O outro lado do cigarro também mata

Num livro-reportagem sobre a cadeia do tabaco no Brasil, um universo que entrelaça de pequenos agricultores a altos executivos, lobbies poderosos e autoridades do Estado

Por João Peres e Moriti Neto

Pouca gente sabe que o Brasil, maior exportador mundial de folha de tabaco desde os anos 1990, enche os pulmões do mundo com nicotina. Roucos e sufocados (lançamento da Editora Elefante) oferece um retrato singular do Vale do Rio Pardo, no Rio Grande do Sul, coração da fumicultura nacional. É de lá que emana o discurso — e o lobby — em defesa do cigarro. Os autores analisam a retórica que mistura a sobrevivência de pequenos agricultores aos interesses de megacorporações em busca de lucros cada vez maiores, e desvendam como essa articulação é utilizada para frear políticas de saúde pública e controle do tabagismo. Por trás da cortina de fumaça se entrelaçam políticos, meios de comunicação, sindicatos, organizações que dizem combater o contrabando e até perfis falsos da internet. Deputados e senadores, prefeitos, ex-ministros, integrantes do STF e ex-secretários da Receita Federal: uma vasta e poderosa rede de favorecimentos surge na defesa disfarçada de um setor econômico que mata metade da própria freguesia.

Leia um trecho a seguir:

Tragédia em disfarce

Rouca, a voz da morte atravessa esta história. Representada de formas diversas, ela se camufla no discurso da alegria e do sucesso. Sussurra ilusões sobre progresso e riqueza. Na maioria dos casos, o verdadeiro tom se revela tarde demais, quando elementos físicos e simbólicos, corpos e saberes, já estão destroçados. De fato, é difícil perceber tragédias onde são distribuídas fantasias de perfeição. A região do Vale do Rio Pardo, no Rio Grande do Sul, é um desses locais. Antes de prosseguir, um aviso: o que será contado não revela sagas heroicas; somente vítimas, algozes e alguns resistentes.

TEXTO-MEIO

Esperamos ser perdoados se este parágrafo soar como um teste de conhecimento, mas optamos por correr o risco: você sabe que as maiores transnacionais de cigarros têm sede num pequeno município de 773 quilômetros quadrados e 127 mil habitantes, localizado no Sul do Brasil? E que esse lugar é considerado a “capital mundial do fumo” e o grande responsável por fazer do país o maior exportador de tabaco processado do planeta, além de ser o vice-campeão mundial em produção da folha, atrás apenas da China? Caso saiba, ótimo. Se não, divida conosco uma angústia: tardamos também a obter tais informações e, essencialmente, demoramos a descobrir os graves problemas sociais, políticos, econômicos e culturais que se escondem debaixo delas em Santa Cruz do Sul e na microrregião que a rodeia.

Fundada em 6 de dezembro de 1877, a cidade fica a 155 quilômetros da capital gaúcha, Porto Alegre, e é um dos principais núcleos da colonização alemã em solo brasileiro. A complexa combinação entre a prevalência da cultura germânica e a presença da indústria fumageira — como é chamado o oligopólio das transnacionais do cigarro na região — concede outro título ao local. Para além de “capital mundial do fumo”, Santa Cruz aparece como uma “campeã de mortes”. Está na lista do Mapa da violência, publicado com base em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, como uma das líderes no ranking de suicídios no país — teve a sétima maior taxa geral em 2012 e ocupou a 29ª posição quando considerada apenas a população jovem. A vizinha Venâncio Aires ficou no quinto lugar quanto às maiores taxas de suicídio entre jovens e em 15º lugar quanto à população em geral.

Para que se tenha uma breve ideia, são trinta as pessoas que se suicidam diariamente no Brasil — em média, onze mil anualmente —, o que supera os números diários de vítimas de alguns tipos de câncer. O Rio Grande do Sul, apesar de abrigar somente 14% da população brasileira, é cenário de 23% dos casos anuais (2.518), com 10,7 suicídios a cada 100 mil habitantes, o dobro da média nacional (de 5,4), sendo o Vale do Rio Pardo um dos pontos mais alarmantes. Em 2014, o Mapa da violência já apontava que, das vinte cidades de maior índice, onze são gaúchas. Entre elas, três estão na região das fumageiras: Santa Cruz do Sul, Venâncio Aires e Encruzilhada do Sul.

Órgãos municipais também acompanham a situação. E a confirmam. Em 2015, em Santa Cruz, suicidaram-se dez pessoas. O ano seguinte teve um salto: 22 casos. Em 2017, outros dezenove entraram para a lista, conforme o Comitê Municipal de Combate aos Suicídios. Venâncio Aires, município habitado por 65 mil pessoas, chegou a ser classificado com a menção nada honrosa de “capital mundial do suicídio” devido a um surto em 1995, quando ocorreram 37 casos por 100 mil habitantes — 60% em área rural.19 Conforme a Vigilância Epidemiológica municipal, em 2015 foram quinze óbitos, onze em 2016 e mais dezoito em 2017. Já na pequena Encruzilhada do Sul, com 25 mil moradores, foram registrados seis suicídios em 2015. Em 2016, outros dois.

Estranhos números em uma região que, de longe, é vista como próspera. Santa Cruz, por exemplo, carrega boas marcas econômicas. É o quinto colocado entre os municípios rio-grandenses no que se refere ao Produto Interno Bruto (PIB), chegando ao montante de R$ 7,8 bilhões em 2017. A renda per capita média mensal em 2010, de R$ 1.036,87, era maior do que as médias do Brasil e do Rio Grande do Sul, de R$ 793 e R$ 959, respectivamente. As corporações do fumo e aqueles que as seguem se proclamam os responsáveis por esse “desenvolvimento”, mas pouco ou nada falam sobre o envolvimento do cultivo de tabaco com mortes e tentativas de suicídio. Os fatos, dados e pesquisas que conectam essa relação são diversos e não pautam a mídia tradicional. Vamos, aqui, buscar descortinar os motivos dessa tragédia disfarçada.

TEXTO-FIM
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João Peres e Moriti Neto

JOÃO PERES (foto) é autor de "Corumbiara, caso enterrado" (Elefante, 2015), livro-reportagem que esteve entre os finalistas do Prêmio Jabuti em 2016 e foi agraciado com o segundo lugar no Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo em 2015. Foi editor e repórter da Rede Brasil Atual entre abril de 2009 e novembro de 2014, após ter passado pelas redações das rádios Jovem Pan AM e BandNews FM. É tradutor do livro Uberização: a nova onda do trabalho precarizado, de Tom Slee (Elefante, 2017). Nos últimos anos tem se dedicado a investigar o setor privado. É um dos fundadores do site O joio e o trigo, especializado em política alimentar. MORITI NETO é jornalista, com passagens pelo site Rede Brasil Atual, pelas revistas Fórum e Caros Amigos, e pelo blog Nota de Rodapé. Também colaborou com jornais e sites do interior paulista. Recebeu o primeiro e o segundo lugar no Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo em 2014 e 2015, e o Prêmio Anamatra de Direitos Humanos em 2016, por reportagens produzidas para a Agência Pública. Como professor, coordenou o jornal Matéria-Prima, do curso de jornalismo da Unifaat, que em 2013 recebeu quatro menções no Prêmio Yara de Comunicação. É um dos fundadores do site O joio e o trigo, especializado em política alimentar.