Jacques e a Revolução volta — e parece ainda mais atual

Em cena, Katia Iunes | Foto de MarQo Rocha

Tirania, manipulação, jogos de poder, sedução e sexo recheiam os diálogos de Jacques, um empregado de segundo escalão, e  o Empresário. Uma história que poderia acontecer em Brasília, ou no agronegócio brasileiro

__

Jacques e a Revolução ou Como o criado aprendeu as lições de Diderot
Direção de Theotonio de Paiva
Montagem da Todo o Mundo Cia de Teatro
Teatro Municipal Café Pequeno – Av. Ataulfo de Paiva, 269 – Metrô Jardim de Alah — Rio de Janeiro
Tel. (21) 2294.4480.
De 8 a 30 de maio – às terças e quartas
Horários: 20h | Faixa etária: 14 anos | Duração: 80 min
__

A cada nova temporada a comédia dramática Jacques e a Revolução ou Como o criado
aprendeu as lições de Diderot, de Ronaldo Lima Lins, montagem inaugural da Todo o
Mundo Cia de Teatro, dirigida por Theotonio de Paiva, torna-se mais atual, como o público poderá conferir a partir de 8 de maio, às 20h, no Teatro Municipal Café Pequeno.

Acalentada por cinco anos, a montagem já realizou três temporadas: Parque das Ruínas
(2016), Teatro Ziembinski (2017) e Serrador (2018). Artistas de várias gerações compõem a Todo o Mundo Cia de Teatro: os atores Abílio Ramos, Katia Iunes, Marco Aurélio Hamellin e Sol Menezzes, que atuam sob a iluminação de Renato Machado, com a trilha sonora original de Caio Cezar e Christiano Sauer e direção de arte de Marianna Ladeira e Thaís Simões, além da direção de movimento da coreógrafa Carmen Luz.

Jacques e a Revolução é uma inspiradíssima comédia dramática, com tintas fortes e belos diálogos que flertam com a condição humana contemporânea, num mundo atravessado por subornos, apropriação indébita de capital público, zero apreço pelo cidadão, luta das mulheres e intolerância cultural. Tudo isso está lá, na engenhosa dramaturgia de Ronaldo Lima Lins, peça vencedora do Prêmio Maurício Távora – 1989 / Secretaria de Cultura do Estado do Paraná. Continuar lendo

TEXTO-FIM

O corpo como instrumento de combate


Estreia em São Paulo peça construída coletivamente por estudantes e artistas, sobre as ocupações secundaristas. Dança e canto dão corpo às experiências registradas em atas, diários, fotos e vídeos

Por Jean Tible

__
Quando Quebra Queima
4, 5, 6 de Maio (sexta a domingo), 19h
13 de Maio (domingo), 19h
Casa do Povo: Rua Três Rios, 252 – Bom Retiro
Metrô Tiradentes/ Metrô Luz
20 reais/10 estudante e morador do Bom Retiro
Secundarista de Escola Pública não paga
Bilheteria aberta 1h antes do espetáculo
__

Quando Quebra Queima é uma peça construída por estudantes que viveram o processo de ocupações e manifestações do movimento secundarista em 2015 e 2016. Frutos da primavera secundarista, 14 corpos insurgentes deslocam para a cena a experiência dentro das escolas ocupadas, criando uma narrativa coletiva e comum a partir da perspectiva de quem viveu intensamente o cotidiano dentro do movimento.

Ocupando o tempo presente, a ColetivA provoca de maneira pulsante o universo que compõe esse movimento que transformou o corpo e vida de todos que participaram.

Quando Quebra Queima é um espetáculo levante, fruto de quase dois anos de encontros e vivências da ColetivA Ocupação.

A peça descatraca a memória coletiva narrando a experiência da luta secundarista que se estende à luta cotidiana daqueles que a viveram: resgatando atas, diários, fotos e vídeos.

Durante as ocupações, o grupo experienciou o que é pensar e agir através do corpo e performance como instrumento de combate, agora nesta peça provocamos o encontro entre a dança, canto, música para dar corpo as nossas experências.

