Uma recessão sexual assola os jovens?

Em algo países ricos, nova geração transa menos que as anteriores. A libido estaria em xeque devido às crescentes pressões econômicas e distúrbios emocionais? Ou é apenas mais liberdade e recuo do sexo coercivo ou indesejado?

Nossos prazeres e perversões não são mais vergonha. O sexo anal, veja só, que em um passado não muito distante gerava puritanas polêmicas, agora já é até tema de manual da Teen Vogue. O pornô migrou de pesadas fitas VHS’s para a tela de nosso smartphone – usado, também, para produzir nosso próprio “entretenimento adulto” caseirão em sextapes e nudes. Surgiu infinidade de aplicativos para encontros com possibilidade de sexo casual – como Grindr e o Tinder – ou mais “especializados”: para traições conjugais, ménage à trois ou sadomasoquismo.

Embora vivamos uma época com contradições e violências latentes em relação à gênero e sexualidade – com perseguições a gays e trans, alarmantes taxas de feminicídios e disparidades salariais brutais entre homens e mulheres, só para citar alguns exemplos — não seria de esperar que todo esse advento tecnológico ao menos trouxesse facilidades para uma louca e ativa vida sexual? “Se no meu tempo tivéssemos tudo isso que vocês têm…”, costumamos ouvir de efusivas senhoras ou senhores, maravilhados com o suposto mundo de sexo livre e casual desfrutado pela juventude.

Mas parece que não é bem assim. Ao menos, em alguns países.

Uma reportagem publicada no The Atlantic por Kate Julian mostra que os jovens estadunidenses estão deixando de transar. De 1991 a 2017, segundo a Pesquisa de Comportamentos de Risco para Jovens do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, a porcentagem de alunos do ensino médio que tiveram relações sexuais caiu de 54% para 40%. A taxa de gravidez na adolescência nos EUA, ainda segundo o The Atlantic, também despencou – um fato que foi comemorado na década de 1990, mas que agora é visto como sinal de um possível desenvolvimento sexual tardio dos adolescentes.

Jean M. Twenge, professora de psicologia da Universidade Estadual de San Diego entrevistada pelo The Atlantic, aponta que há sim razões para preocupação: jovens de 20 anos – os millennials — são duas vezes e meia mais propensos à abstinência sexual que a geração X (pessoas que nasceram 1965 e 1979). Outro dado citado pela professora é que o adulto médio também transa menos: de 62 relações por ano, passou para 54. Uma pessoa pode não notar essa diminuição, analisa Twenge, mas, em nível nacional, isso representa um grande deficit sexual.

A pergunta que muitas fazem é se estaríamos vivendo tempos de recessão sexual – como se não bastasse a econômica.

O mundo rico não transa?

A maioria dos países não acompanha de perto a vida sexual de seus cidadãos, mas os que tentam (todos eles ricos) relatam quedas. Um dos mais respeitados estudos sobre sexo do mundo, a Pesquisa Nacional de Atitudes e Estilos de Vida da Grã-Bretanha, apontou, em 2001, que pessoas com idades entre 16 e 44 anos estavam fazendo sexo mais de seis vezes por mês em média. Em 2012, a taxa caiu para menos de cinco vezes.

Na Holanda, a idade media que as pessoas começam a se relacionar sexualmente aumentou de 17,1 em 2012 para 18,6 em 2017 e preocupou especialistas. O medo de alguns educadores holandeses é que os jovens estejam pulando uma etapa crucial de seu desenvolvimento — que inclui não somente beijar, flertar e transar, mas também lidar com decepções – e não estarem preparados para a vida adulta.

A Suécia, que tem uma das maiores taxas de natalidade da Europa, também constatou em recente pesquisa que seus cidadãos estão fazendo menos sexo. “Se as condições sociais para uma boa vida sexual — por exemplo, por meio de estresse ou outros fatores prejudiciais — se deterioraram é um problema político”, escreveu Gabriel Wikstrom, então ministro de saúde sueco.

