Eleições 2018: Gandhi presente?

Inspirando-se no indiano, pastor luterano defende campanha de “cara limpa” por Haddad e afirma: “O uso do nome de Deus nesta eleição mereceria uma reflexão à parte, por seu abuso perverso”

Ghandi e a roca em que fiava algodão para não consumir tecidos britânicos

Por Roberto E. Zwetsch

Quando estudante de teologia no início da década de 1970, no período mais duro da Ditadura Civil-Militar instaurada pelo Golpe de 1964, me sentia como um neófito não só no curso, mas também diante das questões políticas. Tive de aprender apanhando o que significava viver num país sob uma ditadura feroz que perseguia pessoas, prendia, torturava, matava e fazia desaparecer opositores políticos. A Faculdade de Teologia da IECLB, em São Leopoldo, RS, foi um espaço privilegiado de liberdade de pensamento, convivência fraterna e uma espiritualidade libertadora que nos ajudou a desenvolver a capacidade crítica e o sentido da luta pela justiça social.

Não poucas vezes, com colegas do Centro Acadêmico, corríamos da Brigada Militar em Porto Alegre para não sermos batidos ou – no pior dos casos – presos por manifestações contra o governo golpista. Felizmente, mesmo apanhando, nunca fui preso. Mas a experiência marcou minha juventude e me firmou na luta democrática e pelos direitos sociais mais amplos possíveis: direito ao trabalho, direito à terra para trabalhar, direitos dos povos indígenas aos seus territórios, direito dos quilombolas, direito das mulheres, direitos das crianças e pessoas com deficiência.

Foi um tempo difícil de resistência e busca, que exigiu de nós muito tino e estudo para compreendermos o que se passava e nosso lugar no mundo. Íamos com frequência a eventos na Assembleia Legislativa do RS para ouvirmos lideranças nacionais que respeitávamos por sua coragem de enfrentar o arbítrio com a força da palavra e das convicções democráticas. Lembro duas delas por justiça e por serem expressões de um movimento nacional: Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo de São Paulo e sua firmeza no combate à tortura no país. E do campo intelectual e político, menciono o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Junto com ele, intelectuais do RS como o senador Paulo Brossard, o deputado Pedro Simon, Antonio Hohlfeldt, Flávio Koutzii, Luis Fernando Veríssimo, o cartunista Edgar Vázquez, professores e professoras universitários, cineastas, artistas, ecologistas, alguns bravos empresários e muitos outros que nos inspiravam para a ação. Esta luta desembocou no final da década de 1980 na aprovação da Constituição Cidadã de 1988, após a redemocratização controlada com a eleição indireta de Presidente em 1985.

Naquela mesma época aprendi ainda uma forma de luta política da maior relevância. Ela inspirou a mim e muitos colegas para um engajamento firme e sem medo pelo caminho da justiça e da paz. Foi no movimento de Justiça e Paz que descobri a importância da vida e do testemunho do Mahatma Gandhi, o grande libertador do povo indiano. Gandhi fez da satiagraha – da não violência – o seu método de luta e de convencimento do povo de seu país para derrotar o colonialismo inglês e libertar a Índia do jugo colonial. Gandhi estudou na Inglaterra, tornou-se grande advogado, viveu depois por 20 anos na África do Sul, onde fortaleceu a luta das comunidades nativas com seu método da não violência. Retornando à Índia, notabilizou-se internacionalmente por sua coerência de vida, por sua humildade e por sua coragem na luta política.

Gandhi foi um líder que soube conquistar o coração das pessoas. Na sua longa marcha na greve do sal, vitoriosa, ele caminhou por todo o país até chegar à beira do mar a fim de buscar o sal e combater o iníquo imposto cobrado pelos colonialistas ingleses. Mas um de seus ensinamentos que não esqueci foi o seguinte: baseado no seu método da não violência, Gandhi tinha como princípio lutar contra os seus inimigos sem jamais diminuir sua humanidade. Por isto, uma das regras que ele praticava era avisar os inimigos antecipadamente sobre as ações que seu movimento preparava para combatê-los.