Criação

Abraão Santos / Alicia Esteves / Alvim Silva / Ariane Fachinetto / Beatriz Camelo / Gabriela Fernandes / Ícaro Pio / Leticia Karen / Lilith Cristina /Marcela Jesus / Matheus Maciel / Mel Oliveira / André Dias de Oliveira / Heitor de Andrade / Martha Kiss Perrone / Mayara Baptista

ColetivA Ocupação

A ColetivA Ocupação é um encontro entre estudantes, artistas e performers de diferentes regiões de São Paulo, que se conheceram durante as ocupações entre 2015 e 2016.A partir dessa experência, a luta secundarista seguiu por vários espaços e ganhou diferentes formas e desdobramentos – o teatro e a performance foi uma delas. Em 2016 Martha Kiss Perrone com o espetáculo Rózà fez uma circulação por Escolas Públicas e muitos secundaristas se aproximaram do teatro com esse encontro.
A ColetivA, no seu dia a dia de encontro e investigação, busca tecer outras relações, na vida interna do grupo e com o mundo.

vamos ocupar as escolas
vamos ocupar as ruas
vamos ocupar os teatros
vamos ocupar as universidades
vamos ocupar as narrativas
vamos ocupar tudo

“Ver esses cabelos, esses cabelos azuis e rosas, esses vários tons. O que vocês fizeram, têm feito e estão fazendo é muito importante, mas é mais importante para aquilo o que podemos ser, e é disso que vocês estão falando, daquilo que nós podemos ser.”

(Salloma Salomão)

[email protected]
https://www.facebook.com/events/441640636277350/

Juízes gaúchos já homenageiam ditadura

Placa que substituiu o nome “Avenida Castelo Branco”, em 2014, após recomendação da Comissão Nacinal da Verdade

Tribunal de Justiça do mesmo Estado onde Lula foi condenado em segunda instância decide dar nome do ditador Castelo Branco a avenida da Legalidade e da Democracia

Por Jurema Josefa 

“A decisão do Tribunal de Justiça/RS, que faz voltar a homenagem a um ditador esta semana, só pode ser vista como um grande retrocesso”, afirmou o deputado Pedro Ruas, assim que soube da decisão 3ª Câmara Civil do Tribunal de Justiça, que, por quatro votos a um decidiu que a avenida da Legalidade e da Democracia voltará a ser denominada Castelo Branco. Na avaliação do parlamentar, autor da lei que deu o nome à avenida, a decisão pode não ser definitiva, mas “é assustadora”.

Ruas destacou que o Brasil passou por um importante marco em 2014, quando, no cinquentenário do golpe de 64, iniciou-se o movimento de desmonumentalização e modificação da denominação de logradouros, praças e avenidas que homenageavam um triste período da história do Brasil. Conforme ele, diante desse movimento, junto com a vereadora Fernanda Melchionna, apresentou mais um projeto que, desta vez foi aprovado. “O nome que ali figurava tinha sido feito sem projeto de lei, com apoiadores dos ditadores que mandaram por uma placa com o nome Castelo Branco. Nós fizemos um projeto de lei, tivemos a lei aprovada, promulgada pela Câmara e agora atacada por uma ação de vereadores da direita. Porém o mais surpreendente foi a decisão do Poder Judiciário”, afirmou Pedro Ruas em sua manifestação na tribuna da Assembleia Legislativa na tarde desta quinta-feira (26/04).  “Nomeamos Avenida da Legalidade e da Democracia, como um justo reconhecimento ao maior movimento cívico da história nacional, que foi a Legalidade, comandada pelo governador Leonel Brizola. Vitória da democracia”, enfatizou.

Continuar lendo

Leitura: mulheres e tecnologia

Grace Hopper, considerada a mãe da programação de computadores

 

Num livro revelador, algo hoje oculto: o papel feminino no desenvolvimento dos computadores e da internet.

