Alckmin ataca santuário ecológico de São Paulo

rio com cidade ao fundo

Transposição das águas do rio Itapanhaú, em Bertioga, representa a luta entre dois modelos de desenvolvimento e relação com o planeta e as pessoas

Por Mauro Lopes

O governador Geraldo Alckmin e a Sabesp estão em plena ofensiva que coloca em risco a sobrevivência de um dos mais importantes santuários ecológicos do Estado de São Paulo. É um ataque violento ao município de Bertioga, que tem quase 90% de seu território de 482 km² (20% da Baixada Santista) protegido ambientalmente, com um total de 77,6% composto por Vegetação Natural[1]. É um dos maiores patrimônios ambientais de São Paulo, ameaçado pelo  projeto de transposição das águas do rio Itapanhaú.

O motivo alegado para a transposição é a crise hídrica 2014/2016 do Estado de São Paulo, uma das marcas da gestão Alckmin. Apesar de o governador repetir que ela está superada, a administração decidiu transpor as águas do Rio Sertãozinho, um dos principais afluentes do Rio Itapanhaú, para o sistema do Alto Tietê, como parte do empreendimento “Obras de Aproveitamento da Bacia do Rio Itapanhaú para o Abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo”.

A grande articuladora de todo o projeto é a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) que, deixou de ser uma companhia efetivamente do Estado, voltada ao interesse público e tornou-se uma organização com espírito e conduta de empresa privada –com foco exclusivamente no lucro. A Sabesp tem 49,7% de seu capital nas mãos de bancos e grandes investidores. Alckmin tem atuado como um “garoto propaganda” da empresa, em São Paulo e Nova York (veja a foto abaixo, do próprio governo do Estado). Continuar lendo

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Serra da Capivara: outro turismo será possível?

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Estudantes de diversas universidades brasileiras buscam caminhos para estimular, no principal sítio arqueológico das Américas, visitação não-predatória e favoravel a comunidades locais

Por Maria Vitória Ramos e Bruno Cirillo

Voluntários de diferentes universidades brasileiras partiram ontem (11/7) para uma viagem ao Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, preocupados com a viabilidade turística da região. A primeira etapa da Expedição Serra da Capivara, articulada em rede e bancada pelos próprios participantes, com apoio das instituições locais, é uma missão de reconhecimento das comunidades ligadas à unidade de conservação e da infraestrutura turística local. O objetivo: compreender, estruturar e promover o turismo de viés comunitário, utilizando tecnologias como os sites de hospedagem que facilitem a geração de renda para os moradores e o parque. Continuar lendo

Automóveis? Nem a eletricidade salva

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Novo estudo revela: emissões de carbono dos motores continuarão crescendo, enquanto modelo baseado no transporte individual não for substituído

Por Antonio Martins

Nos últimos anos, os defensores do automóvel animaram-se com a possibilidade de garantir a sobrevida do produto que defendem. Um número crescente de montadoras lançou modelos elétricos ou híbridos. Além disso, uma evolução notável na tecnologia de construção das baterias tem ampliado a autonomia dos carros que se reabastecem na tomada de energia de seus donos. Haveria, enfim, compatibilidade entre o transporte individual e o planeta?

Um estudo recém-publicado do Instituto de Estudos sobre Transporte, uma organização civil norte-americana, demonstra que não, por dois motivos. Em primeiro lugar, o mundo está diante de uma perspectiva aterradora. Nos próximos quinze anos – até 2030 – o número de automóveis em circulação irá duplicar, atingindo a marca de 2 bilhões de veículos. O gráfico abaixo mostra que a curva do crescimento “populacional” do automóvel cresce de modo vertiginoso e não há perspectiva de se estabilizar – se mantidas as políticas de transporte atual. A imensa maioria destes veículos será movida a combustíveis fósseis: a falta de restrições reais à sua circulação, ou de estímulos efetivos às novas tecnologias garantirá este prognóstico. O automóvel elétrico continuará sendo, para efeitos estatísticos, uma peça publicitária. Continuar lendo

