A luta de classes em tempos de crise estrutural

Wallerstein alerta: lutas sociais e políticas serão cada vez mais selvagens; e esquerda só vencerá se souber combinar a conquista do poder de Estado (para evitar o pior) com uma transformação cultural de enorme radicalidade

Por Immanuel Wallerstein| Imagem: François Bard, Recuo Necessário (2018)



As lutas de classes são eternas, mas a maneira de travá-las depende do estado do Sistema-Mundo em que elas se desenvolvem.

Os Sistemas-Mundo têm três temporalidades. Eles formam-se – e isso precisa ser explicado. Depois, eles transformam-se em estruturas estabilizadas e operam segundo as regras sobre as quais são formados. Numa terceira fase, as regras por meio das quais mantêm sua relativa estabilidade deixam de agir de modo efetivo – e eles entram numa crise estrutural.

Estamos vivendo no Sistema-Mundo moderno, que é capitalista. Estamos agora na terceira fase de sua existência, a da crise estrutural.

Na fase anterior, a das estruturas estabilizadas ou da normalidade, havia um grande debate no interior da esquerda, sobre como seria possível realizar o objetivo de destruir o capitalismo como sistema. Este debate se deu tanto nos movimentos criados pela classe trabalhadora ou proletariado (entre eles, os sindicatos e partidos de esquerda) e dentro dos partidos nacionalistas e movimentos de libertação nacional.

Cada lado deste grande debate acreditava que sua estratégia – e só ela – poderia ter êxito. Na verdade, embora cada lado criasse zonas nas quais parecia ser bem-sucedido, nenhum deles o fez. Os exemplos mais dramáticos de histórias de sucesso presumido que não foram capazes de evitar uma volta da normalidade foram o colapso da União Soviética e o colapso da Revolução Cultural maoísta.

O ponto de virada foi a revolução mundial de 1968, marcada por três aspectos. Foi uma revolução mundial no sentido de que eventos análogoso ocorreram em dististas partes do Sistema-Mundo. Todos eles rejeitavam tanto a estratégia orientada para a conquista do Estado quanto a gradualista e cultural. Tratava-se, diziam, não de uma questão de se/ou, mas sim de e e ambas.

Ao fim, também a revolução de 1968 fracassou. Apesar disso, ela foi capaz de levar ao fim a hegemonia do liberalismo centrista e seu poder de controlar tanto a esquerda e a direita, às quais foi permitido voltar à luta como atores independentes.

No início, a direita ressuscitada pareceu prevalecer. Ela instituiu o Consenso de Washington e lançou o slogan TINA (“não há alternativa”). Mas as desigualdades sociais e de renda tornaram-se tão extremas que a esquerda resssurgiu e restringiu a capacidade dos Estados Unidos em manter ou restaurar sua dominação.

A volta da esquerda a um papel de destaque também terminou. E assim começou um processo de mudanças selvagens, um elemento definidor das crises estruturais. Nelas, a esquerda precisa construir uma política de buscar, no curtíssimo prazo, o poder de Estado, para minimizar a dor dos 99% da população. Mas, ao mesmo tempo (“e”), no médio prazo, perseguir uma grande transformação cultural de todos.

Estes objetivos aparentemente contraditórios são muito desconcertantes. São, porém, o único meio de travar a luta de classes, nos anos que restam da crise estrutura. Se pudermos fazê-lo, podemos vencer. Se não, sucumbiremos.

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