Biden x Trump: dois rostos da dominação neoliberal

Eleição do democrata não visa superar a crise do capitalismo — de onde emergiu extrema-direita –, mas restaurá-lo. Classes dominantes apostam nos dois lados, para tentar manter hegemonia. Superá-los exigirá recuperar imaginação política

Por Karim Pourhamzavi, Gabriel Bayarri e Noah Bassil | Imagem: Bernd Pohlenz

Ao assegurar mais de 79 milhões dos votos, espera-se agora oficialmente que Joe Biden seja o próximo presidente dos EUA na Casa Branca. Não está claro, no entanto, como a administração de Biden vai lidar com a atual crise estrutural do capitalismo global e com cenários complexos tais como a rivalidade econômica e estratégica com a China, as tensões no Oriente Médio, ou múltiplas questões europeias, incluindo a manutenção da aliança com a OTAN e o Brexit. Esta última, apoiada durante a administração Trump, constitui uma ameaça existencial para a União Europeia. Olhando para a equipe de transição do Pentágono de Biden — da qual um terço provinha dos denominados “hawkish” (falcões), ou seja, think tanks financiados pela indústria armamentista — pode-se supor que as guerras continuarão sendo um modo inseparável de acumulação de capital na crise do capitalismo pós-Guerra Fria e de sua hegemonia [i].

Para esclarecer: os conceitos de capitalismo e hegemonia são dois fenômenos econômico-políticos diferentes, mesmo que sejam paralelos. O capitalismo é um sistema político-econômico que mercantiliza a terra e o trabalho de forma a reproduzir o capital. Os principais beneficiários do capitalismo são os burgueses proprietários dos meios de produção. A hegemonia é uma condição criada quando os componentes materiais, ideológicos e institucionais do capitalismo se unem, produzindo o consenso das massas em apoio ao sistema que as explora. Quando esse consenso ocorre, os trabalhadores se tornam agentes ativos na produção, reprodução e defesa do sistema capitalista. No entanto, em certos momentos quando o capitalismo está em crise, como na crise de hegemonia dos anos 30, as táticas consensuais em que se baseia o capitalismo hegemônico são substituídas por meios coercivos, como o fascismo. A guerra é outra característica da ausência ou do declínio da hegemonia, e numerosos analistas têm sugerido que a proliferação da violência é uma marca do declínio da hegemonia. 

Embora esta seja uma questão complexa, múltiplos eventos como o surgimento do movimento antiglobalização que começou no final dos anos 90 contra os principais agentes institucionais do capitalismo global, como o FMI e a OMC,  podem ser considerados como marcadores do início do fim da hegemonia do capitalismo global. A crise financeira global e a resposta neoliberal só exacerbou a crise estrutural do capitalismo e intensificou os antagonismos pré-existentes. Uma década depois da crise financeira global, o mundo luta com a crise atual e, na ausência de hegemonia, segmentos das classes dominantes têm usado várias estratégias, como a promoção do populismo de direita, para suprimir quaisquer mudanças no sistema político-econômico em vigor. São estas estratégias que são responsáveis pela polarização que divide os EUA, como foi testemunhado nas eleições. 

O ex-presidente Barack Obama foi entrevistado na CNN quando o resultado das eleições estava sendo apurado. Nessa entrevista, Obama se referiu aos 73 milhões de votos que Trump recebeu como uma indicação de que os EUA são uma nação dividida. A visão do Obama de que o trumpismo é um fenômeno criado pela mídia de direita é apenas parcialmente verdadeira. Obama estava descrevendo a estratégia e não as questões estruturais que são responsáveis pela construção do Trump e do apoio entre segmentos do povo norte-americano alienados pelo sistema capitalista: pessoas que acreditam na necessidade dessa forma de sistema (ou seja, pessoas empregadas que supervisionam o sistema neoliberal ou que se tornaram “empreendedores” devido à terceirização neoliberal da mão-de-obra), ou pessoas que se beneficiaram dos “salários fisiológicos”[ii] do sistema. 

Enquanto muitos segmentos da grande mídia e  gigantes como CNN, NBC, BBC, Euro News, Washington Post, New York Times, Los Angeles Times e outros realmente fizeram campanha contra Trump durante a eleição, citando a Robert Cox, estes esforços da classe dominante têm como objetivo “resolver o problema” da crise do capitalismo em uma tentativa de salvar o sistema. [iii] Este segmento do capital está mais interessado em preservar a política econômica do neoliberalismo como um projeto aparentemente progressista. O apoio das grandes empresas a Biden não deve ser visto como uma mudança delas para a “esquerda” ou um abandono do modelo neoliberal. 

Como Obama, a mídia de massas dos EUA não está reconsiderando a estrutura que produz o trumpismo, mas sim reformando-a, substituindo Trump por um candidato verdadeiramente conservador na forma de Biden. A representação desta ideia, pela qual Biden também representa um projeto de restauração da hegemonia da classe dominante, pode ser vista primeiro na forma como os setores conservadores do Partido Democrata apelaram para uma ordem institucional durante o processo primário, impedindo o candidato progressista Bernie Sanders de representar o partido. No final das primárias, para tranquilizar o sistema, Biden chegou ao ponto de dizer em um evento em Wisconsin: “Eu venci o socialista. Foi assim que eu fui eleito. Foi assim que recebi a indicação. Por acaso eu pareço um socialista? Olhe minha carreira — toda minha carreira”. A busca pela hegemonia pode ser vista na adaptação ao sistema que o Partido Democrata tentou construir, introduzindo alguns elementos identitários reivindicados pelo movimento “Black Lives Matter” através do rosto da futura vice-presidenta Kamala Harris, uma mulher asiática-americana e afro-americana. Dado o que vimos e ouvimos até agora de Biden e Harris, é muito difícil identificar o tipo de programa transformador que realmente fortaleceria as minorias empobrecidas e oprimidas dos EUA.