Agrotóxicos e câncer: irresponsabilidade torna-se explícita

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Instituto Nacional do Câncer estabelece relação entre doença e venenos agrícolas. Governo e Congresso insistem em manter política que incentiva, com isenção de impostos, uso maciço do produto

Por Inês Castilho

Finalmente o assunto recebeu a divulgação que merece. No Dia Mundial da Saúde, 8 de abril, o veneno que está em nossa mesa foi apontado pelo Inca (Instituto Nacional de Câncer) como causador de vários tipos de câncer – e a informação, sempre abafada, chegou aos telejornais. Relatório sobre o uso de agrotóxicos nas lavouras alerta para a gravidade do problema para a natureza, os trabalhadores e toda a população. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo: mais de um milhão de toneladas por ano, ou 5,2 kg por habitante.

Cerca de 280 estudos sobre a relação entre câncer e pesticidas vêm sendo publicados anualmente em revistas científicas internacionais – ressaltou o pesquisador do Inca Luiz Felipe Ribeiro Pinto, no lançamento do documento – quatro vezes mais que vinte anos atrás. O Inca recomenda criar políticas de controle e combate desses produtos, cujos fabricantes são isentos de impostos!, para proteger a saúde da população. Apoia o consumo de alimentos orgânicos, livres de agrotóxicos, e reivindica políticas públicas que apoiem a agroecologia com mais recursos – hoje, muito menores que os carreados para o agronegócio. Recorda que o país isenta de impostos a indústria produtora de agrotóxicos. Alerta que o Brasil permite o uso de agrotóxicos proibidos em outros países. Continuar lendo

Para enxergar as águas que nos constituem

Ao lado da escadaria que liga a Rua Werner Sack à Rua Orós está uma das nascentes do Rio das Corujas. Os vigias que trabalham na guarita ao pé do morro garantem que a água jorra 24 horas por dia, 365 dias por ano

Ao lado da escadaria que liga a Rua Werner Sack à Rua Orós está uma das nascentes do Rio das Corujas. Os vigias que trabalham na guarita ao pé do morro garantem que a água jorra 24 horas por dia, 365 dias por ano

Em São Paulo, pequenas iniciativas procuram tornar rios novamente visíveis e criar outro paradigma de urbanização e usufruto dos recursos naturais

Por Bruna Bernacchio

Em menos de um século, a capital paulista se transformou. É difícil acreditar que, antes do mar de carros que hoje ocupa suas ruas, havia rios em SP. A cidade foi fundada entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, essenciais à vida que se desenvolveu por ali. Mas, para o modelo industrial da década de 30, os rios passaram a ser obstáculos, e as ferrovias, símbolo de modernização. O documentário “Entre Rios – A urbanização de São Paulo” conta essa história.

Na Serra da Cantareira, zona Norte de SP, onde está o maior sistema de captação e tratamento de água da América Latina, estão também alguns dos poucos rios não canalizados da cidade. Ao pé da Serra, no populoso distrito da Brasilândia, estão o Riacho da Onça, do Canivete, do Bananal e do Bispo, entre outros. É fácil enxergar, ali, a água correndo – só que entulhada de lixo. As casas, muito próximas das várzeas, jogam o esgoto direto nos córregos. Mas não é só lá. “Tanto do barraco, que da privada cai no riacho, como do Shopping Cidade Jardim, que segue pro Rio Pinheiros, por encanamento”, revela o geógrafo Luiz de Campos Jr, da iniciativa Rios e Ruas. Segundo ele, a Sabesp não tem coletor em vários locais da cidade. Continuar lendo

Transgênicos: a importância de abrir o debate

Martin Langer

Audiência promovida pelo Ministério Público Federal revela que persistem dúvidas sobre “segurança” das plantas modificadas e expõe necessidade de romper silêncio sobre temas nacionais relevantes

