Imediatez e a ausência de futuro

Ao investigar tanto a crise de perspectivas quanto a mediações políticas, livro da Anna Kornbluh disseca o “absolutismo do presente”, marca de nossa época. Mas sugere: há algo a ser feito para que o amanhã seja um horizonte desejado, disputado e construído

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Por Rafael Rodrigues da Costa | Imagem: Marcelo Simonka

A ideia de que o futuro será melhor do que o presente constituiu, por longo tempo, um dos pilares normativos mais importantes da modernidade. Progresso, desenvolvimento e planejamento operavam como horizontes para a organização da vida social, orientando expectativas coletivas, políticas públicas e utopias de transformação.

Nas primeiras décadas do século XXI, contudo, esse horizonte agora parece uma “ideia fora do lugar”. Em vez da promessa de melhoria contínua do tempo presente, o futuro passa a ser percebido como um tempo sinistro: uma ameaça, um risco ou mera intensificação das precariedades em curso.

Pesquisas recentes capturam essa transformação. Segundo levantamento da UNICEF-Gallup (2023), realizado em 55 países, mais de um terço dos jovens entre 15 e 24 anos acreditam que as crianças de hoje terão condições econômicas piores do que as de seus pais, percepção que sobe para 50% entre adultos acima de 40 anos. Nos países de alta renda o pessimismo é ainda maior: 59% dos jovens e 65% dos adultos avaliam que a próxima geração viverá pior do que a atual.

No Brasil, esse cenário assume contornos ainda mais agudos. De acordo com o Relatório de Futuros 2025, realizado pela Teach The Future Brasil, 62% dos jovens brasileiros de 18 a 28 anos expressam medo do futuro, e 78,5% associam o amanhã à ansiedade — fenômeno descrito pela pesquisa como “futurofobia”.

Não resta dúvida de que existem boas razões para isso. Uma geração formada sob o aprofundamento das desigualdades sociais, à sombra de um colapso climático cada vez mais evidente, violência em escala local e internacional, precarização do trabalho, fragilização dos direitos sociais, encarecimento do custo de vida. Tudo isso atravessado por um clima de polarização política e desconfiança permanente nas instituições, compõe uma vivência na qual o amanhã aparece menos como possibilidade de melhora de vida e mais como intensificação das crises e inseguranças do presente.

Essa erosão do futuro ajuda a compreender por que a experiência social contemporânea se reorganiza cada vez mais em torno do agora. Sob o imperativo da urgência, da pressa, da imersão e da intensidade, o tempo presente passa a se impor não apenas como o momento atual, mas como o único tempo disponível, configurando uma espécie de “absolutismo do presente” diante de um futuro percebido como incerto e perigoso.

É por essa razão que Anna Kornbluh (2025) define o estilo cultural de nosso tempo como imediatez. O conceito busca dar conta das transformações em curso desde os anos 1970 que, por um lado, reconfiguram as bases econômicas em favor de um novo estágio do capitalismo, centrado na financeirização do capital e na valorização da circulação acelerada e, por outro, corroem gradativamente os mecanismos sociais de representação, que tornam possível a ação política e orientam a imaginação coletiva para alternativas de transformação.

Assim, o presente se torna cada vez mais imediato não apenas por conta do ritmo tecnológico acelerado dos fluxos de informação, mas porque as mediações sociais que articulavam indivíduos, instituições e projetos coletivos têm sido progressivamente reduzidas, atomizando pessoas e grupos em realidades fragmentadas e isoladas. O resultado é uma experiência do tempo marcada por uma sociedade desinstitucionalizada. Condenada ao imediatismo, ela estreita o horizonte da imaginação política, reduzindo nossa capacidade de conceber rupturas, alternativas e projetos de futuro que não se limitem à mera administração, ou contenção, do estado já existente.

Como observa Kornbluh, “estamos atados a circunstâncias chocantes das quais não conseguiremos tomar distância (…) cada coisa é uma catástrofe que prende a nossa atenção. A janela já muito estreita está sendo fechada com violência e, para muitos, ela já foi selada com pregos” (2025, p. 32).

Não por acaso a autora considera a imediatez como o sintoma cultural daquilo que chama, provocativamente, de capitalismo tardio demais. O advérbio “demais”, aplicado a um conceito conhecido das ciências sociais como capitalismo tardio, revela, assim, um duplo sentido: serve tanto para evidenciar uma nova fase da acumulação capitalista quanto para indicar uma espécie de ressaca moral de um sistema já exaurido que, incapaz de produzir futuro, intensifica a experiência imediata como forma de atolamento dos sujeitos em um presente autocentrado repleto de estímulos, mas estéril de alternativas.

Mas dizer que é “tarde demais” é também uma outra forma de dizer o seu contrário. É reconhecer que, embora “tarde demais”, ainda estamos aqui — o que, em outras palavras, significa que algo ainda pode ser feito. Por isso, enfrentar a “crise do futuro” é, na verdade, lutar contra a crise da imaginação. Ela não diz respeito apenas aos problemas do tempo que virá, mas sobretudo da nossa dificuldade de conceber caminhos que não se resumam ao catastrofismo ou à mera gestão do colapso.

Essa tarefa, contudo, não será realizada pela força do voluntarismo individual nem pela ideologia do imediatismo. Reabrir o horizonte do amanhã exige, antes de tudo, reconstruir pontes estratégicas entre demandas sociais diversas, capazes de transformar experiências dispersas em ação coletiva orientada à projeção de outros mundos possíveis. Em um mundo capturado pelo absolutismo do presente imediato, pensar o futuro não é um exercício de previsão, mas um projeto político: fazer do amanhã menos uma ameaça e mais um horizonte a ser desejado, disputado e construído.

1 Sociólogo, mestre em Ciências Sociais pela UNIFESP e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

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