Bolsonaro, o anacronismo genial-idiota

Ele não representou a vitória da barbárie sobre a civilização, mas o esgotamento de um modelo de esquerda que desistiu das transformações radicais. Reencontrar o caminho exige superar nossas raízes autoritárias

PEDRO LADEIRA/FOLHAPRESS

“A tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de exceção” em que vivemos é na verdade a regra geral.[…] O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no século XX  “ainda” sejam possíveis, não é um assombro filosófico.”
(Walter Benjamin, Sobre o conceito de história, tese VIII, 1940)[1]

Em 2014, a Boitempo Editorial organizou o IV Curso Livre de Marx e Engels. Os debates e aulas que foram realizadas, hoje constituem um material disponibilizado em vídeo para os estudantes marxistas que tem surgido depois da vitória de Jair Bolsonaro. Aliás, tal vitória representa mais que a derrota eleitoral de um petismo que se viu difamado sistematicamente nos seus últimos anos no poder e que foi incapaz de responder às demandas de uma sociedade jogada a um voraz capitalismo de consumo bem como de radicalizar a democracia brasileira e construir uma base popular capaz de defende-la das constantes ameaças de golpe, recorrentes na nossa história política.

Voltemos aos eventos realizados pela Boitempo. Em uma aula do professor e jurista Alysson Mascaro, explicando os acontecimentos que são analisados por Karl Marx em sua obra o 18 de Brumário, ele revela que a burguesia pode, eventualmente, contar com figuras absurdas para a manutenção e o aprofundamento da sua dominação. Em uma aula aberta sobre Marx, Engels e a crítica do Estado de Direito, realizada no mês agosto do ano de 2014 ele afirma, sobre a eleição de Luís Napoleão na França em 2 de dezembro de 1948: […].

[…] houve um golpe na França e um sujeito que todos consideravam um dos mais esdrúxulos da história política francesa, um tal Luís Bonaparte que cuja a única coisa notável era o fato de ter sido sobrinho de Napoleão – […] as pessoas, inclusive, tinham um alto desdém por ele – […] deu um golpe e […] este golpe colou. Este Luís Bonaparte deu um golpe, […] se declarou imperador da França e, pior, os franceses gostaram disso. […] na França já havia se passado mais de sessenta anos do início Revolução Francesa, […] ela já cultivava o gosto democrático fazia sessenta anos, na prática […]. Como é possível que a França tenha caído num golpe para nomear um imperador? […] A resposta de Victor Hugo: “só por conta desse absurdo, esse homem é tão idiota que ninguém deu valor para ele”. […] Como nos dias de hoje existem muitos no mundo político que a gente considera banais […] e um desses um dia pode dar um golpe[2]

Perto da metade do século XIX a burguesia já se hegemonizava no poder político do ocidente europeu, quando, em ocasião da derrota da revolução de 1948 protagonizada pelas vanguardas operárias, na França, depois de uma série de reviravoltas políticas e econômicas tem início a Segunda República Francesa, legitimada por uma eleição presidencial por sufrágio universal. Em lugar do representante mais direto da grande burguesia francesa, com seis vezes mais votos se elege uma figura ridícula, Luís Bonaparte. O escritor Victor Hugo, em 1852 o chamava de “Napoleão, o pequeno”[3], depois de, para um espanto geral ainda maior, o sobrinho de Napoleão I realizar um golpe de Estado, coroando-se imperador. Já Karl Marx vai se preocupar em explicar as razões para a eleição do, aparentemente, mais improvável, em vez de se espantar com a situação. Em um dos seus artigos publicados na Nova Gazeta Renana em 1850 e depois compilados por Friedrich Engels na obra As lutas de classes na França, ele caracteriza o então imperador, Luís Napoleão, com uma série de expressões interessantes: “[…] grosseiro sublime, uma superstição calculada, um anacronismo genial-idiota, uma malasartice universal, hieróglifo indecifrável para o entendimento dos civilizados – este símbolo trazia inequívoca a fisionomia da classe que, dentro da civilização, representava a barbárie.”[4] O “escroque”[5] se elegera presidente e, pouco tempo depois, se proclamava imperador do Segundo Império Francês. Hoje no Brasil, o escroque se eleger presidente já não é novidade, mas motivo de um espanto que não deve ser a reação de quem procura entender melhor os fatos, bem como, não contribui para que evitemos que o escroque pretenda ser mais que presidente.

