância e orçamento. Para o político, oferece pauta de alto impacto sem compromisso decisório. Para a mídia, garante atenção contínua. Para parcelas da sociedade, organiza crença e pertencimento. Essa adaptabilidade torna a narrativa resiliente e difícil de desmontar.
Comparada a dispositivos anteriores baseados em inimigos humanos, a narrativa do “não humano” representa um salto qualitativo. Ela não precisa de eventos reiterados para se sustentar. Vive da possibilidade permanente. Em um mundo conflagrado, essa é uma tecnologia política de longo alcance: organiza o medo, preserva o sigilo e desloca a política para fora da história.
O timing histórico: por que essa narrativa ganha tração agora
Narrativas desse tipo não emergem com força em períodos de estabilidade. Elas ganham centralidade quando o custo político da transparência aumenta e quando o conflito material se torna difícil de administrar no espaço público. O retorno do hype extraterrestre em 2025–2026 coincide com um momento de tensão sistêmica elevada, tanto no plano internacional quanto no doméstico, especialmente nos Estados Unidos.
Externamente, o cenário é de coerção aberta. Escaladas no Oriente Médio, disputas no Indo-Pacífico, pressões no Ártico, conflitos energéticos na América Latina e fraturas crescentes em alianças tradicionais criam um ambiente no qual decisões de alto risco precisam ser tomadas com rapidez e baixo escrutínio. Nesse contexto, narrativas que desviam a atenção e reduzem a demanda por explicações detalhadas tornam-se funcionalmente valiosas. Elas não substituem a política de poder, mas amortecem seu impacto cognitivo.
Internamente, os Estados Unidos atravessam uma crise de governabilidade marcada por polarização extrema, desgaste institucional e divisões profundas dentro das próprias coalizões conservadoras e progressistas. O conflito deixou de ser apenas programático e passou a ser identitário. Pautas que exigem responsabilização direta por guerras, sanções, orçamento militar ou política externa elevam o risco de ruptura política. Em contraste, uma narrativa de ameaça abstrata permite reorganizar o debate sem exigir tomada de posição concreta.
O ponto central é que o timing não é acidental. Em momentos de crise hegemônica, a disputa deixa de ser apenas por território ou recursos e passa a ser também pelo controle do campo perceptivo. Governar torna-se, em grande medida, gerir atenção, medo e expectativa. A narrativa extraterrestre se encaixa perfeitamente nesse cenário porque oferece choque simbólico sem fechamento, urgência sem decisão e medo sem inimigo humano identificável.
Não se trata de desviar totalmente o olhar da sociedade, mas de fragmentá-lo. Enquanto conflitos reais seguem em curso, o espaço público é ocupado por uma pauta que consome energia cognitiva e dificulta a articulação de críticas consistentes. O resultado é um ambiente politicamente mais estável na superfície e estruturalmente mais tenso no fundo.
É por isso que o retorno dessa narrativa deve ser lido como sintoma, não como causa. Ele revela um sistema sob pressão, no qual administrar percepções torna-se tão importante quanto administrar exércitos, sanções ou alianças. Quando a história entra em zona de atrito, o céu volta a ser convocado como instrumento de poder.
Como isso opera na prática: cobertura, disputa interna e psyop funcional
A eficácia da narrativa extraterrestre não depende de um plano centralizado nem de coordenação total. Ela se sustenta por mecanismos operacionais plausíveis, coerentes com incentivos institucionais reais e amplamente observáveis em contextos de competição estratégica. Três desses mecanismos explicam como o fenômeno se produz e se mantém sem recorrer a hipóteses frágeis.
O primeiro é o uso da narrativa como cobertura para capacidades sensíveis. Em disputas tecnológicas e militares, preservar sigilo é vantagem estratégica. Fenômenos classificados como “não identificados” funcionam como envelope narrativo conveniente para testes de plataformas, sensores, drones e sistemas de guerra eletrônica. Ao deslocar a atenção para o extraordinário, reduz-se o escrutínio técnico sobre o ordinário, preservando liberdade de experimentação e negando informação útil a adversários. O ganho é direto e o custo político, mínimo.
