Parque do Bixiga, uma ideia a caminho

Em SP, Teatro Oficina obtém vitória: liminar suspende construção de torres do Grupo Silvio Santos. Simultaneamente, projeto de sonhada área verde avança na Câmara. Movimentos urbanos mostram: é possível enfrentar capital imobiliário

Um dos projetos apresentados pelo Teatro Oficina Uzyna Uzona, para o Parque do Bixiga

agora, a qualidade dessa luta ganha novo fôlego com o rio do Bixiga, que corre subterrâneo, atravessando o terreno, como artéria e seiva do vale que se forma entre as ruas abolição, santo amaro, jaceguai, e japurá

(coro de arquitetos, atuadores e ativistas do movimento pelo Parque do Bixiga)


No último pedaço de chão livre, sem concreto, do centro de São Paulo, o Teatro Oficina sonha em fazer o Parque do Rio do Bixiga, um projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi (junto com Edson Elito), que também projetou outras obras emblemáticas como o MASP, o SESC Pompeia e a Casa de Vidro.

Há anos entre processos judiciais, se arrasta uma briga eterna entre o Grupo SS, de Sílvio Santos, e o Oficina. O Grupo SS o ataca constantemente, ameaçando construir duas torres de 100 metros de altura no terreno anexo ao teatro, que resiste contra o processo de gentrificação do bairro e defende a preservação desse pedaço de terra livre.

As torres afetariam irreversivelmente o prédio de Lina Bo Bardi, cujo janelão, de onde nasce uma árvore que atravessa o teatro para a rua, é fundamental para a entrada de luz solar, para dialogar com a cidade e para os processos criativos da companhia. Com as torres, o teatro, que é um patrimônio tombado, ficaria condenado à escuridão e cercado por muros, ocultando toda sua arquitetura e razão de ser.

Mas, na última quarta-feira, 12 de junho, o Oficina conquistou uma importante vitória. Logo de manhã, apitou no grupo de WhatsApp do Oficina uma mensagem da arquiteta da companhia, Marília Gallmeister, ativista do Parque do Bixiga — que, junto com a também arquiteta Carila Matzenbacher, projetou os novos planos para o desejado parque: “Foi concedida liminar para suspender a tramitação do processo das Torres do Grupo SS pela Juíza Paula Micheletto Cometti, via processo do MP Estadual. Isso significa que para tudo, até que sejam feitos estudos rigorosos sobre o assunto”.

A agitada vida cultural de um bairro

Bixiga, bairro que abarca parte da Bela Vista e do centro de São Paulo. Bairro antigo, com muitas casinhas de vila, muitos cortiços, muitos imigrantes. Foi berço do samba paulistano e, inclusive, tem até uma rua que homenageia Adoniran Barbosa. Hoje, abriga nordestinos, refugiados palestinos e também jovens paulistanos que não resistiram ao charme do bairro e montaram livrarias, barzinhos despretensiosos e que frequentam as casas de samba e capoeira, lutando pela preservação do bairro e contra os projetos imobiliários megalomaníacos que querem minar a região.

É um bairro que abriga vários pontos históricos e de resistência artística, entre eles, a Vila Itororó Canteiro Aberto e o emblemático Teatro Oficina, o teatro mais bonito e intenso do mundo, segundo o jornal inglês The Guardian.

Também conta, entre seus pontos importantes, com o antigo apartamento de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, na rua Ricardo Batista, na esquina da rua Major Diogo; a Casa de Dona Yayá; a Casa do Mestre Ananias; o Teatro Sérgio Cardoso; a Rua Treze de Maio, com sua escadaria, praça, cantinas italianas e restaurantes nordestinos; a tradicional Escola de Samba Vai-Vai e a Casa 1, de acolhimento à população LGBT em situação de vulnerabilidade.

No Bixiga, as crianças brincam na rua. Tem feira, sapateiros, brechós, vendinhas, costureiras, marceneiros. É um bairro como antigamente. Mas, apesar de ser repleto de rios enterrados que correm por debaixo de suas ruas e prédios, não tem áreas verdes, nem espaços protegidos dos carros para as crianças. O Parque, portanto, representaria uma importante conquista para os moradores do bairro e toda a cidade.

“Danos irreversíveis”

Na liminar do Tribunal de Justiça de São Paulo consta que “na decisão, a juíza Paula Micheletto Cometti enfatizou que a construção de um empreendimento desse porte pode gerar danos irreversíveis. ‘Se levarmos em consideração que o bairro da Bela Vista é um dos poucos bairros paulistanos que ainda guarda de forma quase que intacta as suas características originais, o seu traçado urbano bem definido, marcado pela presença de vilas de casas, de construções baixas, com forte influência italiana, teríamos que a não concessão da presente tutela, com a real possibilidade de modificação de tal cenário urbanístico, seria uma verdadeira carta branca para que a presente ação perdesse, ao final, o seu principal objetivo, que é justamente evitar os possíveis e mencionados danos’, afirmou a magistrada”.

No mesmo dia, mais uma notícia de Marília: “o Projeto de Lei do Parque do Bixiga acabou de ser aprovado na Comissão de [Justiça, Política Urbana e Meio Ambiente e] Administração Pública aqui na Câmara. Agora só falta a Comissão de Finanças!”

O janelão visto de fora, durante a peça Roda Viva, e a árvore Cesalpina, que nasce dentro do Teatro Oficina e atravessa a parede. Foto de Jennifer Glass.

As boas notícias vieram exatamente uma semana após um Grande Ato para apresentação do projeto-desenho-desejo de criação do teatro-parque do Rio do Bixiga, em sintonia com uma agenda de luta mundial pelo meio ambiente, no dia 5 de junho de 2019.

O ato foi como uma acupuntura urbana, um rito, dirigido pelo coro da companhia, com a música do bloco carnavalesco Cornucópia Desvairada, com integrantes da Casa 1, com crianças saltitantes e com a presença de personalidades como Carmen Silva (FLM), Eduardo Suplicy, Gilberto Natalini, Nabil Bonduki e Cibele Forjaz.

O evento, criado pelo movimento do Parque do Bixiga e do Teatro Oficina, explicava assim seus objetivos: “Com a restauração da geomorfologia do terreno, e com a renaturalização do nosso rio do Bixiga, o projeto do Parque cumpre uma função ambiental urgentíssima pra nossa cidade: a de confluência e o escoamento das águas pluviais, atuando também, e muito, na regulação das ilhas de calor, sendo a do Bixiga, uma das mais fortes da capital. […] É uma luta por um modo de vida, pelo direito à cidade, e sobretudo pelo direito a imaginar e criar outras cidades, livres do massacre da especulação imobiliária neoliberal que age de forma fascista contra a vida”.

Sigamos atentos e firmes na luta! E, enquanto dá tempo, assista ao espetáculo Roda Viva, de Chico Buarque e Zé Celso, em cartaz no Teatro Oficina, só até 30 de junho de 2019. Colaboradores do financiamento coletivo de Outras Palavras, Outros Quinhentos, têm desconto de 50% nos ingressos. Saiba mais, aqui.

#VetaAsTorres #FicaOficina

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