Síria: a beira de transformações

Pressionado Assad anunciou reformas no país, oposição as rejeita e volta às ruas.Aumento de tensão no país.

Nada como o isolamento e a ameaça de perder o poder para que os ditadores se tornem altruístas. Após mais condenações a violências contra civis nos protestos de 19/8 e declarações na semana passada vindas dos EUA, Alemanha e Inglaterra para que deixasse o poder, o ditador sírio Bashar Al-Assad prometeu no dia 21/8 reformas políticas em entrevista realizada a televisão estatal. Anunciou que mudanças constitucionais estão previstas e que haverá a criação de um comitê que as organize. No dia seguinte por decreto ficou estabelecido qual será a composição dessa comissão: a presidência será do primeiro-ministro, o magistrado e dois advogados irão tratar da legalização dos partidos políticos.

Assad indicou que nos próximos seis meses ocorrerá o esboço da nova constituição. De acordo com seu calendário em fevereiro está prevista eleição parlamentar. Ainda no campo de suas promessas afirmou que os curdos (grupo étnico historicamente marginalizado no Oriente Médio) obterão direitos específicos. Vale lembrar que essa medida dos curdos tem outro significado político, visto que pela própria Turquia ter declarado que a situação síria é insustentável, uma mudança na situação curda poderia causar problemas internos com os curdos existentes na Turquia. Assad também declarou que a questão da segurança não o preocupa. Para ele os próprios sírios têm que determinar o futuro do país. Declarou que qualquer ataque feito ao país será respondido a quem o fizer.

Jean Ziegler, membro do Conselho de Direitos Humanos da ONU (o conselho é formado por 47 países), antecipou que na seção especial do dia 22/8 as nações árabes irão pedir a Síria para que ocorram investigações no país sobre violações aos direitos humanos. O Kwuait fez a reivindicação em nome dos países do Golfo Pérsico. A Arábia Saudita (mais um aliado americano) fez couro a proposta. O embaixador da Síria em Genebra Faisal al Hamwi disse que o relatório do Escritório os Direitos Humanos é uma série de mentiras.

O que fica claro diante de todas essas medidas é mais um aumento de tensão no país. Faz 40 anos que a família de Assad o governa. Os protestos iniciados em meados de março até agora segundo organizações dos direitos humanos mataram mais de 2.200 pessoas. No mesmo dia 21/8, no distrito de Khaldieh em Homs e em distritos do norte da província de Idlib, forças de seguranças fizeram operações de segurança e prisões aleatórias.

Essas promessas de Assad poderiam causar a expectativa da conciliação entre governo e oposição. Nada disso ocorreu. A oposição diz não confiar no ditador enquanto atira em protestos pacíficos. Para Suheir Atassi, ativista pró-democracia a entrevista foi uma aparição vazia na mídia. Os protestos seguem no país. No dia 22/8, em Homs os manifestantes se concentraram na Praça do Relógio, sabiam que ocorreria a visita de uma equipe humanitária das Nações Unidas, mesmo assim o governo continuou os disparos. Morreram três pessoas, dentre elas um bebê. No vilarejo de Hirak (no sul), 4 pessoas foram feridas pelas forças de segurança. Em Hama, forças pró-Assad assassinaram mais duas pessoas durante a noite de domingo.

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