Tomo o exemplo de Gandhi e sua justeza para verificar se ele pode ser útil em nossa luta atual neste segundo turno da eleição presidencial. Como ficou claro na noite de 7 de outubro – dois candidatos, de campos políticos opostos, vão disputar o 2º turno. Um deles será eleito Presidente do Brasil. E o que o mapa eleitoral que saiu desta eleição nos apresenta em termos nacionais não é nada animador, pensando nos campeões de voto que foram escolhidos para o novo Congresso que sofreu um abalo enorme, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado. O conservadorismo de todos os matizes e as pautas mais reacionárias conquistaram legitimidade incontestável. A luta política de agora em diante será duríssima e por muito tempo.

Assim, entendo que a situação de momento está cercada de dúvidas, sombras, interrogações e temores impensáveis algum tempo atrás. O golpe parlamentar que sofremos em 2016, depois de uma campanha insidiosa das forças políticas e econômicas conservadoras contra uma governante legitimamente eleita, nos trouxe a este momento. Na propaganda do primeiro turno – de um modo geral – se fez a crítica arrasadora dos governos do PT sem mencionar em nenhum momento que, por dois anos, somos governados por um político do MDB com o apoio dos principais partidos do Congresso, PSDB, DEM, PP, PPS, PR e outros menores. Era como se não houvesse governo de situação, algo surreal. E a explicação ficou evidente: com um governo que chegou a ter menos de 3% de aprovação nenhum candidato que se preza pousaria ao seu lado ou o defenderia publicamente. Então, o malho caiu ininterruptamente contra o PT e seu candidato, tanto na mídia quanto nas campanhas.

Neste clima surrealista, o país e nós mesmos vimos ascender ao centro da cena política um personagem que parece inverossímil – o capitão da reserva Jair Bolsonaro – que se apresentou como o campeão da moralidade e da luta contra a corrupção, defensor da ordem e dos bons costumes. Quer dizer, um político que amalgamou o apoio de uma multidão de pessoas que – nas ruas e nas cabines de votação – o consagraram como um fenômeno político novo e para quem ele representa a salvação nacional da corrupção e símbolo indiscutível do exercício político tradicional, com sua defesa da família, da ordem, da propriedade e da religião. O uso do nome de Deus nesta eleição mereceria uma reflexão à parte, por seu abuso perverso.

Não adiantou que se divulgassem as suas ideias e posições machistas contra as mulheres, contra homossexuais, contra direitos trabalhistas consagrados, contra a população negra, contra o meio ambiente e até contra a soberania nacional. Não mudou em nada noticiar-se o apoio que recebeu da indústria armamentista, do mercado financeiro, seu apoio à privatização de empresas públicas ou mesmo sua incapacidade de apresentar um só ponto coerente em termos de plano econômico. Ele falou diretamente com aquela massa de eleitores e eleitoras sem mediação política, reafirmando valores consagrados no que de pior se firmou na cultura plural brasileira. Com isto, chegamos a um momento crítico como jamais podíamos imaginar. Estamos diante de uma opção crucial e crítica neste segundo turno: democracia ou barbárie. Democracia representada por um projeto de país que preserve e aprofunde as conquistas sociais de justiça e contra a desigualdade histórica que divide a sociedade brasileira. Barbárie representada pelo autoritarismo mais tacanho que está alicerçado nos valores da força, da truculência, da fachada de honestidade pura, da relação direta entre governo e governados sem mediações, o que nos faz lembrar regimes totalitários que destruíram povos e nações, como o fascismo de Mussolini, o nazismo de Hitler e outros regimes ditatoriais.

