Os convites de Juliette

Participante do BBB e fenômeno das redes sociais, ela ofereceu algo além de autenticidade. Desconcertante, causou impacto por ser antítese à competição esperada deste jogo. Em um país em ruínas, sua popularidade pode ser inspiradora

Por Graziela Marcheti

Se nos últimos três meses, você conseguiu passar ao largo de qualquer comentário sobre Big Brother Brasil 21, certamente não vai conseguir passar muito mais tempo sem ouvir falar de Juliette.

O BBB é um programa de reality que reúne confinadas numa casa várias pessoas, com perfis e histórias diferentes, e — em meio a muita propaganda de patrocinadores — impõe dinâmicas em que cada um deve trabalhar para eliminar seus concorrentes até chegar à final. Porém, eles devem fazer isso com a única ferramenta que lhes é permitida: o relacionamento. Ainda assim, por mais que joguem bem ou mal, é o público que exerce, através do voto, o poder de eliminar ou manter os participantes até que algum deles chegue a ser campeã ou campeão.

Com tantas tragédias incessantes no Brasil de 2021, o programa serviu para muita gente como uma tentativa de fuga dos assuntos dos quais não é possível escapar. Se você conseguiu escapar do assunto BBB, certamente não teve o mesmo sucesso com a pandemia ou com o governo Bolsonaro. Sim, o BBB é um entretenimento. Mas, como seus participantes são pessoas brasileiras nossas contemporâneas, foi impossível não gerar ali debate sobre os assuntos que nos rodeiam. Além disso, quem não gostaria de poder exercer seu voto para eliminar alguns políticos desse país? Imaginem Bolsonaro sendo eliminado com 99% dos votos, assim como foi Karol Conká, a grande “vilã” do programa? Ah… se a vida fosse apenas um programa de TV… Bom, poderia ser também o show de horror que vimos na tela.

Violências psicológicas, traições rasteiras, intrigas medíocres… Tudo muito estimulado pelas dinâmicas do jogo e esperado, ou quem sabe, desejado por parte da audiência.

Porém, o BBB finalmente chega ao fim, com escolha massiva do público pela participante que mais atuou na contramão dessas expectativas. Juliette entrou no jogo e jogou, mas sua forma de construir relações, respeitá-las e buscar cuidado e justiça criou um impacto gigante no público, ao mesmo tempo que uma incompreensão constante entre seus colegas.

Juliette sai campeã com 24 milhões de seguidores no Instagram. Entrou com cerca de 4 mil. Concordando ou não com essa realidade, é preciso nos perguntarmos: Por que Juliette? Por que foi escolhida pelo público desde as primeiras semanas para ser a campeã, frustrando aqueles que esperavam surpresas e indefinições no jogo? E como a pessoa mais querida do BBB fora da casa pôde trazer tanto incômodo e suspeitas entre os jogadores?

Com a saída de Gil, a internet ficou em revolta, lamentando sua ausência na final e defendendo sua participação como a mais legítima para o programa. E sim, Gil era o participante com o perfil mais adequado para ser o vencedor. Serviu a todas as expectativas, fazia rir, chorar, contava histórias emocionantes, foi rasteiro, covarde e muito corajoso. De fato, ele e outros participantes entraram no jogo para ganhar, estudaram, conspiraram, articularam, fizeram tudo o que se espera de um participante de um reality competitivo como é o BBB.

Mas, o que parece é que, em meio a tantos fãs e conhecedores das dinâmicas do programa, nenhum deles esperava topar com… Juliette.

Impressiona, ao longo de toda edição, seu amplo favoritismo entre a audiência sem que, até o final do programa, nenhum dos participantes tenha suspeitado verdadeiramente disso. Juliette foi constantemente subestimada por todos os participantes do programa. Ela conseguiu, com muito custo, ter alianças na casa, ser gostada, até respeitada, porém… chega a ser chocante o quanto foi descredibilizada em suas percepções e apostas de jogo. Juliette conseguiu, como nenhum outro, enxergar os conflitos da casa e perceber muitas vezes o quanto se relacionavam com ela mesma. Ganhou até o apelido de Euliette aqui fora, por achar que os conflitos tinham sempre a ver com ela. E pasmem! Estava certa. Por grande parte do jogo, ela foi o assunto. Em todas as conspirações, em almoços, desabafos, Juliette era o tema. Tida como fraca, má jogadora, possessiva, falsa, egocentrada, e claro, tagarela. Sendo essa, talvez, a única característica que seja impossível lhe negar.

Por um lado, tropeçava nos próprios passos – literalmente!, há numerosas cenas de tropeços. Não ganhava prova nenhuma (teve sua redenção na última prova do líder). Errava palavras, confundia nomes, se atrapalhava diante das câmeras e ria — muito! — de si mesma.

