Futebol, espaço do feminismo?

Argentinas que lutam pelo direito ao aborto, e tiveram entrada barrada em estádios, recebem solidariedade de torcidas antifascistas. Também no Brasil, elas resistem à mercantilização e machismo associados ao esporte — e crescem

Quem não se lembra da maré verde pró-aborto que inundou a Argentina em 2018? Os protestos com lenços verdes marcaram uma jornada massiva pela legalização do aborto e tiveram grande repercussão no Brasil e na América Latina. Inscrito em lenços verdes, o lema educación sexual para decidir, anticonceptivos para no abortar, aborto legal para no morir circulou em mochilas, bolsas, pulsos e pescoços das mulheres – e homens favoráveis à legalização da interrupção voluntária da gravidez.

A Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, lançada oficialmente em 2005, alcançou uma enorme vitória quando o projeto de lei foi aprovado na Câmara, em junho de 2018. Diante da derrota no Senado, em agosto, a Campanha mudou o lema Que seja lei para Será lei– se não hoje, amanhã. As argentinas recomeçaram então o seu trabalho e, em 19 de fevereiro de 2019, milhares voltaram às ruas, em mais de cem cidades, para comemorar um ano do primeiro pañuelazo. Foi o esquenta para as jornadas nas sessões legislativas deste ano.

Agora os pañuelos chegaram a um dos redutos mais dominados pelos homens, os estádios de futebol – e logo tiveram sua entrada proibida. Em post de 14 de março, o site Boca Antifascista publica fotos dos pañuelos proibidos, e afirma:

“Diante das declarações de Alfaro [diretor técnico do Boca Juniors], e da decisão da polícia na última partida no estádio La Bombonera de não permitir o ingresso dos pañuelos a favor do aborto legal, seguro e gratuito, ocorreu-nos pedir às torcedoras do Boca que nos mandassem fotos com seus lenços verdes… Chegaram tantas que não cabem aqui!”

Que todas as mulheres possam decidir sobre seus corpos, clamam os “antifas”, ou antifascistas, do Boca. Alfaro, que apoiou a campanha contrária, “salvemos as 2 vidas” , foi convidado para um debate público em que “discutam a fundo como é possível ‘salvar as vidas’ de milhares de mulheres mortas por abortos clandestinos”.

Politização das torcidas

A presença dos lenços verdes nos estádios da Argentina reflete um fenômeno que ocorre também do Brasil: a participação crescente de mulheres nas torcidas organizadas. Por aqui elas já desfilam nas manifestações de 8 de março e marchas #EleNão, como As Poderosas Corintianas.

Isso, num quadro mais amplo de politização das torcidas de futebol, que vem acontecendo há mais tempo. Ficou célebre a Democracia Corintiana proposta pelo doutor Sócrates, que nos anos 1980 questionou o poderio dos clubes sobre seus jogadores e balançou a hierarquia do futebol.

Antes, em 11 de fevereiro de 1979, durante a partida Corinthians x Santos na final do Campeonato Paulista, a Gaviões da Fiel, driblando os avanços da PM, levantou a faixa “Anistia ampla, geral e irrestrita” produzida em colaboração com o Comitê Brasileiro pela Anistia. A iniciativa foi dos jornalistas Antonio Carlos Fon e Chico Malfitani, um dos fundadores da Gaviões.

Este ano, torcidas antifascistas de clubes de futebol de vários pontos do país lançaram nota de repúdio às comemorações da ditadura militar feitas pelo governo e participaram de atos em memória dos presos, torturados, mortos e desaparecidos durante a ditadura. No manifesto conjunto “Gol contra: Ditadura militar impôs derrota ao Brasil”, elas manifestam “total repúdio ao incentivo irresponsável do presidente da República, Jair Bolsonaro, para que as Forças Armadas comemorem o golpe contra a democracia ocorrido em 31 de Março de 1964, no qual foi deposto o legítimo presidente João Goulart”. No Rio de Janeiro, a Nação Rubro-Negra do Flamengo prestou homenagem a Stuart Angel, assassinado sob tortura durante a ditadura militar e ex-remador do clube, em ato com a presença da irmã de Stuart, a jornalista Hildegard Angel.

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