Pelo retrovisor, na Amazônia, uma vida em chamas

A mãe foi envenenada pelo garimpo. A irmã assassinada com 25 facadas pelo marido. Fez vários bicos para sobreviver. Em Santarém (PA), enquanto a floresta é destruída, um taxista agarra-se na fé e conta como sua vida também arde

Depois de cinco dias de viagem pela região do Tapajós, buscando informações e diálogos para iniciar um trabalho sobre infraestrutura para escoamento de grãos e seus impactos sociais e ambientais, a melhor síntese das muitas impressões que colhi me foi apresentada nos últimos 30 minutos da viagem, em Santarém, a caminho do aeroporto.

O taxista, Joaquim[1], me pegou no hotel, depositou minha mala no banco de trás do carro e logo pedi que passasse em um caixa para que eu sacasse o dinheiro da corrida. Na minha volta ao táxi comentou orgulhoso que eu era a primeira passageira do carro que acabara de pegar na concessionária. Eu disse, “que ótimo, sinto o cheiro de carro novo”, e rindo emendei: “se fosse meu eu não deixaria o passageiro colocar a mala no banco tão novinho”.

Ele respondeu dizendo “o que se tem nesta vida é para gastar, desfrutar e não para guardar”. Para ele as pessoas devem buscar boa vida e serem felizes aqui na terra. Recém-iniciada na leitura sobre neopentecostalismo[2], logo perguntei que igreja frequentava. Assembleia de Deus, respondeu ele dizendo que mesmo não indo com frequência aos cultos, seguia o caminho de Deus com quem teria conexão direta por meio da sua fé.

Mais uma vez brinquei dizendo, “a palavra tem poder”, e ele logo retrucou, “a fé é que tem poder”. “Se a Senhora tem fé em Deus e acredita naquela benção já é meio caminho andado para aquilo acontecer”. Mas, segundo ele, não se deve sair propagandeando a benção porque “atrai a inveja que é coisa do diabo”. “Se a senhora sai por aí falando que vai comprar um carro novo, por exemplo, alguém vai logo jogar a inveja em cima e o diabo vai jogar contra”.

Animada com a conversa e com o aprendizado prático sobre a “teologia da prosperidade” e “dualismo neopentecostal”, ou a “parceria entre Deus e o Diabo”, argumentei que muitas pessoas tinham fé e que mesmo assim não conseguiam melhorar de vida, que não dependia só delas ou da fé… Ele contra argumentou que o problema estava nas pessoas, na falta de coragem para trabalhar, seguiu dizendo, “eu falo do meu exemplo” e a conversa foi para outro rumo.

Contou que trabalha desde criança. Com onze anos de idade sua mãe foi embora para o garimpo e ele como filho mais velho assumiu o cuidado dos cinco irmãos menores. A avó o ajudava ficando com as crianças e ele para conseguir dinheiro se embrenhava no mato para pegar piaçava, palha utilizada para fazer vassouras. Os motoristas de ônibus eram legais e o deixavam entrar com as palhas na parte de trás do ônibus, a venda era feita para um carroceiro que pegava o produto em sua casa. Logo vieram outros bicos e ele foi se especializando em encontrar pequenas oportunidades para ganhar dinheiro. Hoje, além do táxi ele atua em vários outros ramos de negócio.

Um deles, que relatou com especial entusiasmo foi o negócio de venda de iogurtes. Três dias antes do vencimento ele os compra na distribuidora por um real a cartela com seis potinhos. Pega seu outro carro, uma Belina com bagageiro e caixa de isopor com gelo em cima para armazenar os iogurtes, e com uma caixa de som circula nas ocupações e bairros da periferia, sob intenso calor. Para anunciar a venda ele diz: “três reais, três reais a cartela de iogurte, geladinho, vá lá no papai e na mamãe, pede o dinheiro para comprar o iogurte” e logo emenda uma frase engraçada na voz do Pato Donald; possivelmente um desconhecido das crianças sedentas por iogurte, mas vivo na sua infância. Contrata um ajudante que faz a venda para as crianças, enquanto ele se encarrega da direção e da propaganda. Afirmou animado que o produto acaba rapidinho, um sucesso de venda!

Outro negócio é com os trabalhadores dos navios que ficam atracados no terminal graneleiro da empresa Cargill[3]. A tripulação, segundo ele de origem filipina, fica até quinze dias na cidade à espera do carregamento dos navios com soja e milho. Com eles trabalha prestado serviço de agenciamento de prostitutas e também os conduzindo pelas baladas da cidade. Aprendeu a se comunicar com os filipinos por meio de palavras que foi ouvindo repetidas vezes.

Seguindo sua histórica, falou do trabalho de empreito de pequenas obras de construção e reforma, da venda de bebidas em festas para o quê utiliza uma pequena moto e carrinho refrigerador por ele mesmo adaptada.