Será que estaríamos diante da reviravolta histórica de um fascismo à brasileira nos dias de hoje? E agora um fascismo legitimado por grupos religiosos neopentecostais com inegável poder midiático e uma visão de mundo paradoxalmente anacrônica e contemporânea? Há muitos sinais que apontam nesta direção. Se este é o caso, quem se coloca no campo democrático e das lutas pelos direitos das maiorias terá de assumir, sem medo e sem descanso, a luta pela eleição de Fernando Haddad como nosso futuro Presidente no próximo dia 28 de outubro.

Aqui entra a experiência de Gandhi. Quando Bolsonaro – semanas antes do 1º turno – recebeu a facada que o excluiu da campanha por muitos dias, só reaparecendo publicamente dias antes da eleição – todos os demais candidatos se solidarizaram com ele e pelo restabelecimento de sua saúde. Um bom momento numa eleição feroz e com a presença oculta de forças as mais belicosas. Forças que se manifestaram das formas mais sórdidas, especialmente, no uso e abuso de notícias falsas que atingiram principalmente os candidatos do PT e dos partidos populares de esquerda.

Aquele gesto de civilidade, entretanto, não podia esconder um fato muito importante: o avanço de um político sem partido que – ao fim – praticamente cobriu o país com suas cores e seu discurso baseado na força das armas, da moralidade descolada do sofrimento humano, da visão autoritária que revela sua origem dos tempos da caserna, e com o apoio oculto e subterrâneo de poderosos grupos econômicos nacionais e internacionais.

Agora – no 2º turno – as posições escondidas por trás desse discurso precisarão vir à luz nos debates, nas entrevistas, no confronto de ideias, de projetos e de visão de país e de mundo. Até que ponto estes atores escondidos por detrás dos bastidores virão mesmo à luz, ainda veremos. De qualquer forma, penso que – tal qual Gandhi na Índia dos anos de 1950 – nós que iremos lutar pelo campo democrático e popular, dos direitos sociais e do combate às desigualdades que colocam uma elite diminuta, perversa e absurdamente rica contra um povo entregue à própria sorte e à beira da perda de direitos fundamentais, temos de enfrentar o representante do capital sem coração da forma mais clara possível. E uma das formas será dizer a ele e a todos os seus apoiadores e apoiadoras que faremos uma campanha sem tréguas contra ele justa, dura, leal, franca, mas sem notícias falsas. O campo democrático ganhará votos e corações quanto mais transparentes forem nossa luta e nossos métodos.

Vamos dizer diariamente que não concordamos com seus métodos, suas ideias e suas escolhas políticas para enfrentar a grave crise por que passa o país. E honestamente vamos afirmar que um governo sério haverá de garantir a defesa dos direitos humanos fundamentais que constam na Constituição, a mudança econômica que garanta trabalho, emprego e renda para as maiorias, casa e terra para quem delas precisa, educação para todas as crianças e jovens, sem discriminar ninguém, e uma reforma tributária que permite ao país sair da estagnação a que foi jogado por sucessivos erros de diferentes governos. Falar claramente ao povo e ao adversário, sem sofismas, sem enganações, mas igualmente sem arredar o pé da defesa dos mais pobres, vulneráveis e sofridos do país.

Esta campanha de cara limpa e direta poderá ser a grande diferença que nos levará a eleger – com justiça e por direito – o professor Fernando Haddad à Presidência do Brasil. Isto não será a solução dos nossos problemas, evidentemente, mas será o começo de uma nova história política que iremos construir como povo e nação. E quem sabe, a superação de soluções místicas e messiânicas para nos reencontrar com nossas tradições populares mais caras de resistência, criatividade e esperança maior num novo momento da história mundial. O Brasil soberano não pode ficar entregue ao tempo passado dos coronéis e da divisão entre casa grande e senzala como costuma lembrar o jornalista Mino Carta. O Brasil do século 21 só pode ser grande se for o Brasil para as maiorias empobrecidas que – libertadas – farão dele um grande país, com igualdade, direitos, liberdades democráticas e compromisso com uma nova concepção de desenvolvimento e relação entre os povos.

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Roberto E. Zwetsch é professor de teologia e pastor luterano

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