O drama dos brasileiros com os bancos

Dívida não é problema: nos EUA, zona do euro e até China, famílias tomam muito mais empréstimos. Nosso horror particular é a agiotagem bancária: juros ultrapassam 200% ao ano, consomem 21% da renda e levam dezenas de milhões à inadimplência

Os brasileiros devem muito pouco, se feita a comparação entre as dívidas das famílias e o PIB dos países.

Em outubro deste ano, a carteira de crédito para indivíduos atingia 27,5% do PIB do Brasil. Na Suíça esta cifra é de 129,50%, nos EUA chega a 75%, na Zona do Euro atinge 57,6% e pode também ser comparada com Portugal (66%), China (53,6%) ou Chile (45,6%).

Crédito é, há séculos, um motor essencial da demanda agregada e, portanto, elemento decisivo para o bom funcionamento das economias e parte integrante de seu crescimento.

Por que diabos, então, o Valor repercute intensamente tremeliques dos empregados de Homer, muito agitados porque “o endividamento das pessoas físicas ficou 0,62 ponto percentual acima da tendência da série iniciada em 2002”?

Basta ler a matéria para além da manchete que a explicação surge cristalina: é a agiotagem, estúpido.

As famílias brasileiras comprometem 44,8% de sua renda anual com dívidas, número que cresce a despeito da queda da SELIC. O pagamento mensal do serviço das dívidas atinge 20,6% da renda. O porquê: a taxa de juros média para pessoa física no crédito com recursos livres é de apocalípticos 49,7% a.a., atingindo delírios pornográficos de mais de 11% AO MÊS (como informa o extrato de meu cartão de crédito).

Em suma: Homer Cado quer inibir o crédito, travando ainda mais a economia nacional, porque teme inadimplência, pois as dívidas são caríssimas e não há a menor disposição de cobrar juros menores do que se pratica e que nem um sindicato do crime ousaria praticar no resto do mundo.

Para a entrevistada-âncora, Zeina Latif, economista-chefe da XP e distinta membra da Escola Pessôa-Bracher de Desemprego dos Outros, “as empresas demitiram aquém do que poderiam na crise, pelos custos de desligamento, o que significa que pode não haver um boom de contratações durante a recuperação.”

“Pouco desemprego” como barreira para aumento do emprego é tese que supera o cinismo dos mais cínicos.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também: