Sobre a velocidade dos automóveis e a potência da bicicleta

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Andar sobre pedais permite outra forma de se relacionar e integrar com o mundo — oposta à do motorista que, escondido atrás do parabrisa, aliena-se da realidade.

Por Maurício Ayer

Neste texto, da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), há uma explicação inteligente e informada do porque de se baixar as velocidades máximas das Marginais. Não vou falar do conjunto da ideia aqui, mas comentar um aspecto que me interessa em particular.

Vi hoje dois vídeos (1 e 2) mostrando ciclistas andando a 50km/h na Marginal, e os motoristas, que filmavam com seus celulares, sendo um deles em uma moto, apontavam este absurdo em plena revolta.

Nem vou comentar o fato de um cidadão dirigir uma moto ou um carro na Marginal filmando com o celular. Ainda mais que o faz no exato instante em que acusa um outro de descumprir alguma regra, quando não é o caso. A bicicleta é um meio de transporte reconhecido como tal e pode usar todas as vias da cidade.

O que isso revela, pra mim, é que as políticas de mobilidade fundadas em critérios racionais – mais eficiência de transporte, mais eficiência ambiental, mais inclusão, maior e melhor interação com outras dimensões da vida, uso racional e mais democrático do espaço público – batem de frente com a cultura individualista e doentia, cujo símbolo mais evidente é o carro. O cara que vê a bicicleta andando mais rápido que ele, em vez de ficar feliz e pensar “caramba, talvez a bicicleta seja mesmo uma alternativa muito eficiente de transporte individual na cidade”, se sente diminuído em sua potência. É coisa de menino que faz do carro ou da moto o símbolo de sua virilidade, um substituto do pinto, e se vê castrado, com a macheza do motor jogada na lona por uma magrela movida a músculos.

Rompe-se a lógica de poder/potência via máquina. Este poder/potência é comprável com dinheiro, ele cresce (e muito) com o poder aquisitivo. A outra lógica faz o contrário, ela retorna ao humano, aos direitos, à integração homem-natureza, à ocupação democrática do espaço.

Numa conversa que tive com o Guilherme Cavallari, da Kalapalo Editora, para um texto que estou preparando sobre mountain bike, ele já me alertava sobre isso, com uma visão muito aguda: a bicicleta vai muito além dos benefícios à saúde, meio ambiente e eficiência de transporte, ela canaliza um desejo de transformação sistêmica do mundo, a partir de uma transformação pessoal, uma outra relação com o próprio corpo, com o meio, com o dinheiro, e com os símbolos de tudo isso. Uma mudança em que o homem e a mulher se descobrem parte de um meio, natural ou social, e em continuidade com ele.

Nada da cisão que o parabrisa proporciona e que faz levar o mundo privado pra passear. Ter um limite de velocidade para as máquinas de transportar é assumir que elas são exatamente isso, máquinas de transportar, a serem usadas da maneira mais inteligente e eficiente possível. Se elas forem servir como muleta de virilidade para alguém, isso não pode se tornar a regra do convívio em sociedade.

Quem sabe com isso não redescobrimos nossas potências e falibilidades reais, recolocadas num contexto em que a potência do indivíduo serve ao coletivo, e não o contrário?

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