O que Felipe Neto ensina sobre revisionismo histórico

Na entrevista do youtuber, algo que alguém como ele pode ensinar às novas gerações: a necessária intolerância ao obscurantismo, como forma de evitar a barbárie. E o repúdio à reescritura de História, para relativizar canalhas como Hitler

Felipe Neto, já no final de sua entrevista ao Roda Viva na segunda-feira, 18 de maio, chamou a atenção para o perigo de ficarmos calados diante do avanço do obscurantismo, um dos combustíveis que enchem o tanque da turba bolsonarista. “Negacionismo, obscurantismo e revisionismo têm que ser desmascarados. Tudo que é anticiência tem que ser desmascarado, e não apenas conviver com tolerância e dizer: ‘está certo pensar que a Terra é plana’”, disse o empresário e youtuber, incluindo o revisionismo histórico na lista de ameaças que lhe chamam a atenção.

A tática de tentar reescrever o passado para legitimar práticas do presente é um dos terraplanismos mais comuns do governo Bolsonaro. Altas patentes do bolsonarismo como Weintraub, Ernesto Araújo e o próprio ex-capitão a utilizam com fervor quando insistem, por exemplo, que o nazismo é de esquerda. Trata-se de um método, puro e simples, que anda de mãos dadas com a rapina ultraliberal que chegou ao Planalto calçando coturnos e montada em mamadeiras de piroca, cujo conteúdo também embriaga o revisionismo denunciado por Neto.

Revisionistas, com toda a pompa com que buscam expor suas acrobáticas teorias, equiparam-se moral e intelectualmente ao militante bolsonarista que sai à rua para agredir enfermeiras que protestam contra suas péssimas condições de trabalho e as mortes decorrentes do novo coronavírus. A diferença está só no fato de saberem usar a vírgula (nem sempre, porém).

O mote que compara nazismo e comunismo é provavelmente o preferido da turma do terraplanismo histórico, entusiastas adolescentes das belezas civilizacionais das democracias ocidentais – com destaque para os EUA e, em menor escala, para a Inglaterra. Se comunismo e nazismo são iguais, quem seria seu inimigo comum? Obviamente, os liberais e os floreios iluministas sob os quais se assentam as nações do Ocidente. Como não?

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Em 1940, George Orwell analisou uma resenha sobre a obra Minha Luta, de Hitler. O prefácio feito pelo tradutor da edição, repleto de elogios, o fez identificar as nada discretas intenções de amenizar seu conteúdo, apresentando seu signatário como alguém moderado. As razões para tamanho contorcionismo também não deixaram de ser apontadas por Orwell: “Hitler na época ainda era respeitável. Tinha esmagado o movimento obreiro alemão, e por isso as classes de proprietários estavam dispostas a perdoar-lhe quase tudo”.

Está em Minha Luta, com todas as letras e sem nenhuma vergonha, o projeto nazista de emular o imperialismo inglês, em especial no que diz respeito à Índia, sua mais proeminente colônia. É esta a descarada inspiração do Führer. A Rússia soviética e os povos eslavos, bárbaros do Oriente, seriam o alvo da expansão do império alemão, idealizado à imagem e semelhança do inglês

Alguns trechos são emblemáticos. Depois de afirmar que, por ter os mesmos traços culturais que os EUA, a Inglaterra não pode ser comparada com qualquer outro país europeu, Hitler emenda: “por isso, a única esperança de realizar na Alemanha uma política territorial sadia está na aquisição de novas terras na própria Europa”. Mas como tirar do papel este ambicioso programa colonialista? Pela guerra, claro: “entretanto, no século dezenove, já não era mais possível adquirir, por métodos pacíficos, tais territórios para efeitos de colonização. Uma política de colonização dessa espécie só poderia ser realizada por meio de uma luta áspera, que seria mais razoável se aplicada na obtenção de território no continente, próximo da pátria, de preferência a quaisquer regiões fora da Europa”.

E onde estariam estes territórios europeus a serem “obtidos”? A resposta é direta como a “espada alemã”: “houvesse o desejo de adquirir territórios na Europa, isso teria de dar-se de um modo geral à custa da Rússia. O novo Reich teria de novamente pôr-se em marcha na estrada dos guerreiros de outrora, a fim de, com a espada alemã, dar ao arado alemão a gleba e à nação o pão de cada dia”.

Está claro que Hitler pretendia fazer com os “nativos” da Europa oriental o mesmo que os EUA fizeram com os peles-vermelhas do Oeste e a Inglaterra com a Índia. Por isso, soa legítimo que contasse com o apoio dos ingleses: “a Grã-Bretanha era a única potência que poderia proteger a nossa retaguarda, suposto que déssemos início a uma nova expansão germânica. Teríamos tanto direito de fazê-lo quanto tiveram os nossos antepassados”.

Hitler não inventou a roda imperialista. Quis, somente, fazer no continente europeu o que seus países centrais faziam no resto do mundo: colonizar, escravizar e dizimar povos originários. “Falando como alemão, eu prefiro ver a Índia sob o domínio da Inglaterra do que sob o de qualquer outra nação”, escreve em outro trecho. Não causa surpresa que, segundo relata Orwell em outro ensaio, seja comum, na Índia e nas colônias inglesas, a comparação entre imperialismo britânico e nazismo. “Na Índia temos um governo hitlerista, ainda que camuflado em termos mais brandos”, disse Gandhi durante a Segunda Guerra Mundial.

A deflagração da Segunda Guerra ocorre por três países que, chegando atrasados na partilha imperialista, viram suas ambições coloniais frustradas. A Alemanha é um deles. O núcleo da luta contra a besta nazista é o mesmo das lutas pela emancipação e defesa de populações e segmentos sociais a quem o bolsonarismo costumeiramente volta suas armas: comunistas, sindicalistas, partidos de esquerda, movimentos sociais, mulheres, negros, indígenas, LGBT’s, etc. Colocar uma suástica nas testas de Roberto Justus, Flávio Rocha e do dono do Madero, no entanto, pode trazer dificuldades às finalidades de Paulo Guedes e das classes de proprietários que “estavam dispostas a perdoar-lhe quase tudo”.

Em Guerra e Revolução: o mundo um século após outubro de 1917, Domenico Losurdo mostra como o revisionismo histórico não é obra de lunáticos, mas parte de um método muito bem desenhado para deslegitimar toda a tradição das lutas anticoloniais e também das conquistas de direitos sociais no século XX, concessões das democracias liberais para amortecer as relações capital-trabalho e, assim, absorver as demandas da classe trabalhadora, evitando flertes com rupturas revolucionárias.

Enfrentar esse pessoal está na ordem do dia. Sempre esteve. Felipe Neto entendeu. É nosso dever compreender isso também.

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