Como já dito, a vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018 significou mais que a simples derrota eleitoral do petismo. No entanto, não compartilharemos aqui da posição do ator Wagner Moura que, em vídeo gravado e compartilhado pela então candidata à vice-presidente Manuela D’ávila, afirmara que a disputa eleitoral de então, contra Bolsonaro, não significaria apenas a luta da “esquerda contra a direita, mas da civilização contra a Barbárie”.[6] Muito menos faremos nossas as ilusões de que fora a derrota de uma frente ampla progressista que, em caso de ter vencido as eleições, tomaria outros rumos completamente diferentes dos tomados pelo governo eleito. A vitória do anacronismo genial-idiota fora a derrota de um pensamento de esquerda que nasce, nos anos 80, dentre outras coisas, da desistência de uma transformação radical das estruturas do capitalismo e da negação das experiências históricas socialistas e da necessidade de uma ruptura revolucionária no Brasil, em função de um reformismo dentro das formalidades da democracia burguesa. Ao contrário da academia, de alguns movimentos sociais e do próprio Partido dos Trabalhadores entre outros partidos progressistas; muitos militantes, estudantes e professores, principalmente jovens, agora tem se apercebido disso, muito a partir dos esclarecimentos dos marxistas que mantiveram a posição em um período de grande mistificação. No entanto, muitos outros ainda se encontram desamparados, perplexos e sem esperança, muito porque tentam enquadrar Bolsonaro, “hieróglifo indecifrável ao entendimento dos civilizados”, e tudo que ele carrega, a partir de pressupostos maniqueístas difundidos por uma narrativa conveniente e reprodutora das práticas de uma esquerda institucional e burocrática.

O atual presidente da República do Brasil parece sempre provocar sentimentos extremos – ou uma aproximação afetiva ou um desprezo odioso. Parece que ele é a materialização de todos os pesadelos de uma esquerda que procurava mudar o mundo à golpes de consciência e conscientização, pelo progresso moral (definido por quem?) e pela mudança de comportamentos, ou pior, pela eleição dentro da ordem de uma democracia institucional que raramente pôde ser chamada de democrata. No entanto, a questão chave é partir da consideração de que, além disso, ele parece ser a materialização de todos os nossos erros.

Na campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro foi à uma sabatina promovida pelos jornalistas de Globo News (ali parecia que a linha editorial do canal ainda não tinha se decidido sobre as eleições, e me parece que até o final ficaram mais ou menos em cima do muro). Naquela ocasião, quando indagado sobre seu negacionismo a respeito da ditadura no Brasil, Bolsonaro foi, perfeitamente, um símbolo “grosseiro-sublime”: jogara, ao vivo, no coração do jornalismo liberal da Rede Globo, uma “mancha na história” que trabalharam tanto para maquiar, que fora o apoio de Roberto Marinho à ditadura[7]. Miriam Leitão, repetindo as afirmações transmitidas a ela pelo ponto eletrônico, protagonizava uma cena constrangedora ao, gaguejando e pausadamente,[8] defender seus empregadores que hoje administram uma rede de televisão nascida de um concessão pública (algo que Bolsonaro insiste em jogar na cara da Rede Globo quando é criticado pela imprensa) que fora o prêmio dado a Roberto Marinho pelo apoio ao regime que já promovia torturas que, futuramente, chegariam à mesma Miriam Leitão. A história por vezes se mostra implacável e “a função do historiador é lembrar aquilo que a sociedade quer esquecer”. Bolsonaro, em rede nacional, por sua posição extremista e estúpida frente à uma realidade hipócrita, cumpria essa tarefa que Peter Burke imbuia ao historiador. A pergunta que fica sobre tudo isso: é mais difícil reconhecer os erros históricos de uma esquerda que se bastou no progressismo e pouco fez – e pouco pretende fazer – para superar as raízes autoritárias de nossa democracia, ou atacar a ignorância (bastante óbvia) e intolerância como as grandes causas do regresso naqueles avanços que nos levariam a ser “nação de primeiro mundo?”[9]