Meme que circula na internet do programa “Choque de Cultura”, da TV Quase

A juventude mudou?

Para parte da juventude, o sexo já não é uma atividade tão prioritária: a pressão por construir um futuro e uma carreira profissional de sucesso leva muitos jovens a canalizar suas energias em outras coisas além das relações afetivas e sexuais.

Um estudo realizado em 1995 – chamado Add Health – descobriu que 66% de jovens do sexo masculino de 17 anos e 74% das jovens de 17 anos haviam experimentado “um relacionamento romântico especial” nos últimos 18 meses. Em 2014, quando o Pew Research Center perguntou a jovens de 17 anos se eles “já namoraram, namoram ou tiveram um relacionamento amoroso com outra pessoa” — aparentemente uma categoria mais ampla do que a anterior — apenas 46% disseram que sim.

Alguma coisa deixou os adolescentes “menos românticos”?

Segundo a professora Twenge, a juventude mudou muito nos últimos 25 anos. E não só em relação ao sexo, mas também em outras atividades relacionadas a vida adulta como beber, sair da casa dos pais, trabalhar ou dirigir um automóvel.

Essas mudanças, ainda segundo a professora, coincidem com outra: a crescente ansiedade dos pais em relação às perspectivas educacionais e econômicas de seus filhos. Houve, portanto, um declínio no tempo livre não supervisionado. Afinal, fica difícil pensar em sexo quando se tem aula de natação às 6h30, escola às 20h, aula de francês às 15h30, piano clássico às 15h15, jantar em família às 19h etc.

Extinção da libido?

Mas, afinal, estaríamos mesmo vivendo uma recessão sexual?

Algumas pessoas relatam sofrerem de uma “dormência” sexual e romântica provocada por experiências sexuais insatisfatórias, inibições, traumas e, principalmente, por ansiedade e depressão.

Os índices dessas enfermidades vêm aumentando, há décadas, entre os estadunidenses – inclusive entre os adolescentes – e tratamento mais comum, tomar antidepressivos, também contribui para reduzir a líbido.

Por isso, segundo o The Atlantic, muitos formulam teorias de como certas características da vida modernidade – esmagadoras pressões econômicas, ansiedade crescente, fragilidade psicológica, uso generalizado de antidepressivos, conectividade crescente, estrogênios vazados pelos plásticos no meio ambiente, queda dos níveis de testosterona, pornô digital, “era de ouro” do vibrador, boom de aplicativos de namoro, excesso de pressão familiar, sobrecarga informacional, privação de sono e obesidade – podem estar afetando nossa vida sexual.

Talvez por isso tudo – ou mesmo só devido a alguns fatores dessa longa lista – estejam surgindo os “celibatários por opção”: pessoas infelizes com a vida sexual que tinham e que decidiram corta essa complicação – ou desprazer – de suas vidas por um tempo ou mesmo pra sempre.

“Podemos morrer de fome, morrer de desidratação e até morrer por privação de sono. Mas ninguém nunca morreu por não conseguir transar”, brinca a educadora sexual Emily Nagoski, entrevistada pelo The Atlantic. Afinal, segundo ela, o ser humano precisa de sexo, mas as pessoas, como indivíduos, não. Mas será que essas taxas crescentes de infelicidade na sociedade estão contribuindo para a recessão sexual? Será que caminhamos para um futuro blackmirroniano em que nossos apetites sexuais poderão ser extintos?

Uma mudança positiva – em termos?

Aparentemente, os dados apresentados para embasar suposta “recessão sexual” deveria ser motivo para comemorarmos. Ao menos para Debby Herbenick, pesquisadora da Universidade de Indiana, que levanta uma teoria interessante para essa queda de relações sexuais entre os jovens estadunidenses: a influência da pornografia convencional na vida de adolescentes sem uma educação sexual mínima pode ter contribuído para experiências sexuais precoces – e desagradáveis. E pergunta: não estaríamos vendo, na verdade, um recuo do sexo coercivo ou indesejado? As pessoas – principalmente as mulheres – não estariam se sentindo livres e seguras para dizer “eu não quero”?