Tomada por um misto de curiosidade, melancolia e respeito, busquei encorajá-lo a seguir com a história dizendo que ele era um batalhador, que o negócio do iogurte era genial e logo perguntei pelo paradeiro de sua mãe garimpeira[4].

A conversa de novo tomou outro rumo. Disse que a mãe retornou do garimpo depois de tomar um tiro de espingarda calibre 20 no ombro que lhe furou um buraco. Ela retornou muito doente, contaminada pelo chumbo do tiro – mais possivelmente pelo mercúrio do garimpo de ouro – e que precisava que ele lhe desse remédio e mingau na boca. Perguntei quem deu o tiro e ele disse que foi um homem que ela arrumou por lá no garimpo. Ela não o queria mais, brigaram, se meteu no mato e levou um tiro pelas costas. Disse que ela conta não ter sentido dor, o que ele atribuiu ao efeito do álcool, que só sentiu um líquido quente escorrendo dos ombros.

Voltando a Santarém ela arrumou outro homem que bebia e batia muito, nela e nos filhos. Contou que apanhava frequentemente. Um dia levou uma surra com um galho com espinhos que o machucou muito, a avó e a mãe tiraram os espinhos com pinça.

Sem que eu conseguisse esboçar reação verbal ele seguiu com sua história contando que também sua irmã sofreu com a violência do marido. Algumas vezes a surra era tanta que ela urinava de dor. Um dia, durante a surra, pediu ao irmão que a ajudasse, mas, disse ele: “eu não tinha o que fazer”. Já no último instante da corrida, ele contou que ela morreu levando vinte e cinco facadas do marido[5]. “A irmã que eu ajudei a criar e que gostava tanto”.

Olhei seus olhos pelo retrovisor e o que vi não consigo descrever. Voltando a Brasília, lamentei não ter tido tempo de saber sua opinião sobre as queimadas na Amazônia, resposta que tampouco ouso intuir.  


[1] – Impressionada com a história entrei em contato com Joaquim, que consentiu que eu registrasse nossa conversa, e preferiu que fosse utilizado seu nome verdadeiro.

[2] – Conversando com um querido amigo sobre o avanço das igrejas neopentecostais no Brasil ele me sugeriu a leitura do livro Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil, de Ricardo Mariano (Editora Loyola, edição 2010). Um achado que despertou meu olhar para a importância do tema e me encorajou a fugir de uma leitura fácil e caricata do fenômeno do avanço das igrejas neopentecostais no país.

[3] – Operando em Santarém desde 2003, hoje o terminal tem capacidade para embarcar até cinco milhões de toneladas de grãos por ano. A construção do terminal fez desaparecer a praia urbana de Vera Paz, local usado, principalmente, pela população pobre da cidade. O sítio arqueológico, que continha ali registros de mais de 10 mil anos de ocupação humana, também foi perdido. A abertura do terminal também intimamente associada ao asfaltamento da BR-163, sua utilização como rota para escoamento da produção de grãos rumo ao norte e o aumento do desmatamento na Amazônia. Uma visão mais abrangente e dramática da economia política da infraestrutura na Amazônia associada ao agronegócio pode ser vista a partir da leitura de Maurício Torres aqui.

[4] – O garimpo na região do Tapajós expandiu a partir da década de 1950, com um famoso distrito aurífero chamado de Cuiú Cuiú, próximo ao rio Crepori. Mais tarde, na década de 1980, o governo militar demarcou no vale do Tapajós a “Reserva Garimpeira de Tapajós”, e os garimpeiros construíram, para facilitar o acesso por via terrestre, a estrada denominada de Transgarimpeira. Hoje o garimpo ilegal predomina na bacia do Tapajós, em especial dentro das Flonas (Florestas Nacionais) e Terras Munduruku. Estima-se que por ano são despejados mais de 7 milhões de toneladas de sedimentos na bacia do rio, o que equivale a uma Brumadinho a cada 20 meses. O mercúrio é um desses rejeitos.

[5] – Segundo ao Atlas da Violência, 2019 (IPEA), na década de 2007 a 2017 o número de homicídios de mulheres no país aumentou 30,7%. A despeito da dificuldade metodológica de se medir o feminicídio a partir dos registros de homicídio de mulheres, o mundo da vida nos mostra que a correlação estatística é próxima de 1. Em 2017, 13 mulheres eram assassinadas todos os dias. Neste mesmo ano o Pará figurava como o sexto estado com mais homicídios de mulheres (por 100 mil mulheres), em 2007 foram mortas 144 mulheres, em 2017 foram 311 mulheres, quase uma por dia. Destas 311 mulheres, 286 eram negras. Disponível aqui.

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