México: guerra também na internet

Além do Movimento pela Paz, passa a sofrer ataques coletivo de cineastas que registra as histórias de violência e injustiça praticadas contra a população mexicana

O homem que aparece no vídeo acima está morto. Seu nome era Nepomuceno Moreno Núñez, tinha 56 anos e foi executado no centro da cidade de Hermosillo, no Estado de Sonora, norte do México, em plena luz do dia. Um automóvel não identificado emparelhou com sua velha caminhonete e, dos vidros abertos, homens encapuzados dispararam uma rajada de metralhadora.

Caía, assim, mais um membro do Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade (MPJD), que há dez meses pede o fim da guerra ao narcotráfico que já deixou mais de 50 mil mortos no país. Don Nepo, como era conhecido, exigia que o governo desvendasse o paradeiro de seu filho, Mario, desaparecido desde julho de 2010. Seria o segundo integrante do MPJD a sofrer do mesmo mal que lhe impulsionara ao protesto: a violência generalizada.

O depoimento de Nepomuceno está imortalizado graças ao trabalho do coletivo de cineastas Emergencia MX. O grupo vem acompanhando as ações do MPJD desde sua fundação, em abril de 2011, registrando marchas, protestos, caravanas e, principalmente,depoimentos de homens e mulheres que perderam seus familiares devido aos enfrentamentos entre forças armadas, polícia e narcotraficantes — cujos papéis na guerra muitas vezes se confundem devido à infiltração dos cartéis nas mais altas rodas de poder político e militar.

Assim como os mortos reclamados pelo MPJD, a grande maioria das vítimas não possui qualquer envolvimento com o crime organizado ou com as forças de segurança. São cidadãos comuns e correntes, na maioria pobres, na maioria jovens. Mas as estatísticas contabilizam também gente de classe média e alta — e pessoas de mais idade, como Don Nepo.

Nesta segunda-feira (12), o coletivo Emergencia MX denunciou um ataque cibernético à sua página na internet, plataforma de onde divulgam seu trabalho para todo o país e o mundo. O depoimento de Nepomuceno (acima) está hospedado ali. E, junto com outros materiais que registraram episódios de sua luta por justiça, foi utilizado por grandes cadeias televisivas, como CNN e Fox News, para noticiar mais esse atentado contra o Movimento pela Paz — que, diga-se de passagem, não foi o último.

“A compilação de testemunhos em vídeo e áudio das vítimas e familiares não é apenas importante, mas fundamental para produzir o único Wikileaks mexicano possível nesta guerra”, expressa o grupo. “São os familiares diretos das vítimas os únicos que realmenteinvestigamos casos comprofundidade e que, com seu dinheiro, pagam resgates inúteis e contratam investigadores e informantes.”

O coletivo Emergencia MX afirma que o ataque virtual se soma aos inúmeros e constantes golpes que sofrem os meios independentes — sobretudo seus jornalistas, que também estão morrendo na guerra — e familiares das vítimas, tanto na internet como na vida real. “Já podemos considerar que existe uma cadeia de ataques, assassinatos e sequestros em série contra membros do Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade em todo território nacional.”

Segundo a nota, além das mortes, uma mulher é violada a cada 18 segundos no México, e estima-se que mais de 1 milhão de pessoas tenham fugido de suas casas e cidades de origem exclusivamente por causa dos enfrentamentos, extorsões, raptos e execuções. O caso de Ciudad Juárez, já noticiado por Outras Palavras, é o mais grave.

O município, que não por acaso está localizado na fronteira comos Estados Unidos, transformou-se no lugar mais violento do mundo após o governo, em 2006, ter declarado tolerância zero aos cartéis — sem antes cortar as extensões do narcotráfico incrustadas na polícia, na administração pública e nas forças armadas. “Tal é a magnitudeda guerra sofrida pelo México atualmente.” —@tadeubreda

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