Em 2012, 30% das mulheres disseram sentir dor nas relações vaginais e 72% nas anais. Não há comparação para dizer se houve aumento ou não, mas esses números são preocupantes. Muitas meninas e mulheres, segundo Herbenick, internalizaram a ideia de que o desconforto físico nas relações sexuais é normal – e isso precisa ser mudado com uma formação sexual efetiva e libertadora.

Lucia O’Sullivan, professora de psicologia da Universidade de New Brunswick, adverte na reportagem de Kate Julian que a juventude não vivencia o sexo de maneira saudável – e não há nenhum moralismo na sentença, acredite. Ela publicou pesquisas que documentam altas taxas de “disfunção sexual” entre adolescentes e adultos jovens. O ideia para o trabalho surgiu em um almoço com uma médica, responsável pelo centro de saúde estudantil da universidade, que comentava, preocupada, que diagnosticava costumeiramente fissuras vulvares nas estudantes. Elas não relatavam estupro, mas a condição de suas genitálias apontavam que elas sofriam relações sexuais indesejadas, sem excitação.

— E qual é o padrão de atendimento? — perguntou O’Sullivan.

— Simples, respondeu a médica, receitamos KY.

E no Brasil?

A principio, essa onda de falta de sexo entre os jovens dos países ricos parece não ter chegado ao Brasil. A pesquisa Mosaico 2.0, realizada pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, concluiu que nossos adolescentes iniciam a atividade sexual entre os 13 e 17 anos de idade – e que, portanto, a preocupação brasileira é outra, o sexo seguro, e não necessariamente sua falta. Outro estudo, realizado pela Viacom Internacional gradivezMedia Networks (VIMN), apontou que apenas 25% dos nossos jovens de 18 a 24 anos são virgens – no EUA , por exemplo, o índice é de 53%.

Mas uma coisa temos em comum com os estadunidenses: ao que parece não estamos plenamente felizes com nossa vida sexual. Apesar da frequência de relações do brasileiro se manter relativamente alta – segundo pesquisa da rede social adulta “Sexlog”, 34,5% responderam que transam de duas a três vezes por semana, enquanto 25,1% transam quatro vezes ou mais no mesmo período – 51% dos seis milhões de usuários da plataforma disseram estar insatisfeitos na cama.

Nessa avalanche informacional e de produtos sobre nossa sexualidade para consumirmos – e com o discurso conservador ganhando força, seja aqui ou nos EUA e Europa — seria importante nos questionar se estamos estimulando a pluralidade de visões e uma educação sexual libertadora, que torne as pessoas felizes em suas escolhas, ou se estamos apenas falando de sexo de forma vazia e despolitizada e contribuindo para relações sexuais dolorosas e traumáticas, como as citadas pela médica do centro estudantil.

Afinal, desde criança, aprendemos xingamentos e ofensas baseadas no sexo e a construir nossos relacionamentos em preconceitos e estereótipos – e, muitas vezes, também bases violentas. A consequência na juventude e na vida adulta é a grande quantidade de pessoas que sofrem com seus medos, culpas, dúvidas, frustrações e disfunções sexuais.

A solução para esse problema (e muitos outros como o machismo, gravidez na adolescência, prevenção de DSTs etc.), segundo muitos especialistas, passaria pelas escolas – e, apesar de ser propagado que a população é conservadora e não quer falar sobre sexo nesses espaços, pequisas já apontam o contrário. O Datafolha perguntou aos brasileiros se concordavam com educação sexual e discussão política em sala de aula. A conclusão foi de que 54% concordam com o debate sobre sexualidade nas escolas e 71% acreditam que assuntos políticos devem ser abordados.

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