Líbia: Contagem Regressiva

No dia 21/8 os rebeldes deram o passo mais importante nos seis meses (início das mobilizações em 22/2) de guerra civil na Líbia. Entraram pela primeira vez em Trípoli (capital). Vindos da cidade de Zawiya (parte oeste do país) ocuparam o subúrbio de Ghot Shaal. Essa entrada foi facilitada devido à parte da guarda do ditador Muammar Gadaffi ter se rendido. Contudo, nem tudo foi pacífico. Segundo o porta-voz do governo, Moussa Ibrahim, nas últimas 11 horas ocorreram 1.300 pessoas mortas na cidade de 2 milhões de pessoas.

Os rebeldes dizem estar tomando conta da maioria da cidade. Somente de 10 a 15% da capital permanece nas mãos das forças de Gadaffi. Incluindo o complexo Bab al-Aziziyah (última fortaleza de Gadaffi) que já sofreu ataques. A Otan o bombardeou, assim como fez com o aeroporto Maitika onde foi preso o coronel Al Jituni e oito de seus colaboradores. A Praça Verde, lugar simbólico onde se reuniam as forças pró-Gadaffi, foi ocupada por residentes e rebeldes. Num ambiente de euforia se confraternizaram entusiasmados residentes e rebeldes. Os residentes agora a chamam de Praça dos Mártires. Também aconteceu a libertação de 300 presos (parte deles foi preso por participar dos protestos).

Gadaffi que governa a 42 anos o país enviou uma mensagem de áudio pedindo para que houvesse resistência. Há quem diga que a entrada em Trípoli foi facilitada pela estratégia do governo para conseguir depois contra atacar de modo ardiloso. Ninguém sabe ao certo seu paradeiro. Há relatos de que se encontra numa unidade especializada em tratamento cardíaco a 14 km a leste da capital.

Seu filho Seif al-Islam foi capturado pelos rebeldes. O promotor da Corte Internacional Criminal (ICC) Luís Moreno-Ocampo em Haia na Holanda disse que conversará com os rebeldes para transferi-lo a outro país para ocorrer o julgamento por crimes contra a humanidade. Assinalou que tem que ser feito justiça e não vingança. Al-Islam é acusado de ter autorizado o ataque contra manifestantes durante as mobilizações em Benghazi, Misrata e outras cidades. Em 27/6 recebeu o mandado de juízes da ICC junto com seu pai e o chefe de inteligência Abdullah Sanussi. Mais dois filhos de Gadaffi também foram presos: Saadi e o mais velho Mohammed al-Gadaffi.

Grã-Bretanha e EUA pediram sua saída do poder para que não houvesse mais derramamento de sangue. O ministro do exterior egípcio Mohammed Kamel Amr já reconhece o Conselho Nacional de Transição da Líbia como governo no país. Até mesmo a China que se absteve a resolução da interferência na Líbia disse que respeita a decisão do povo líbio.

A queda iminente de Gadaffi está suscitando o debate sobre qual será o próximo período líbio. Existem fortes contradições na oposição que irão se desenvolver mais adiante. Não se pode esquecer-se da falsidade do argumento dado pela ONU na resolução 1973 para a interferência no país. A justificativa de proteção de civis contra os bombardeios se transformou em luta explícita contra Gadaffi. Nesse sentido, poderemos esperar qualquer contrapartida da parte dos rebeldes para os países ocidentais. Incluindo acordos econômicos que os favoreçam. Fato que questionaria até que ponto há uma emancipação ou mera substituição de opressores.

Outro dado a ser destacado é que o principal líder do Conselho de Transição Nacional (CNT), Mustapha Abdelkhalil, foi ex ministro da justiça de Gadaffi até 02/2011. Quando se juntou aos rebeldes. Ou seja, o movimento não é composto apenas daqueles que sempre foram contrários ao governo. Por ser divida em diversas linhas tribais, teme-se que a Líbia corra o risco de passar por um aumento da tensão. Podendo ser gerados confrontos e instabilidade entre elas. Independente desses questionamentos futuros é importante ressaltar a proximidade do fim do atual momento histórico da Líbia.

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