Mas, quando o assunto era gente, Juliette estava lá. Fosse para oferecer acolhimento (inclusive aos seus adversários, o que lhes causava mais ódio e desconfiança), fosse para encarar conflitos. Outra coisa gritante em Juliette é a absurda memória e clareza para argumentar em situações de divergências. Enquanto todos queriam falar pelas costas seus comentários maldosos, Juliette chamava cada um para uma conversa franca. Ganhou até um programa, criado pelo público, “Conversa com o eliminado”, em que falava longamente com a pessoa que sabíamos que sairia naquele paredão. Palavras de conforto, de troca, mensagens de força… Tudo o que a maioria não gostaria de ouvir de alguém que, claro, tanto subestimava. Num certo momento do jogo, todos ali tinham suas duplas, cuja prioridade era colocada de forma bem infantilizada. Juliette nunca teve dupla. Sobrava nas provas, era a última a ser escolhida. Fez parcerias diversas, conversava com todos, brincava e acolhia, independentemente de jogo e disputa. E dizia: não preciso ser o primeiro lugar de ninguém, eu quero ter o meu lugar. Uma afirmação que é a antítese de um programa cujo sentido é a competitividade. Suportou a lógica do jardim de infância, recheada de bullying, trazendo para o jogo a importância do diálogo, mesmo e sobretudo, na divergência. Num reality em que a conspiração e as intrigas são o fermento do bolo, ela mostrou coragem em não fugir de conflitos. Interpelava todos, sem medo, tratando assuntos espinhosos de maneira clara e delicada. O que é, sim, algo bastante raro.

Mulher, paraibana de sotaque marcado, muito divertida, e engraçada de um jeito meio pateta (algo que costuma cair tão mal às mulheres, e tão favorável a homens), com discurso ao mesmo tempo prolixo (por falar demais) e, desconcertadamente, direto ao ponto. Fala demais, fala, fala… e o pior: quer ser ouvida! Juliette não só falou, mas exigiu ser ouvida, esperava troca. E por isso falou mais, e mais vezes, repetiu, chata, exaustivamente… Mas, também ouviu, chamou pra conversa, dava conselhos à Karol Conká, sua grande rival temida por todos, disse à Lumena que a botaria no paredão (depois de ouvir o contrário da mesma), teve conversas muito francas e duras com Gil, por quem nutria um amor de irmão. Juliette não poupava nem sua própria voinha, ao dizer que era sim rapariga (nos termos da avó), por não ser uma mulher virgem.

Dispor-se num jogo de alianças relacionais de forma respeitosa, acolhedora e empática colocou Juliette num outro patamar para o programa. Até a edição da Globo buscou claramente apagá-la, já que realmente Juliette fazia outro jogo – um jogo voltado para o público e decidido a não ceder de seus princípios. E aí, mesmo Gil do Vigor, o candidato perfeito para ser campeão, teve de ceder seu lugar. Com um carisma inegável, mergulhado em contradições, Gil era o rei das cachorradas (o que tanto nos alegrava), mas esqueceu de olhar com um pouco mais de feminismo na hora de subestimar sua parceira mais potente e trocá-la, facilmente, por tantos homens medianos.

Gil é a alma do Big Brother, enquanto Juliette está além dessa lógica.

Explosão nas redes sociais, atingindo engajamentos altíssimos — se usou um batom, sucesso de vendas; se quis um ovo de páscoa, acabou no estoque; se vestiu uma roupa, já não se podia mais comprar –, Juliette ofereceu algo além de autenticidade. Cantava à capela durante o programa, e difundiu a música brasileira para muita gente. As canções que não tocam mais no rádio, cantadas por Juliette, explodiram em apps de música. Já possui uma variedade de convites para cantar com Chico César, Duda Beat… Carlinhos Brown fez até uma música para ela.

Camila, sua parceira que lhe acompanhou até a final, demonstrou qualidades semelhantes, e chegou ao segundo lugar sobretudo pela lealdade conferida à amiga. Mas, diferentemente, Juliette se colocava sempre. Foi algo mais forte que ela. Impossível não estar, não ocupar os lugares. E, ao se colocar, exigia do outro um tipo de engajamento que foge às intrigas palacianas. Com sua fala franca, expunha as falsidades. As decisões estratégicas ficavam expostas, incoerências entre discurso e ações, confrontava o jogo interno com o jogo externo, as projeções de cada um saltavam à tela. A lógica do programa ficou em segundo plano diante de sua postura.

Muitos se irritam com as atitudes aparentemente bondosas de Juliette, como se fosse uma personagem irreal ou falsa. Mas, ali o que vimos foi uma pessoa tão contraditória quanto intuitiva. O que teve de sagaz, teve de hilária; o que teve de fiel, teve de autocentrada; o que teve de cuidadosa, teve de estabanada. Com isso tudo, porém, Juliette tinha ali uma utopia, que perseguiu sempre. Sem negar seus defeitos, buscava constantemente o seu melhor. Conseguir levar o prêmio apresentando tamanha firmeza de caráter é algo louvável. Em tempos de genocídio autorizado no Brasil, Juliette nos inspira. Sua figura ser extremamente popular num país em ruínas, enfraquecido demais por não poder apostar no seu melhor, ainda que dentro de um contexto televisivo, é motivo de alegria. Se realitys são locais de tortura, foi de dentro da masmorra que surgiu um convite. Juliette não apenas quer algo, ela quer algo do mundo e dos outros. Ela nos provoca a um engajamento ético e afetivo. Age como se quisesse nos transformar, assim como ela também se abre em transformação. Isso poderia ser rejeitado, mas o Brasil escolheu amar Juliette.

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