Sobre gatos, lebres e outros bichos mais ou menos pardos

Contradição à vista, no bloco no poder. E se Bolsonaro, a exemplo de seus congêneres europeus, for menos privatista do que sugere Paulo Guedes?

Por Artur Araújo

SOBRE GATOS, LEBRES E OUTROS BICHOS MAIS OU MENOS PARDOS
Artur Araújo

Homer Cado investe pesado no jogo-do-bicho bolsonarista, convicto da aquisição de gorda lebre ultraliberal, na pele de Paulo Ipiranga&Co. Leva de troco até um chanceler camaleônico e viperino, que planeja declarar jihad mercadista contra a China, com o alentado suporte da Itália e dos “países de Visegrado”.

Se passar os olhos por reportagem da Dow Jones, reproduzida no Valor de ontem (17), Mr Cado terá as narinas atingidas por um certo odor felino. Em um governo ornitorrinco como o de J. Messias, nada pode ser dado como impossível a priori e Homer ainda poderá ter que “precificar” os riscos de suas compras no zoológico.

“Partidos ‘antiestablishment’ ganharam apoio em toda a Europa nos últimos anos atacando as regras de imigração e fiscal da União Europeia (UE). Já um aspecto que chamou menos atenção foi a crescente oposição desses partidos à ortodoxia econômica da UE, que apoia o livre mercado e a concorrência em detrimento da intervenção estatal.

Na Itália, o novo governo antiestablishment articulou a oferta, apresentada pela companhia ferroviária estatal, de compra de participação controladora na companhia aérea Alitalia, permanentemente às voltas com problemas. A Ferrovie dello Stato fez sua oferta, cujas cláusulas não vieram a público, sob a condição de encontrar uma companhia aérea como coinvestidora. Se um acordo for firmado, o governo italiano provavelmente acabará detendo uma participação direta de cerca de 15% na Alitalia e controlará a empresa por meio dessa participação, juntamente com a cota da Ferrovie.
(…)
Surgiram ambições semelhantes, refratárias ao mercado, em outros países europeus. Apelos por estatizações vieram da esquerda populista na Espanha e da direita nacionalista na Hungria e na França. O alvo comum desses grupos é o consenso tecnocrático dos partidos tradicionais europeus, de modo geral de centro, de que o continente precisa privatizar, desregulamentar, limitar as proteções sociais, impulsionar a concorrência e permitir o ingresso de capital estrangeiro a fim de crescer.
(…)
O controle público de setores essenciais é uma antiga bandeira da esquerda europeia. O partido espanhol Podemos, que teve mais de 20% dos votos na últimas eleições gerais, propõe estatizar setores como energia e telecomunicações.

Mas a renovada investida pela intervenção estatal também abarca a direita nacionalista europeia, que tem longa tradição de desconfiança do livre mercado, da economia de ‘laissez-faire’ e, principalmente, do capital estrangeiro. Para essa direita nacionalista, um forte papel do Estado na economia visa defender a soberania nacional.

A Hungria, governada por Viktor Orban, crítico contundente da UE, voltou-se para as estatizações como parte de sua meta declarada de promover a solidez nacional. Os críticos dizem que esse discurso visa, em parte, acobertar a crescente corrupção de uma nova elite econômica próxima ao premiê. O governo nacionalista da Polônia tem defendido a ‘repolonização’ de bancos por meio da compra, pelo Tesouro, de ações pertencentes a controladores estrangeiros.

Na França, a líder da extrema direita, Marine Le Pen, também quer a estatização de bancos e a imposição de barreiras comerciais.

A estratégia pró-mercado do presidente do país, o centrista Emmanuel Macron, foi posta em xeque, nos últimos 30 dias pelas violentas manifestações de rua que tomaram conta do país.

‘Esses apelos por estatizações, uma política que andou fora de moda na Europa devido aos resultados ruins do controle público, são uma maneira de atacar o establishment’, disse Michael Plummer, professor de economia e diretor da Faculdade de Estudos Internacionais Avançados da unidade da Universidade Johns Hopkins em Bolonha, na Itália.”


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