Uma materialização artística da morte na pandemia

Em Insuflação de Uma Morte Crônica, quatro mulheres enchem bexigas e convivem com elas — isoladas num apartamento, com transmissão ao vivo. No trabalho, um convite à reflexão sobre a necropolítica, que transforma perdas em números

Por Simone Paz e Mulheres em Quarentena | Imagens: Cacá Bernardes

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Tudo começou em março de 2020, na cabeça de Bruna Lessa, cineasta e artista visual que assina a concepção da obra e que também performa em Insuflação de Uma Morte Crônica.

A performance, que teve início na primeira segunda-feira de agosto (e vai até dia 16/8), nasceu de uma conversa entre Bruna e Eliana Monteiro (Teatro da Vertigem) lá no início da pandemia, pensando nas questões femininas que a quarentena acarreta: além de muitas mulheres do audiovisual e de backstage estarem desempregadas, sem perspectiva nenhuma de trabalhos no horizonte próximo, todo o peso do trabalho do lar, dos cuidados, do afeto e dos filhos, recai sobre seus ombros.

Como relacionar, então, a morte, a violência do vírus e da necropolítica brasileira, com a violência feminina e o desemprego? O resultado é o trabalho que pode ser acompanhado ao vivo, por YouTube, 24h por dia, aqui.

Frame obtido às 16h22 do dia 06/08/2020 — por meio da transmissão no YouTube

“A gente dá ar exatamente às pessoas que estão morrendo sem ar”

São quatro performers, Cacá Bernardes, Carina Iglecias e Joanna Coutinho, além da própria Bruna, enchendo bexigas pretas — e convivendo com elas em suas atividades cotidianas — pelo tempo de uma quarentena: 14 dias.

A inquietação que move o projeto é aquela de dar corpo e visibilidade a essas vidas que se foram, como Bruna Lessa explica num áudio de WhatsApp para a jornalista Juliana Pithon: “O Insuflação parte de uma inquietação minha de parar de pensar número e começar a pensar em volume. Que volume que ocupa? O projeto começou quando a gente estava lá em 5 mil mortes. A gente não pensava em chegar a 100 mil como a gente está agora. Óbvio que tinha um monte de estudos que já diziam que chegaríamos até aqui. Mas 5 mil já me assustava muito. Qual era o volume de 5 mil mortos? Naquele momento, que espaço que ele ocupa? Como que dentro da minha casa eu consigo dimensionar essa espacialidade?”

Bruna ainda acrescenta que, na performance, lida-se fortemente com a materialização da morte: “Escolhemos, como material, as bexigas pretas […] A gente dá ar exatamente às pessoas que estão morrendo sem ar”.

Mas, no meio de tudo isso, foram surgindo novas perspectivas, porque também se fala da vida: “cada bexiga dessas é uma pessoa, que tem família e amigos, que tem uma história”. E, assim, vai ganhando dimensão o que mais ecoa: que as vidas importam. “O Mulheres em Quarentena nasce um pouco disso, de privilegiar a vida, de produzir trabalhos que pensem a vida”

Ao final dos 14 dias, as bexigas serão esvaziadas e doadas para um coletivo de mães da periferia de São Paulo, que transformarão os resíduos num grande manto-tela.

Após o fim de Insuflação, no dia 16 de agosto, tem início mais um espetáculo do Mulheres em Quarentena, “E o que restou do barro silenciou a mulher”, que traz à tona a recusa ao silêncio imposto às mulheres, tanto no âmbito público e regulamentado como nos ambientes mais privados, por exemplo, o das relações familiares.

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