Questão de Polícia ou Questão Urbana?

Ou os que protestam são vândalos, ou o sistema político tornou-se incapaz de canalizar demandas que ninguém pode desqualificar

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Por Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida

Um clássico do anedotário político brasileiro é o modo como o governador de Minas Gerais, Milton Campos, insuspeitíssimo de ser um radical de esquerda, tratou uma greve de ferroviários no município de Conselheiro Lafayete. Os trabalhadores reivindicavam pagamento de salários atrasados e o secretário de segurança sugeria mandar a polícia. A reação de Milton Campos foi desconcertante: “Não seria melhor enviar um trem pagador?”

Em pleno 2013, a sociedade brasileira é muito mais complexa, inclusive muito mais urbanizada. Porém, diante de manifestações coletivas embasadas em candentes questões urbanas, muitos preferem enviar a tropas de choque.

A política de transportes implementada pelo Estado brasileiro desde a segunda metade dos anos 50, com prioridade quase absoluta ao setor rodoviário, especialmente o automóvel particular, chegou ao colapso. Os carros não andam, o ar fica irrespirável, o gasto de combustíveis é desmesurado. E o transporte coletivo é escasso e caro para os milhões que o utilizam.

É mais cômodo queixar-se do congestionamento ou prometer resolvê-los com medidas de curto prazo do que encarar o problema de frente. Faz muito tempo que o então governador Orestes Quércia prometeu um trem-bala que para o trecho São Paulo – Araraquara. Nada se fez e nem precisava tanto. Que tal começar por uma rede de trens (sem bala) e metrô que possibilite melhor acesso aos aeroportos de Congonhas, Cumbica e Viracopos? Por que isto é bom para Paris ou Nova York e não serve para o Rio ou Salvador?

A inexistência de recursos não é tão óbvia assim. Estes não faltaram para a construção em tempo recorde de infraestrutura (estádios inclusos) para as copas das Confederações e do Mundo. Adoro futebol, mas trocaria este espetáculo circense em dose dupla por um bom sistema de transporte coletivo. As manifestações que ocorrem nas grandes cidades brasileiras prestam uma imensa contribuição ao desnudarem esta complexa teia de problemas a incluir na agenda política brasileira. Por falar em recursos, cerca de 45% do que Estado brasileiro arrecadou em 2011 destinou-se à rolagem da dívida pública, o que faz a delícia dos rentistas. E esta dívida nunca foi auditada. Quem são os vândalos?

Estimulou-se o uso de notebooks, smartphones, tablets, sem os quais não vale a pena viver. E não se previu que isto ajudaria muitos jovens a se porem em movimento não somente para comprar o game da moda, mas para marcarem pontos de encontro, trajetos de manifestação, formas de enfrentamento com a polícia? Basta ver o que acontece no mundo lá fora.

Se nada se faz para resolver graves aspectos da questão urbana no Brasil e criminalizamos os que, coletivamente, se envolvem com isto, o problema é sério: ou os que ocupam a rua são vândalos ou o sistema político tornou-se incapaz de canalizar demandas que, em sã consciência, ninguém pode desqualificar.

A primeira hipótese é inverossímil. A segunda preocupa.

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