Futebol com medo do crime

Em El Salvador, na América Central, os times de futebol aboliram de suas camisas números diretamente relacionados às principais facções criminosas do país

Mais da metade dos times de futebol em El Salvador deixaram de utilizar camisas com os números 13 e 18. Parece um fato corriqueiro e desimportante, mas, longe de ser uma mera coincidência, demonstra como as maras — alcunha pela qual são conhecidas as facções criminosas no país e em toda América Central — estão impactando a vida dos cidadãos salvadorenhos em seus aspectos mais corriqueiros.

O repórter Roberto Valencia visitou a Federação Salvadorenha de Futebol (Fesfut) e constatou que 64% das equipes que disputam a primeira, segunda e terceira divisões do campeonato nacional aboliram as camisas 13 ou 18 — ou ambas — com a única finalidade de proteger seus atletas de possíveis ataques perpetrados pelo crime organizado. “Existem 66 clubes inscritos nas três máximas categorias do futebol salvadorenho, e apenas 14 (ou 21%) consideraram oportuno usar o 13 e o 18 durante a temporada, números relacionados à Mara Salvatrucha (ou MS-13) e ao Barrio 18, os principais bandos criminosos que operam no país”, escreve.

A reportagem de Valencia foi publicada nesta terça-feira (13) pelo portal Cosecha Roja (Colheita Vermelha, em espanhol). Além de verificar a escalação dos times, a matéria também entrevistou o sociólogo Marcelino Díaz, do Instituto de Medicina Legal, que criticou a atitude das equipes de futebol. Para Díaz, o aparentemente inofensivo gesto dos clubes salvadorenhos acaba legitimando o poderio das maras. “É o Estado quem deve controlar, através das leis, a conduta das pessoas, mas em El Salvador quem controla muitos aspectos da sociedade são os grupos criminosos”, explica.

El Salvador é um dos lugares mais violentos do mundo. Os índices oficiais de homicídio dizem que, em 2010, foram assassinadas 65 pessoas por cada 100 mil habitantes. São números escandalosos, se levamos em consideração que as Nações Unidas consideram “epidemia de violência” uma taxa anual de 10 assassinatos por 100 mil habitantes. A Polícia Nacional Civil acredita que metade das mortes se deve à ação das maras. Já as Forças Armadas são menos otimistas: garantem que as gangues são responsáveis por 90% dos homicídios registrados no país. —@tadeubreda

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