A indústria do camarão e o mangue morto

Na coluna Clima e Comunidade, os impactos das fazendas de crustáceo em Goiana, norte de PE. Produtos químicos lançados em rios e mares e bloqueio dos fluxos das águas comprometem sustento de pescadores e biodiversidade da região

Fazenda de camarão em área de mangue

No litoral norte de Pernambuco, um tanto afastado da correria da metrópole recifense, encontra-se um povo que na melodia exalada pelas águas estuarinas e marinhas, tem sua vida alicerçada. São várias as comunidades de pescadores dessa área, que tem em comum histórias de vida construídas a partir desse bem tão precioso: a água. Dentre as tantas comunidades de pescadores artesanais enfatizaremos em nossa discussão àquelas do município de Goiana: Atapuz, Barra de Catuama, Carne de Vaca e São Lourenço (Figuras 1 e 2) e na relação destas com os recursos hídricos locais.

Figura 1- Pescador na comunidade Carne de Vaca, Goiana-PE (Foto: Lopes, 2016) 

O estado do Pernambuco possui uma área litorânea bastante ocupada com a atividade pesqueira, o que gera contribuição para a economia do estado. No entanto, o que não se pode esquecer é que por trás dessa abundância de recursos pesqueiros, há um elemento primordial e imprescindível: a água, a qual usamos para produzir tanta riqueza, deve ser preservada e bem cuidada. Assim, queremos centrar nossa atenção às comunidades tradicionais de pescadores artesanais, mostrando o quão este recurso é precioso para estes povos.

A água é um bem fundamental para a vida humana e da Terra, sem ela certamente a vida em nosso planeta seria totalmente inviável, sendo assim ela é fonte de vida. Para o pescador essa frase tem bastante peso, pois sua vida está totalmente vinculada a este recurso, de modo que quando este entra em escassez ou não está em condições adequadas, o seu trabalho e, por consequência, a sua sobrevivência estão postos em risco.

Figura 2- Comunidade Barra de Catuama, Goiana-PE (Foto: Lopes, 2016) 

De modo geral, os pescadores enquanto comunidades tradicionais tem um nível de dependência do meio natural e, sobretudo da água, bastante elevado. Essa dependência da natureza leva essas comunidades a construírem um rico conhecimento acerca da vegetação, do relevo, dos solos, e da água. No caso dos pescadores esse conhecimento é também bastante amplo, incluindo as fases do ciclo hidrológico e, sobretudo, sua dinâmica nos ambientes marinho e fluvial.

Além de ser fonte de vida, no sentido propriamente dito, enquanto substância essencial para a existência e fornecimento de alimento e renda para o pescador artesanal, a água também representa a garantia da manutenção cultural do modo de vida desses povos. Há um sentimento de pertencimento que envolve esse recurso. Para as comunidades pesqueiras a vida está atrelada a significados simbólicos, míticos e culturais que envolvem, dentre outras coisas, a água (SALDANHA, 2005).

Diegues (2007) destaca que grande parte das populações tradicionais vive à beira de rios, lagos, igarapés e à beira-mar, e isso explica os valores atribuídos às águas. Tais valores são bem distintos daqueles utilizados pelas sociedades urbano-industriais. Para as sociedades tradicionais a água faz parte do território e do modo de vida, está vinculada às suas identidades. Já nas sociedades modernas, a água, como um bem de consumo, é desterritorializada, com os quais as populações urbanas têm pouco ou nenhum contato. Ainda segundo o autor, os rios, lagos e mares desempenham um papel fundamental para a produção e reprodução social e simbólica do modo de vida das populações que deles dependem.

Assim, ser pescador artesanal é estabelecer relações de pertencimento com o mar e suas águas e tecer uma comunhão com esse recurso ecológico. Há um sentimento de irmandade com as águas marítimas e estuarinas. Essa afinidade com o meio e as percepções ambientais traduzem o conhecimento e a familiaridade que as comunidades pesqueiras desenvolveram ao longo do tempo com o ambiente em que praticam a pesca. Essa variedade de práticas assegura a reprodução do grupo, possibilitando a construção de uma cultura integrada à natureza e formas apropriadas de manejo (RAMALHO, 2004; SALDANHA, 2005).

A água é um dos principais elementos dos ambientes costeiros e estuarinos, e suas características físico-químicas são determinantes na dinâmica ambiental local. No estuário, há uma convergência de fluxos hídricos fluviais e marinhos, com características geoquímicas bastante distintas, e tal fato é reconhecido pelos pescadores por exercer forte influência na prática da pesca.

Os pescadores do litoral norte de Pernambuco reconhecem diferenças na cor e salinidade da água, bem como na hidrodinâmica que ocorre de maneira distinta no ambiente marinho e estuarino. A respeito da hidrodinâmica distinguem diversos tipos de marés correlacionando-as às fases lunares e estações do ano.