Por Elenita Malta Pereira

O Ministério Público Federal (MPF) realizou em 12 de dezembro de 2013, em Brasília, uma audiência pública sobre a iminente liberação de sementes transgênicas de milho, soja e algodão resistentes ao herbicida 2,4-D, componente do famoso “Agente Laranja” que tanto prejuízo causou ao Vietnã. O MPF, a AGAPAN e o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) já haviam solicitado à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTN-Bio) a realização da Audiência, para discutir com maiores detalhes os riscos da utilização dessa tecnologia. No entanto, a comissão recusou a proposta, e o MPF decidiu realizar o evento em suas próprias dependências.

Na audiência, transmitida pela TVMPF ao vivo, foram ouvidos representantes a favor e contra os transgênicos, de forma democrática. Em três mesas temáticas, foram abordados as pesquisas sobre o 2,4-D; aspectos da avaliação toxicológica do produto no Brasil e exterior – aqui ele é considerado “Extremamente tóxico”; riscos à saúde humana e animal, danos ao ambiente; a estrutura e composição da CTN-Bio, implicações éticas de suas ações e sugestões para melhorar seu funcionamento. Continuar lendo

O céu é cinza sobre Varsóvia

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Nova conferência sobre clima aproxima-se do fim. Países seguem divididos em três blocos, nenhum dos quais disposto a repensar a sério padrões de produção e consumo

Por Umberto Pessot, da Agência Jovem de Notícias*

Terceiro dia de conferência da ONU sobre mudanças climáticas em Varsóvia (13 de novembro). Há uma grande agitação dentro do estádio nacional, onde acontecem os trabalhos da COP19. A única coisa que se nota claramente é que estamos longe, muito longe de um acordo. Os lados se definiram de forma clara já nas primeiras duas reuniões plenárias, com a participação de todas as delegações. De um lado, a China lidera um grupo de 77 países em desenvolvimento e subdesenvolvidos; de outra, o assim chamado “Umbrella group”, que reúne Austrália, USA, Canadá, Nova Zelândia e Noruega. No centro, parece estar somente a União Europeia, ainda muito fraca para criar um deslocamento de poderes que traga uma reviravolta às negociações.

O problema, em qualquer caso, não é tanto a distância entre pontos de vista, mas sim a inflexibilidade por meio da qual os diversos blocos defendem suas posições. Os tons usados nas discussões têm sido muito duros. Hoje, a Austrália chegou a dizer que não financiará de forma alguma o desenvolvimento sustentável dos países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, porque considera esta ação “socialismo internacional mascarado de causa ambiental”. Seja em situações oficiais ou não, com delegados, jornalistas ou ONGs, a impressão é a mesma: chegar a um acordo vinculante que evite o aumento da temperatura terrestre em 1,5 ou 2 graus centígrados torna-se cada vez mais utópico.

Outras notícias de corredor, por enquanto não confirmadas, vêm da delegação japonesa. O novo governo, de viés conservador, impôs um novo curso à política ambiental do país. Até esse momento, o Japão tinha uma meta de redução das emissões de 20% em relação às de 1990. Com mudança de diretriz do país, o objetivo foi reduzido a 3%.

As expectativas não são boas, mas, como se sabe, a esperança é a última que morre.


*A Delegacão Jovem do Brasil na COP19 é composta pelas organizações: Viração Educomunicação, Engajamundo, Aliança Mundial das ACMs e Federação Luterana Mundial

Um mapa dos grandes danos ambientais

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Estudo alemão identifica países mais afetados por eventos climáticos extremos ligados ao aquecimento global. Estados-ilhas são os mais prejudicados

Por Juliana Winkel, da Agência Jovem de Notícias*

A COP19 — reunião global de países que se declaram interessados em enfrentar o aquecimento da atmosfera — sediou nesta terça-feira (12/11) a discussão a respeito do Índice Global do Risco Climático, um vasto relatório apresentado pela organização não-governamental Germanwatch. Um de seus produtos é o mapa que analisa onde e como têm ocorrido os principais danos ambientais dos últimos anos, em especial ligados a fenômenos bruscos e de consequências violentas (inundações, tufões, ondas de calor e outros). Foram divulgados os dados mais recentes apurados pela organização, abrangendo o período entre 1993 e 2012.