Pensemos agora em um episódio mais recente, do âmbito da ecologia. Muito se tem pensado, criado, desperdiçado e convencionado sobre as alternativas para um desenvolvimento sustentável pelo capitalismo. A última sugestão que chegou às massas se trata de “fazer cocô dia sim dia não”[10]. Há algum tempo era preciso “fazer xixi no banho”. Na época do famigerado documentário de Al Gore, Uma verdade inconveniente (2006), convencionou-se que era importante pintar os tetos de branco para que a luz solar fosse refletida tal como acontece nas geleiras.[11] Mais recentemente, temos os cafés sustentáveis vendidos em cápsulas de plástico sustentável, ou mesmo a abolição dos canudos, que levou a um maior uso de garrafas de plástico[12] (infelizmente, essas não eram sustentáveis). Nestes termos, propor a evacuação em dias alternados é algo bastante inovador, ridículo e uma manifestação escrachada, e por isso involuntariamente e inconscientemente genial, de um progressismo liberal, uma das forças da esquerda brasileira, que pretende, pela mudança dos comportamentos e do consumo, salvar o planeta.

Agora cabe à Emmanuel Macron, presidente da nação mais esclarecida e civilizada do mundo, salvar as nossas florestas! E o General Vilas-Boas viu-se obrigado a fazer suas as palavras do revolucionário comunista vietnamita Ho Chi Minh: “A questão que se coloca é de onde viria autoridade moral daquele país [França] que, como disse Ho Chi Minh, é a pátria do Iluminismo, mas quando viaja se esquece de levá-lo consigo”[13]. Bom, agora restou ao presidente de um governo vendilhão da pátria, criticar o passado e o presente colonialista do berço da civilização, fazendo-se valer do progressismo ao afirmar que as posições do francês revelam uma “mentalidade colonialista descabida no século XXI”[14]. Como materialização de nossos erros, Bolsonaro tocou num ponto – de maneira ignorante e genérica e para fins do entreguismo aos Estado Unidos – que a esquerda progressista tem se esquecido: que o desenvolvimento do Estado, do capitalismo e do pensamento iluminista na França, teve, como uma de suas bases fundamentais, a colonização, ou seja, que esse o discurso do Macron é, no mínimo, hipócrita. Nesse sentido que muitos, ditos de esquerda, celebram o progressismo de um Macron, responsável pelo sucesso, até agora, da aplicação, na França, das medidas de austeridade implacáveis da União Europeia, bem como da repressão aos protestos dos gilet jaunes. Celebram ainda protestos contra uma espécie de imperialismo (como se fosse possível um imperialismo intranacional) da China em Hong-Kong, onde os manifestantes evocam um passado colonial, hasteando bandeiras do Reino Unido. Isso enquanto criticam a democracia Venezuelana se esquecendo que, sumariamente, a instabilidade política no país foi obra de uma direita golpista e terrorista.

