Meus professores (lembranças a partir do massacre de Curitiba)

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Duzentos feridos durante repressão a professores em Curitiba (Agência Paraná/ Fotos Públicas)

Batalha do Centro Cívico, em Curitiba, ou Massacre do 29 de Abril, completou um ano; blog relembra texto publicado na época em homenagem aos professores

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O Ministério Público chama de Batalha do Centro Cívico. Os professores, de Massacre do 29 de abril. Centenas deles foram espancados em Curitiba, há um ano, durante protesto contra o governo de Beto Richa (PSDB). Duzentas pessoas ficaram feridas.

No dia seguinte escrevi em minha página de Facebook o texto abaixo. Título: “Meus professores”.

Lembro-me do Seu Deusdedit, de português. No ginásio. Sou do tempo do 1º grau, mas falávamos ginásio, lá em São Carlos, sempre em escolas públicas. (E como tenho saudades delas.) Se hoje concateno um pouco melhor as palavras devo muito a ele e à Dona Ângela, do colegial. Misto natural de professora e psicóloga. Uma motivadora. Nunca entendeu por que eu fui estudar exatas, antes de trilhar o caminho das humanas.

Lembro-me também da Dona Luzia e do Carlos Gomes, de matemática. Ela era mais falada pelas “marquinhas”, uma curiosa forma de punição por mau comportamento. Mas foi por causa da competência deles que achei que fosse das exatas. Carlos Gomes tinha memória fotográfica para nomes. Na primeira aula, todos dizíamos o prenome. Numa sala com 40 alunos. Ele repetia todos, em ordem ou não. E nunca mais esquecia.

Ao reler as notícias sobre o massacre de professores pela polícia paranaense lembro-me de cada um deles. Vejo aquele governo fascista espancando um por um, o jato d’água arrancando os óculos da Dona Luzia, o Carlos Gomes com o rosto vermelho, indignado com a sequência de humilhações, vejo o professor Deusdedit quase perdendo a linha (ele nunca perdia), imagino Dona Ângela atordoada entre tanques e pitbulls, querendo ajudar os colegas.

Sinto por eles e todos os outros professores que tive, a não ser pelos farsantes colocados pela ditadura, esta que Beto Richa decidiu homenagear ontem, em seu delírio. Dói-me pensar na Lilian, de inglês, agredida por algum covarde, ou em um coturno fazendo voar a Ana May, de física. Na Therezinha de geografia, desnorteada, em um gás lacrimogêneo atingindo o Maurão, de Química – o Maurão era muito louco, como reagiria o Maurão?

Os sinos de cada escola (era uma sirene imponente, mas que sejam sinos) dobram hoje envergonhados pela demonstração de fraqueza dada ontem por um político.. menor. Um bípede qualquer, alguém que será esquecido. Nós, que amamos tanto aqueles que nos ensinaram (mesmo que não soubéssemos), nunca nos esqueceremos de nossos professores, são eles que fazem nosso país, que alimentaram – em meio a cada um de seus dramas pessoais e às dificuldades do setor – nossas centelhas de esperança.

É também por eles que devemos nos revoltar, mobilizar e chorar. Professor Menezes, professora Ângela, professor Ronaldo, vocês foram agredidos ontem, embora nunca tenham morado em Curitiba, vocês estão com 70 ou 80 anos e esses covardes não respeitam. Esses policiais que se consideram militares e esses políticos que se consideram civis violentam a democracia como um todo, mas simbolicamente cada um de vocês. Nós, mais jovens, não nos esqueceremos.

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