Por Antonio Martins

Se o mundo das Tecnologias de Informação parece muito masculino, ele nem sempre foi assim. Vale ler, a respeito Broad Band: the untold story of Women who Made the Internet. Escrita pela norte-americana Claire Evans e disponível online (U$ 16,74), a obra conta a histórias de mulheres que desempenharam papeis essenciais no desenvolvimento dos computadores e, em especial, da internet. Duas observações da autora destacam-se. Primeiro, o ocultamento atual do papel decisivo que as mulheres (em especial, as muito jovens) tiveram no início da programação. Em certo período, conta Evans, a potência das máquinas não era definida usando como base os mega-hertz – mas os kilogirls, uma unidade equivalente a mil horas de trabalho feminino usadas em seu desenvolvimento. Outro foco do livro: a ação crucial das mulheres na construção das primeiras comunidades de desenvolvimento – um tipo de estrutura colaborativa de trabalho que marca o mundo da Tecnologia de Informação ainda hoje.

Egito: a ditadura não tolera denúncias

General Abdel-Fattah al-Sisi, presidente do Egito

Há um mês, eleição fajuta. Agora, perseguição aos jornalistas que a relataram. Pobre Primavera Árabe

Por Antonio Martins

Reeleito por mais de 90% há cerca de um mês, num pleito sem oposição real e sem liberdade, o presidente do Egito, Abdel-Fattah al-Sisi, decidiu manter a perseguição à imprensa. Ontem, começou o julgamento sumário de nove jornalistas acusados de fazer relatos “tendenciosos” sobre as eleições. Eles escreveram, por exemplo, que os partidários de Sisi e empresários que o apoiam subornaram abertamente os eleitores em muitas seções eleitorais, oferecendo prêmios em dinheiro para o alto comparecimento às urnas, ou para percentuais de voto especialmente favoráveis ao governante.

General durante a ditadura do ex-presidente Hosni Mubarack, Sisi chegou ao poder em 2014, quando o exército depôs seu antecessor, Mohamed Morsi, eleito diretamente. A ditadura egípcia é resultado direto da derrota da Primavera Árabe.

Mudança climática devasta os bancos de coral

Eles são o grande criadouro da vida marinha — mais ameaçada que nunca

Por Antonio Martins

A edição da revista Nature que passou a circular nesta quarta-feira (18/4) aponta uma consequência pontual, até então desconhecida, do aquecimento global. Em 2016, uma grande onda de calor devastou o maior banco de corais do mundo, a chamada Grande Barreira Australiana. Um novo estudo, conta Nature, apurou que 30% dos corais morreram só naquele ano, em consequências das mudanças físico-químicas provocadas pela mudança da temperatura oceânica.

A preservação dos bancos de coral é considerada indispensável para a sobrevivência da vida marinha. Estas formações ocupam menos de 0,2% da superície dos mares, mas abrigam 30% das espécies animais, servindo de nutrição básica das cadeias alimentares e de refúgio para os peixes. Sua devastação é uma das principais causas do rápido despovoamento dos oceanos e dos riscos de extinção em massa das espécies marítimas.

Ana Amélia enxerga algo nas Arábias

Senador confunde Al Jazeera com Al Qaeda, mas flerta com ditadura abarrotada de petrodólares

Por Reginaldo Nasser

A senadora Ana Amélia é tudo, menos idiota. Na mesma semana que “confundiu” Al Jazeera e Al Qaeda, ela foi relatora de proposta de criação de grupo parlamentar Brasil-Arabia Saudita — e tornou-se presidente do organismo. Pode ter sido coincidência. Como se sabe Al Jazeera é do Catar que esta se chocando permanentemente com Arábia Saudita

Conhecida pelo caráter ditatorial de seu regime e pelo desrespeito constante aos direitos humanos, a Arábia Saudita acusou o Catar, no ano passado, de apoiar terrorismo — e fez o maior estardalhaço internacional . Sei nao, acho que tem coisa ai.

Guerra comercial: a China contra-ataca Trump

Resposta cirúrgica de Pequim atinge estados agrícolas dos EUA e pode deixar presidente sem maioria parlamentar, em novembro. E há outras cartas na manga

Por Antonio Martins

Em 23 de março, com a grandiloquência usual, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou o início de uma “guerra comercial” contra a China. Acusou Pequim de discriminar produtos norte-americanos. Impôs sobretaxas e limites a importações chinesas que, segundo assegurou, causariam prejuízo de US100 bilhões a seu concorrente. Este reagiu com extrema cautela. O ministério do Comércio chinês divulgou, dias depois, uma lista inicial de apenas 128 produtos norte-americanos sobretaxados. Seus valores mal somam US$ 3 bi. Mas uma reportagem publicada hoje no New York Times revela que a ação de Pequim pode ter sido extremamente cirúrgica — além de expansível no futuro.

