Quer dizer, Ortellado, que somos terraplanistas?

O articulista da “Folha” não percebe, mas ao tentar desqualificar as críticas à ditadura financeira, reafirma o neoliberalismo como horizonte de pensamento e sistema de poder

Por João Telésforo

Em artigo publicado na Folha, Pablo Ortellado chama a esquerda de “terraplanista contábil”, e joga nessa vala a tese de que os juros no Brasil são historicamente altos de modo artificial, devido ao controle político exercido pelos rentistas. O curioso é que essa “controversa tese”, como ele a chama, vai muito além da esquerda, e é compartilhada também por economistas como Bresser-Pereira ou mesmo André Lara Resende.

Ao falar de “controversa tese”, no contexto do artigo, Pablo está sugerindo que se trata de uma extravagância, esquerdismo infantil ou teoria da conspiração (tema sobre o qual tem escrito bastante)…

É um lugar-comum do neoliberalismo, apresentar seu pacote de medidas como única política econômica “racional”, chamando de “terraplanista” ou “irracional” qualquer alternativa. Isso já aparecia no discurso de John Williamson, que cunhou o “Consenso de Washington” faz 30 anos. Dizia ele, sobre as políticas que o centro do poder financeiro e geopolítico impunha para a América Latina:

“O rendimento econômico superior dos países que estabelecem e mantêm economias de mercado, orientadas para a exportação e sujeitas à disciplina macroeconômica, é essencialmente um assunto positivo. As provas poderão não ser tão conclusivas como a de que a superfície terrestre não é plana, mas estão suficientemente estabelecidas para que as pessoas sensatas possam utilizar seu tempo de melhor maneira que desafiando sua veracidade”.

Williamson chama as medidas impostas por Washington de política econômica “racional”, que não deveriam ser um “assunto político”. Trata-se da antiga e conhecida estratégia discursiva de retirar certas opções políticas do terreno da disputa de interesses e valores, e apresentá-las como puramente técnicas ou científicas.

Usando categorias de Foucault, observamos aí o funcionamento de procedimentos de exclusão de uma ordem de saber-poder, estruturada com e pelo discurso econômico neoliberal (que se estabelece como discurso disciplinar da Economia). Assim, institui-se o mito de que “there is no alternative”: quando se descartam outras formas de conhecimento, joga-se fora, junto, outra forma de conceber e estruturar as relações de poder que envolvem a política econômica.

O artigo de Pablo, queira ele ou não, está a serviço disso. Ao acusar a esquerda de “terraplanista”, não se trata de criticar seus argumentos e teses, mas de construir um discurso que a exclui do debate “racional”.

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