Em primeiro lugar na categoria de risco estão os países insulares ou mais próximos à costa: Honduras, Mianmar e Haiti. No último ano, os mais afetados foram as Filipinas, Paquistão e novamente o Haiti. Outros países com índices altos de incidência ou risco de catástrofes, na América Latina, são Nicarágua, República Dominicana e Guatemala – dividindo a classificação com Bangladesh, Vietnã, Mongólia e Tailândia.

O Brasil está em zona de risco moderado – entre 51 e 100, em uma escala que vai de zero (o  índice de maior ameça) a 100, embora também apresente potencial de risco, especialmente em suas áreas litorâneas.


*A Delegacão Jovem do Brasil na COP19 é composta por
Aliança Mundial das ACMs, Engajamundo, Federação Luterana Mundial e Viração Educomunicação.

A devastadora “modernidade” do novo Iphone5

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Suspeita de comprar estanho que é extraído por crianças e arrasa um paraíso ambiental, Apple reage tratando usuários como otários

Por Vinicius Gomes

Toda vez que um novo iPhone está para ser lançado, produz-se um frisson mundial. No caso do novo Iphone 5S, não foi diferente. Pessoas acamparam por semanas em frente à loja da Apple em Nova York, esperando que suas portas se abrissem. Quando isso finalmente ocorreu, foram saudadas pelos funcionários como se tivessem acabado de conquistar uma medalha de ouro nas Olimpíadas. Mas por trás de toda a fanfarra de marketing, existe uma realidade que quase nunca é acompanhada pela mídia com tanta empolgação como as filas em frente das lojas.

O jornalista britânico George Monbiot começou a revelá-la esta semana, em seu blog. A Apple, demonstrou ele, participa de um dos crimes ambientais que melhor expõem a desigualdade das relações Norte-Sul e a irracionalidade contemporânea. Ela provavelmente compra estanho produzido, na Indonésia, em relações sociais e de desprezo pela natureza que lembram as do século 19. Pior: convidada por ativistas a corrigir esta prática, a empresa esquiva-se – destoando inclusive de suas concorrentes. E, ao fazê-lo, usa argumentos que sugerem: trata o público e seus consumidores como se fossem incapazes de outra atitude mental além do ímpeto de consumo.

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Energia: chave para a geopolítica global

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Igor Fuser lança hoje, em São Paulo, livro fundamental para compreender relação entre fontes energéticas, desenvolvimento e sustentabilidade

No contexto em que o Brasil emerge como potência no cenário mundial da energia e discute como aproveitar a riqueza petrolífera do pré-sal para alavancar o seu desenvolvimento, mostra-se extremamente oportuno o livro Energia e Relações Internacionais, de Igor Fuser. Para o lançamento da obra, está marcado um debate com o autor na quinta-feira, dia 26 de setembro, às 18h, no curso de Relações Internacionais da PUC de São Paulo, Sala 117-A Prédio Novo (Rua Ministro Godói, 969 – Perdizes – veja mapa).

Fuser, professor na Universidade Federal do ABC (UFABC), apresenta nesse livro os principais temas da geopolítica global da energia, em uma linguagem clara, acessível a um amplo universo de leitores, sem perder o rigor indispensável a uma obra acadêmica. A obra explica questões fundamentais para o entendimento da política internacional, como o papel do petróleo nos conflitos do Oriente Médio, a disputa entre as grandes potências pelo controle das reservas globais de energia e o ressurgimento do nacionalismo petroleiro no pós-Guerra Fria. Continuar lendo