Comédia: uma revisão necessária

Onde se verifica que, em época de reestruturações, é preciso redimensionar Paraíso, Inferno e Purgatório, “enxugar” gastos e redefinir os lugares ocupados por Moro, Ustra, FHC, os militares e tantos outros

Crônica de Priscila Figueiredo | Imagem: Sandro Boticelli, O Inferno de Dante (1485)

AVISO AOS NAVEGANTES: aconselhados por uma consultoria em assuntos de reestruturação, cujo nome nos pede, com rara modéstia, que preservemos em sigilo, achamos por bem reduzir significativamente o número de círculos do Inferno, bem como enxugar o número de habitantes do Purgatório e desativar por completo os excelentes e bem localizados domínios do Céu, escancarando-os aos ventos da especulação. Assim não deverá dar ensejo a espanto que se possa, por exemplo, divisar nas esferas mais baixas o celebérrimo juiz da República de Curitiba, Sergio Moro, ao lado de Brilhante Ustra. As injustiças morais continuam a não se comparar aos sofrimentos físicos, mas a racionalidade gerencial, austera e prática, não viu problema em colocar o cultor da delação ao lado do exímio torturador, invocado ao longo das eras, assim como conceber outras justaposições que talvez pareçam pouco usuais ou conforme a lógica. Há tendência crescente para a concentração e fusão de pecados, assim como dos níveis interpretativos, literal, alegórico, moral e anagógico, e, se não tivemos pretensão de imitar a concisão de um power-point, não vimos por que não refletir sobre o espírito de época que ele sugere, do qual também somos filhos, embora menos diletos.

Os artífices da nova Comédia perceberam que não há, como no tempo de Dante, a estupefação com a variedade humana de delitos, que o autor pôde conhecer de perto no simpósio político da Florença de seu tempo e soube habilmente conciliar com a cosmologia medieval, as estrelas fixas, a angelologia e demonologia, tanto quanto com a tipologia cristã dos pecados. O homem aprofundava o conhecimento do homem naquela cidade-Estado cheia de contrastes, desenvolvimentos comerciais e novos tipos humanos — vestíbulo dos tempos modernos. Estamos certos de que o espectador compreenderá o nosso gênio sintético, a bem da economia, da rapidez e da percepção de que não há tempo a perder com miudezas, tanto mais que a própria dinastia bolsonárica –assim chamada pelo Príncipe dos Sociólogos, que achareis logo à entrada da nefanda zona, gentilmente aconselhando o barqueiro Caronte — não o perdera, metendo no setor dos patos muita coisa que não era pato, e no setor de ganso muita coisa mais que não era ganso e tampouco pato. Para o bem da verossimilhança, a estrutura dessa nova epopeia da alma está enxuta, discorre em poucos círculos e não figura nenhuma beatitude ou ascensão, prescindindo de epifanias e Beatrice, críveis num tempo ainda marcado por certa ingenuidade (embora confessemos aqui o temor de fôssemos mal interpretados caso uma senhora aparecesse em tal relevo ).

Também não há o maravilhoso claro-escuro, tampouco o gelo ou o fervor ardente de certas zonas. O orçamento nos obriga a manter em todos os domínios uma imutável e branca lâmpada de Led. Restrições pecuniárias também se impuseram na contratação de um guia — e o utilizamos em sequências em que apenas ele saberia entrar e nos conduzir. Por esse modo, dispensamos os três condutores originários, o mantuano mestre, São Bernardo e Beatriz, e fizemos contrato com um jovem anônimo. Não hemos por que duvidar do prazer que lhe proporcionamos em contribuir com nosso desígnio, e na verdade apenas fez o que lhe é mais que habitual nas quebradas mais ínvias; por isso julgamos que fora excessivo lhe dar crédito e não o demos. De resto, seguimos sozinhos e pela mão de nossa intuição, soberana guia, pois mais infalível que um GPS. Virgílio está “en retraite”, e já nos baste ter ativado uns quantos generais da reserva. Vós os encontrareis de sobejo no Purgatório.

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