O segundo mecanismo é a disputa interna entre facções do próprio Estado e do complexo político-industrial. Vazamentos, declarações ambíguas e dossiês incompletos não precisam ter como alvo a sociedade. Muitas vezes operam como instrumentos de pressão entre agências, setores militares, atores políticos e interesses privados. Ao trazer o tema para o debate público de forma controlada, uma facção pode justificar orçamento, ampliar competências, bloquear auditorias ou constranger rivais. A narrativa funciona como alavanca indireta de poder.
O terceiro mecanismo, o mais relevante, é a psyop funcional sem comando central. Nesse caso, o efeito emerge da convergência de incentivos distribuídos. A mídia busca audiência, plataformas amplificam engajamento, políticos exploram ambiguidade, militares protegem sigilo, influenciadores constroem capital simbólico e o público responde com curiosidade e ansiedade. Nenhum ator controla o processo como um todo, mas o resultado agregado é o de uma operação psicológica de larga escala, capaz de reorganizar atenção, emoções e debate público.
O ponto decisivo é que esse mecanismo dispensa prova de intenção. Do ponto de vista estratégico, o que importa não é se alguém planejou conscientemente uma psyop, mas se o sistema produziu efeitos típicos de uma. Quando uma narrativa prolonga ambiguidade, desloca causalidade histórica, normaliza sigilo e favorece exceção, ela já cumpre uma função de poder.
Esses três mecanismos podem operar simultaneamente, reforçando-se mutuamente. O resultado é uma assimetria clara entre impacto psicológico e custo político. Poucas narrativas conseguem produzir tanto engajamento, medo difuso e reorganização cognitiva com tão pouca exigência de prestação de contas. É essa relação custo-benefício que explica por que o tema se mantém vivo e por que ele é estrategicamente atraente em um mundo sob tensão crescente.
Os efeitos sistêmicos: cultura, política e mente sob reorganização
Quando a narrativa da vida extraterrestre se estabiliza como pauta recorrente em um ambiente de crise, seus efeitos deixam de ser episódicos e passam a operar de forma sistêmica. O impacto real não está na crença literal, mas na reorganização simultânea da cultura, da política e do funcionamento psicológico coletivo.
No plano cultural, o efeito é uma regressão simbólica funcional. O mundo volta a ser interpretado a partir do mistério e da exceção, não da história e da causalidade social. O céu reassume o papel de instância superior de sentido, deslocando o olhar do terreno onde decisões humanas produzem guerra, desigualdade e coerção. Esse reencantamento não é ingênuo. Ele reduz a disposição para análise crítica e transforma conflitos materiais em enigmas difusos, mais fáceis de aceitar do que de enfrentar.
No plano político, a consequência é a normalização do sigilo e da excepcionalidade. Narrativas de ameaça indeterminada criam um ambiente no qual exigências de transparência, controle civil e responsabilidade democrática parecem impróprias ou perigosas. O poder passa a operar de forma preventiva e opaca, amparado por um clima permanente de urgência. Não é necessário decretar estados de exceção formais; basta produzir a percepção contínua de risco.
No plano cognitivo, instala-se a fadiga epistêmica. A circulação constante de informações incompletas, versões contraditórias e promessas de revelação futura corrói a capacidade coletiva de hierarquizar fatos e sustentar atenção prolongada sobre problemas reais. O pensamento crítico não desaparece, mas se fragmenta. Tudo parece possível, nada parece conclusivo. Esse colapso da hierarquia cognitiva favorece a governança pelo ruído.
No plano psicológico, o efeito predominante é a ansiedade difusa acompanhada de busca por autoridade. A ameaça não humana ativa medos arcaicos de perda de controle e impotência. Em contextos assim, cresce a disposição para delegar decisões, aceitar narrativas simplificadoras e tolerar medidas extraordinárias em nome da segurança. Ao mesmo tempo, a incerteza prolongada alimenta crenças conspiratórias, que oferecem coerência emocional onde falta coerência empírica.