Paramos por aqui, mas não são poucos os exemplos que poderiam ser trazidos, pois o ano de 2019 colocou a esquerda brasileira em um turbilhão no qual ela fica “hora eufórica, hora depressiva, mas cada vez mais longe de princípios”[15]. Nesse sentido, é nos companheiros marxistas que temos encontrado lucidez, perspectiva e ânimo capaz de reverter o desamparo[16] provocado por uma política diletante que espera a solução cair de sanções comerciais, da eleição de Bernie Sanders, da volta do Kirchnerismo na Argentina ou na defesa da integridade do Superior Tribunal Federal no julgamento de Lula e na acusação à Sérgio Moro. Enfim, é no nosso trabalho que encontraremos as saídas.


[1] Walter Benjamin. Sobre o conceito de história. In. Obras Escolhidas Vol. I. Magia e técnica, arte e política. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Ed. Brasiliense S.A., 1985. P.8. Benjamin trata aqui do espanto causado pelas ações do regime nazista na Alemanha em crítica ao conceito de história e às políticas que se fundamentavam na ideologia do progresso.

[2] TV Boitempo. Alysson Mascaro | Marx, Engels e a crítica do Estado e do direito | IV Curso Livre Marx-Engels. 2010. (45m21s) Disponível aqui.

[3] Na peça panfletária, chamada justamente de “Napoléon, le Petit” (Napoleão o Pequeno), Victor Hugo expõe a infâmia do golpe e do regime bonapartista.

[4] Karl Marx. De junho de 1848 até 13 de junho de 1849. In Florestan Fernandes(org.). Marx & Engels: história. São Paulo: Ática, 1989. P. 261. Utilizo aqui a tradução de Flávio R. Koethe pois serve melhor aos objetivos da crítica feita aqui.

[5] O professor José Paulo Netto utiliza o termo para definir Luís Napoleão em seu curso “O método de Marx” ministrado em 2002. Disponível aqui.

[6] O ator Wagner Moura, na campanha das eleições de 2018, gravou um vídeo em que afirmava que a disputa não se tratava mais esquerda contra direita, mas da civilização contra a barbárie. O vídeo foi divulgado nas redes sociais da candidata Manuela D’Ávila, onde a candidata ressaltava a afirmação. Disponível aqui. Acesso em 10 ago, 2019.

[7] Disponível aqui.

[8] Disponível aqui.

[9] Recomendo a leitura de um artigo fundamental, do filósofo Felipe Catalani: A decisão fascista e o mito da regressão: o Brasil à luz do mundo e vice-versa. Blog da Boitempo. São Paulo. Jul. 2019. Acesso em: 10 ago. 2019. Disponível aqui.

[10] Disponível aqui.

[11] Disponível aqui. Essa não é o melhor exemplo de como essa prática foi pensada e sistematizada, mas é o melhor exemplo da euforia ambientalista da época.

[12] Disponível aqui. Trouxe esse exemplo pois ele representa duas coisas: como a direita tem se valido das falhas de posições pouco inteligentes da esquerda e como o discurso contra a esquerda é também contra o Estado.

[13] Disponível aqui.

[14] Disponível aqui.

[15] Este trecho foi inspirado numa crítica recente do companheiro militante maoísta Antônio PC Veríssimo à mobilização de certos grupos de esquerda que saíram as ruas em defesa do jornalista Gleen Greenwald. (Originalmente ela é mais ácida.)

[16] Aqui falo em nome do Grupo de Estudos sobre Marx e Engels, que começara recentemente as atividades na Universidade Federal de Alfenas.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

Um comentario para "Bolsonaro, o anacronismo genial-idiota"

  1. Joma disse:

    Enquanto os extremistas do PT e outros partidos da extrema-esquerda sonharem com uma ideologia de extrema-esquerda tipo Venezuela e Cuba(ditaduras), os eleitores progressistas(não petistas) muito dificilmente irão votar em partidos da extrema-esquerda(PT e outros extremistas). E sendo assim, sempre surgirão populistas que continuarão a sangrar o Brasil.
    Aqui no Brasil, os políticos ganham eleições sem projeto social e econômico – o populismo barato(tipo Bolsonaro com pensamentos autoritários) é suficiente para uma vitória.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *