Twitter anti-Cuba: uma gota d'água no oceano?

Mulher usa celular no "Malecón" de Havana. Apresentado como serviço comercial, "twitter cubano" era controlado por agência norte-americana

Mulher usa celular no “Malecón” de Havana. Apresentado como serviço comercial, “twitter cubano” era controlado por agência norte-americana

Documentos de Edward Snowden revelam: EUA e Reino Unido promovem manipulação incessante da internet, para desestabilizar governos “inimigos”

Por Cauê Seignemartin Ameni

No início de abril, a agência de notícias Associated Press fez a mais recente revelação envolvendo ações encobertas dos EUA para promover o dissenso em Cuba. A ferramenta, chamada de ZunZuneo, é uma espécie de Twitter que disparava mensagens de celular (SMSs). Chegou a ser utilizada por cerca de 40 mil cubanos. Na aparência, visava promover a troca de notícias sobre esportes, música e clima. Mas tinha como objetivo original corroer a credibilidade do regime, instigando uma “primavera cubana” . Foi criado pela Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), organização supostamente voltada para ajuda humanitária. Era, contudo, apresentado como plataforma privada, isenta de vínculos com Estados — especialmente o norte-americano…

Há uma semana (em 7/4), a trama complicou-se. De acordo com os documentos revelados pelo jornalista Glenn Greenwald, esta prática não se restringe apenas à ilha caribenha. As agências de inteligência norte-americana (NSA) e britânica (GCHQ) trabalham há anos num esforço conjunto para manipular opinião pública nas principais redes sociais de alcance mundial como Twitter, Facebook e Youtube. “Esse tipo de operação é frequente nas agências de inteligência ocidentais, que se infiltram secretamente nas mídias sociais para disseminar ‘propaganda’, ‘mensagens em massa’, e ‘promoção de notícias’ (…) difundindo disfarçadamente pontos de vista amigáveis aos interesses ocidentais e espalhando informações falsas ou prejudiciais contra alvos”. Isso aparece repetidamente em todos os documentos da NSA vazados pelo ex-agente Edward Snowden, relata Greenwald na nova publicação digital onde é editor, The Intercept.

Documentos publicados há semanas, na estréia da revista (ver nossa tradução Como os governos ocidentais manipulam a internet), expõem a agressividade da GCHQ em manipular a rede mundial de computadores. Já o material que Greenwald trouxe à luz em 7/4 — uma apresentação interna, para membros desta agência de espionagem e suas congêneres de países anglo-saxões — revela alguns detalhes das ações. Uma delas, bastante sugestiva, é chamada de “colheita de credenciais” [credential harvesting]. Por meio de espionagem eletrônica, os agentes procuram “identificar jornalistas não-britânicos que poderiam ser manipulados, para produzir informações no âmbito de uma campanha sigilosa”.

Para Greenwald, este tipo de ação ameaça “a própria integridade da internet”: “um usuário comum da rede tem pouquíssima — ou nenhuma — condição de saber se as mensagens que lê são propaganda produzida secretamente por governos”. Ainda segundo ele, “é precisamente por isso que [tal tipo de manipulação] é tão atraente para as agências de espionagem, tão poderosa e tão perigosa”

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