Esses efeitos não atuam isoladamente. Eles se reforçam em circuito. A regressão cultural legitima a exceção política, que aprofunda a fadiga cognitiva, que intensifica a ansiedade psicológica, que por sua vez aumenta a aceitação do sigilo e da autoridade. O resultado é um ambiente social mais governável e menos transformável, no qual estruturas de poder ganham espaço enquanto a capacidade coletiva de organizar resistência informada se enfraquece.
Nesse estágio, a narrativa já cumpriu sua função estratégica. Não é necessário que ela se confirme ou se encerre. Basta que continue ocupando o lugar que antes pertencia à história.
Como não ser capturado: critérios estratégicos para leitura crítica
Em um ambiente saturado por narrativas de alto impacto emocional, a defesa mais eficaz não é a negação automática nem a adesão acrítica, mas a capacidade de leitura estratégica. Identificar uma psyop funcional exige menos acesso a segredos e mais atenção a padrões verificáveis de circulação, validação e efeito.
O primeiro critério é a cadeia de evidência. Narrativas legítimas produzem dados rastreáveis, com origem clara, método identificável e possibilidade de verificação independente. Quando o debate se sustenta indefinidamente em fragmentos descontextualizados, testemunhos indiretos e informações classificadas sem horizonte de auditoria, o problema deixa de ser científico e passa a ser político.
O segundo critério é o adiamento recorrente da prova. Psyops funcionais vivem de promessa. A revelação está sempre próxima, mas nunca chega. Esse adiamento mantém a atenção mobilizada e impede o fechamento cognitivo. Quando o prazo é constantemente deslocado, o efeito já foi produzido.
O terceiro critério é a substituição da evidência pela autoridade. Em cenários de incerteza, falas de figuras com capital simbólico passam a ocupar o lugar da demonstração empírica. O argumento “alguém que sabe disse” reduz a exigência de prova e normaliza o sigilo como virtude.
O quarto critério é a sincronização com momentos de crise. Picos de visibilidade dessas narrativas costumam coincidir com escaladas externas, disputas orçamentárias, fraturas institucionais ou desgaste de legitimidade. A correlação temporal não prova intenção, mas revela funcionalidade.
O quinto critério é a circularidade informacional. Quando mídia, redes e fontes se citam mutuamente sem recorrer a dados primários independentes, o debate passa a se autoalimentar. A repetição cria aparência de solidez onde há apenas eco.
Por fim, o critério decisivo é o efeito institucional. Quando uma narrativa resulta em mais sigilo, mais orçamento, mais exceção e menos transparência, ela já operou como instrumento de poder. Independentemente de sua veracidade, alterou o equilíbrio político.
Aplicar esses critérios não elimina o fenômeno, mas impede a captura total do debate. Em um mundo conflagrado, essa capacidade de discernimento é condição mínima de soberania cognitiva.
Conclusão: defender a história contra o céu
O retorno da narrativa extraterrestre em um contexto de coerção global não é um desvio curioso, mas um sintoma histórico. Ele emerge quando o conflito material se intensifica e quando governar pela transparência se torna oneroso demais. Nesse cenário, narrativas que reorganizam atenção, medo e consenso sem exigir responsabilização direta tornam-se politicamente úteis.
A eficácia dessa narrativa não depende de sua confirmação factual. Depende de sua capacidade de deslocar o olhar coletivo. Ao transferir o eixo do conflito para o indeterminado, ela suspende a causalidade histórica e enfraquece a leitura material do poder. Guerras, sanções, desigualdades e coerções em curso perdem centralidade diante de um mistério permanente que nunca se resolve.
Nada disso exige conspiração total ou comando central. Basta um ecossistema informacional ajustado a incentivos claros, no qual mídia, Estado, plataformas e público interagem de forma previsível. O resultado agregado é uma operação psicológica de larga escala, capaz de produzir governabilidade pelo ruído e pela ansiedade difusa.
A questão estratégica decisiva não é o que pode existir no céu, mas o que deixa de ser visto no chão quando o céu ocupa o centro do debate. Em tempos de crise hegemônica, defender a história contra o mistério não é ceticismo vazio. É lucidez política. É condição básica para preservar a capacidade coletiva de compreender, contestar e transformar o mundo real.
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