A figura de Biden, apesar dos esforços para introduzir características inclusivas de política de identidade em seu repertório, não deixou de demonstrar seu abraço à ordem hegemônica das classes dominantes. Isto não é surpreendente, dado que tem sido assim desde o início de sua carreira política, 40 anos atrás. Em 1994, o Senador Biden foi o autor do projeto de “lei do crime”, responsável por uma era de encarceramento em massa. Em 2016, apesar de décadas de provas de que o projeto de lei era um projeto repressivo-punitivo de prisão que afetava desproporcionalmente as comunidades negras e pardas, Biden permaneceu sem se arrepender alegando que a lei “restaurou as cidades americanas”. Biden também votou contra o fim da segregação no transporte escolar, argumentando que o racismo deveria ser combatido mais amplamente, mas conquistando assim o apoio de amplos setores conservadores no Sul do País. As ações de Biden, bem como seu desempenho político, o levaram durante muitos mandatos a ganhar o cobiçado sobrenome de “Joe da Classe Média” (“Middle-class Joe), aquele homem popular capaz de representar os interesses da classe média, que prosperou graças ao seu esforço (apelando para um projeto de individualismo meritocrático) enquanto representava os interesses das grandes empresas americanas no Senado. Seu apoio aos investimentos dos bancos na Guerra do Iraque durante o mandato de George Bush Jr., ou seu recente voto contra a redução do orçamento militar, são representações de uma política externa que usa os conflitos internacionais como forma de enriquecimento das empresas estatais. Como vice-presidente de Obama, Biden supervisionou a expansão das guerras imperialistas americanas na Líbia e na Síria através do uso de drones e forças especiais e apoiou a Arábia Saudita na guerra do Iêmen.

Assim, podemos ver sinais de como ele representava essa ordem desde seus primeiros dias de carreira política através de uma retórica cambiante, que durante o período eleitoral apresentou ele como o líder moderado da ordem institucional. Esta troca de perfis mostra a flexibilidade do futuro presidente para se adaptar às mudanças, modificando frequentemente seu tom político para se alinhar com os eleitores.  Em uma entrevista que deu em 1977, Biden explicou que sua “não-ortodoxia” significava que ele representava uma mudança com as gerações anteriores que ainda pensavam que “ou você é um democrata do New Deal ou um tradicional republicano conservador”.

A nossa avaliação aqui é que o trumpismo representa um segmento da estratégia da classe dominante para manter o sistema atual em vigor através do aprofundamento da crise, e que Biden representa um esforço da classe dominante para reconstruir a hegemonia de um sistema em crise. Na busca de uma recuperação da hegemonia da oligarquia financeira, as classes dominantes apostaram ao mesmo tempo em dois blocos políticos: o neoliberalismo clássico representado na figura de Biden e a extrema-direita representada por Trump. Em ambos os casos, seja Trump ou Biden, a crise sistêmica do capitalismo continua e nenhum dos dois parece ter vontade nem capacidade de resolvê-la. Dito isto, todos nós preferimos uma administração Biden em comparação ao que tem sido experimentado nestes últimos quatro anos. Nosso argumento não é dizer que os dois candidatos são iguais, e por tanto celebramos a queda de Trump nas últimas eleições.

Conclusão

Marx viu as crises do capitalismo como momentos de oportunidade revolucionária. No entanto, o contínuo apego das classes subalternas a projetos de uma extrema-direita neoliberal pode ser entendido em parte como resultado da falta de uma proposta política progressista capaz de atrair esses setores. A capacidade da classe dominante de fazer uma guerra total pela hegemonia cultural torna a oportunidade para um projeto político progressista desafiador, mas não impossível. O trabalho a ser feito pelas forças progressistas é encontrar uma maneira de desenvolver um projeto material que incorpore genuinamente a política de identidade. Uma tarefa difícil para movimentos divididos desde os anos 70.

O surgimento desta polarização artificial Trump-Biden monopolizou a atenção dos eleitores, evitando um debate sobre as condições estruturais de desigualdade e empobrecimento, e ofereceu ao eleitorado neste jogo duas opções que levaram ao mesmo resultado: votar pela contínua concentração da riqueza. Cabe aos setores progressistas reagir ao imenso déficit da imaginação política e defender, nas palavras da cientista política Chantal Mouffe, uma “agenda de proteção” do bem comum, repensando o sonho americano individualista e meritocrático.


[i] Para uma discussão detalhada sobre a noção de guerras como um modo global de acumulação de capital, veja: Robinson, W. I. (2014). Global Capitalism and the Crisis of Humanity. New York: Cambridge University Press.

[ii] Salário fisiológico (Physiological wage) é um termo cunhado por W.B.E Du Bois para descrever os privilégios não econômicos acumulados nos brancos em um sistema racista.  

[iii]Cox, R. (1981). Social Forces, States, and World Orders: Beyond International Relations Theory. Millennium. Vol. 10. No. 2, pp 126-155.

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