É importante destacar que grande parte da diversidade biológica coexiste com as sociedades humanas há milhares de anos, dessa forma é possível intuir que essas comunidades representem a possibilidade de existência das “sociedades sustentáveis” (SALDANHA, 2005). Assim sendo, valorizar essas comunidades tradicionais de pescadores que possuem uma relação intima com os recursos ambientais e, em especial a água, é uma forma também de preservar esse precioso recurso natural e imprescindível a existência humana.

No entanto, os recursos hídricos vêm sofrendo cada vez mais com as atividades humanas que vem gerando inúmeros impactos ambientais negativos. No litoral norte, a carcinicultura é uma atividade expressiva (Figura 3) e os pescadores relatam que a área sofre com os impactos decorrentes dessa atividade. Os pescadores afirmam que “o viveiro de camarão lançou veneno e deixou áreas de mangue morto”, e “apesar de ter sido bom pelo emprego, foi ruim porque os produtos químicos como o cloro, começou a matar os caranguejos e as ostras” e enfatizam que “o viveiro vem acabando com a pesca (…) a poluição do viveiro joga tudo para o mar, o produto químico”.

Figura 3- Carcinicultura no litoral de Goiana- PE (Fonte: Google Earth) 

Segundo Pernambuco (2003 apud Sousa et al., 2017) dentre os principais problemas decorrentes das atividades de carcinicultura no litoral norte pernambucano estão a devastação do mangue para implantação/ampliação da infraestrutura desses empreendimentos, bloqueio do fluxo de água salgada nos trechos isolados com a construção das vias de acesso e como resultado a vegetação é suprimida em detrimento da instalação dos viveiros, o que interfere na redução de organismos vivos desse sistema ecológico.

A poluição dos recursos hídricos decorrente de outras atividades também é um problema observado: “a poluição chega no mar através do rio de água doce”; “a pesca diminuiu porque o rio é muito explorado, é remédio, poluição, aí o rio, os braços de rio vão ficando fracos”.

Além disso, avaliam a água do rio como sendo suja e poluída, enquanto a do mar é limpa, considerando desta forma o mar como uma espécie de “purificador”: “o mar leva toda sujeira e depois traz (a água) limpa”. Silva (2000) também discute sobre essa visão dos pescadores, ao afirmar que o sal presente na água, sendo considerado uma substancia sagrada, reforça uma noção de pureza que é capaz de acabar com a poluição a qual o mar é submetido. Assim, a água do mar, graças aos seus componentes, tem a capacidade de impor suas propriedades a outras variedades de água.

A importância do rio (estuário) e do mar é enfatizada pelos pescadores: “no rio entra várias espécies para reproduzir (…) o rio é como se fosse um tanque ou reservatório para ele reproduzir”, “isso aí é uma das riquezas que o Senhor deixou na vida de todos nós. É uma riqueza maior. O mar é mais rico que a terra, para o pescador. O mar sustenta milhões de pescador, tem mais qualidade de pescado… o petróleo é de dentro do mar. Que riqueza tem o mar!”.

Demonstram ainda possuir preocupação com esses recursos, pois afirmam que retiram lixo do mar “porque prejudica a gente mais tarde, aquilo ali polui”, temos que ter “cuidado em preservar o que estamos pegando, o que estamos destruindo hoje pode faltar amanhã”.

Através dessa breve discussão podemos ver a visão do pescador acerca dos recursos hídricos e a sua importância para a manutenção tanto do ponto de vista socioeconômico como cultural dessas comunidades. Preservar o modo de vida desses povos é também proteger o meio ambiente e a água.

Referência

DIEGUES, A. C. S. Água e Cultura nas Populações Tradicionais Brasileiras. In: I Encontro Internacional: Governança da Água, São Paulo, nov. 2007.

RAMALHO, C. O mundo das águas e seus laços de pertencimento. Raízes, Campina Grande, v. 23, n. 01-02, p. 62–72, jan./dez. 2004.

SALDANHA, I. R. R. Espaços, recursos e conhecimento tradicional dos pescadores de manjuba (Anchoviella lepidentostole) em Iguape/SP. 2005. 179f. Dissertação (Mestrado em Ciência Ambiental)- Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.

SILVA, Gláucia Oliveira da. Água, Vida e Pensamento: um estudo de cosmovisão entre trabalhadores da pesca. In: Imagem das Águas. São Paulo: Hucitec: NUPAUBUSP, p. 27-38, 2000.

SOUSA, Adeilton Marcelino Vidal de, et al. Problemas e conflitos socioambientais no litoral do Município de Goiana, Pernambuco. Revista Brasileira de Geografia Física, v.10, n.06, p.1934-1947, 2017.

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