O NYTimes viajou aos estados do meio-oeste norte-americano. Grandes produtores de cereais (em especial soja e milho), Iowa, Kansas, Minnesota, Indiana, Missouri e Dakota do Norte são, também, bastiões eleitorais do Partido Republicano. Foram, em especial, chave para sua vitória em 2016. Pesaram muito mais, segundo o jornal, que o rust belt o cinturão industrial degradado que também apoiou o atual presidente.

A reportagem revela um meio-oeste desolado. A sobretaxa de 25% sobre os cereais, imposta pelo governo chinês, pode arruinar milhares de agricultores. Pesará, em especial, sobre as eleições para a Câmara e Senado dos EUA, marcadas para novembro. O NYTimes crê: os fazendeiros prejudicados pela “guerra” que o próprio Trump abriu podem ser decisivos para tirar-lhe maioria legislativa em alguns meses.

E Pequim nem usou suas armas mais poderosas, lembra outra análise, agora do Centro para Estudos Internacionais Estratégicos, também norte-americano. A autora, Samm Sacks, relaciona um conjunto de medidas administrativas que os chineses poderão adotar em breve para ferir o setor de Tecnologia da Informação nos EUA. Nesse caso, o prejuízo político pode não ser alto – mas o econômico é astronômico.

A atitude de Trump, por fim, perturba economistas de repercussão internacional como Nouriel Roubini – quem primeiro previu a grande crise financeira de 2008. Nesta entrevista, ele adverte que atos como o do presidente norte-americano, num cenário instável como o atual, podem desencadear uma “guerra comercial em larga escala”. Segundo Roubini, seria extremamente danosa tanto para as grandes corporações como para o “livre” comércio – uma das pedras angulares do Consenso de Washington.

Em Cuba, desafios de uma nova era

Diaz-Canel (à esquerda) com Raul Castro

Diaz-Canel, o novo presidente, enfrentará situação econômica difícil — marcada por duas moedas, desigualdade crescente e incertezas sobre setor privado

Por Antonio Martins

Foi como se esperava. Os deputados cubanos elegeram nesta quarta-feira (18/4), como novo presidente do país, Miguel Mario Díaz-Canel Bermúdez, um engenheiro eletrônico de 57 anos, que respondia pela vice-presidência e desempenha há décadas papeis de liderança no Partido Comunista. A eleição marca uma ruptura. Pela primeira vez desde 1959, o país será dirigido por alguém que não participou da luta revolucionária que derrubou Fulgencio Baptista e levou ao poder Fidel Castro (aqui, a relação dos novos dirigentes). A transição completa, porém, ainda levará alguns anos. Raúl Castro, presidente até ontem, manterá, além do mandato de deputado, o posto de dirigente máximo do PC Cubano.

Quais os desafios do período pós-”geração histórica”? Vale ler texto publicado em março nos Cadernos do Sul e reproduzido por Outras Palavras. No artigo, o analista político basco Daniel Cubilledo Gorostiaga, argumenta que o Díaz-Canel, o novo presidente, terá de se defrontar sobretudo com quatro problemas econômicos.

São eles: a) a existência de duas moedas paralelas (o peso e o CUC, atrelado ao dólar). O abismo de poder de compra entre as duas moedas cria desigualdade crescente, ao favorecer a parcela da população que tem acesso ao CUC (por receber remessas em dinheiro do exterior ou trabalhar em contato com o turimo); b) a existência de um grande número de trabalhadores “por conta própria”, ou seja, que não recebem do Estado. Ela expressa dinamismo empreendedor necessário a Cuba, mas não estão claros, legalmente, os direitos e os limites à atuação deste contingente; c) o status das empresas privadas (inclusive estrangeiras). Sua atuação é vista por alguns como germe de desigualdade, desafio ao poder Estatal e ameaça ao “poder socialista”.