Os curdos, sob cerco sírio e hipocrisia ocidental

Sitiada pelo Exército sírio, zona autônoma – símbolo da resistência popular e feminista – enfrenta crise humanitária. Turquia vê oportunidade de completar cruzada anti-curda. Em meio a violações, e sob vista grossa dos EUA, Estado Islâmico ganha novo fôlego

Foto: Getty Images/S. Hamed
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Por Felipe Daza, com tradução na Revista Opera

O colapso das negociações entre o governo de transição sírio e a Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (Daanes), marcadas por tensões sobre a autonomia curda e a integração das Forças Democráticas Sírias (FDS) no exército estatal, precipitou novos confrontos entre as duas partes em bairros do norte de Aleppo. A ofensiva de Damasco continuou em direção ao Norte e Leste da Síria (NES), capturando cidades-chave como Tabqa – onde se encontra uma das principais barragens do país – e Raqqa, antiga capital do autoproclamado califado islâmico, assumindo o controle do flanco ocidental do território.

A retirada das FDS para o leste do Eufrates significou a reconfiguração do mapa político do norte e leste da Síria. A Daanes perdeu 80% do território que tinha sob seu controle. Desde a última trégua estabelecida no dia 20 de janeiro, a resistência curda concentra-se no extremo nordeste do NES, especialmente nas cidades de Kobane, Qamishli, Semalka e Hasaka.

A ameaça do ressurgimento do ISIS

A escalada militar dinamitou os acordos de segurança entre as FDS e os líderes tribais nas zonas árabes do NES. As deserções militares e as mudanças de lealdade facilitaram a tomada das cidades de Tabqa, Raqqa e Deir ez Zor pelo governo de transição sírio. Nesse processo, fontes locais observaram bandeiras e símbolos do ISIS entre os combatentes. Além disso, ocorreram ataques ao dispositivo de segurança da prisão de Al Aqatan, nos arredores de Raqqa.

Desde a vitória das milícias curdas – as Unidades de Proteção Popular e as Unidades de Proteção das Mulheres (YPG/YPJ) – contra o ISIS em Kobane em 2015, as FDS e o DAANES lideraram a ofensiva contra o grupo jihadista até sua derrota definitiva em 2019. Durante esses anos, foi tecida uma rede de segurança que trouxe certa estabilidade à região, embora com críticas de organizações internacionais pela situação humanitária do campo de detenção de Al Hol. O novo conflito armado desintegrou os mecanismos de controle territorial que, durante a última década, haviam contido a rearticulação do grupo.

Nesse contexto, o colapso da maior prisão de combatentes do ISIS em Hasaka despertou grande preocupação a nível internacional. Embora as forças do governo de transição sírio tentem assumir o controle desses centros, a desordem no terreno está provocando fugas de prisioneiros. No dia 19 de janeiro, por exemplo, 120 membros do ISIS fugiram da prisão de Al Shadadi, no NES.

Washington iniciou a evacuação de prisioneiros de Hasaka para o Iraque. Cerca de 150 já foram transferidos e outros 7.000 estão previstos. Enquanto isso, o enviado especial dos Estados Unidos para a Síria, Thomas Barrack, reconheceu publicamente o governo de transição sírio como parceiro legítimo na luta contra o jihadismo.

Crise humanitária e violações dos direitos humanos

O avanço militar provocou uma deterioração dramática da situação humanitária. Até o momento, foram registrados abusos contra civis, destruição de infraestruturas essenciais – hospitais, redes elétricas e de água – e o deslocamento forçado de mais de 134 mil pessoas, segundo as Nações Unidas. Apesar do caos informativo e da proliferação de desinformação, a Human Rights Watch aponta para graves violações dos direitos humanos por ambas as partes. Enquanto isso, fontes no terreno fornecem evidências de massacres, torturas, sequestros e tratamentos desumanos, entre outros.

Kobane, símbolo da resistência curda, encontra-se em situação crítica. Desde a semana passada, a cidade está sitiada pelas tropas do exército do Estado sírio, sem acesso à eletricidade, água potável ou alimentos suficientes para sua população. Nessas condições extremas, pelo menos cinco crianças morreram por desnutrição e desidratação nos últimos dias, segundo fontes locais.

Esta situação humanitária ocorre em um contexto de deficiente prestação de serviços públicos devido, em parte, à deterioração econômica e aos ataques da Turquia a centrais de energia, água e celeiros desde 2020.

Nesse contexto, dezenas de organizações da sociedade civil síria e internacional exigiram o fim imediato da ofensiva militar no nordeste da Síria, a retomada do diálogo político inclusivo, o respeito ao direito internacional e a implementação de mecanismos independentes para monitorar as violações dos direitos humanos.

Cruzadas políticas

Desde a sua formação, a Administração Autônoma do NES tem mantido uma postura de integração dentro de uma futura Síria democrática e descentralizada. Inspirado nos princípios da democracia direta, do ambientalismo e da igualdade de gênero, seu modelo de governança promoveu a participação de curdos, árabes e outras minorias por meio de mecanismos de co-governo e estruturas comunitárias. No entanto, sua legitimidade política tem sido corroída nos últimos anos devido à ausência de eleições e às deficiências na prestação de serviços públicos, entre outros aspectos.

No entanto, tanto Damasco como Ancara se opuseram e minaram ativamente a consolidação deste projeto político. A Turquia, em particular, considera o Daanes uma extensão do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que combate há décadas. Mesmo após o apelo de Abdullah Öcalan, líder histórico do PKK, para pôr fim à luta armada, a pressão turca não diminuiu. Desde 2016, o presidente turco Erdoğan lançou três operações militares no norte da Síria, capturando enclaves curdos estratégicos e impulsionando a criação de uma faixa de segurança que se estende de Afrin a Tal Abyad. A queda de Kobane e do governo regional do NES permitiria completar esse plano e consumar uma cruzada política iniciada há uma década.

O presidente da Síria, Ahmed al Shaara, busca consolidar sua soberania territorial no NES enquanto acessa os recursos naturais que ele oferece – campos de petróleo, reservas de gás, passagens de fronteira e barragens. No entanto, a incapacidade de controlar a violência sectária poderia pôr fim aos processos de diálogo inclusivo e reconciliação nacional, lançando a Síria em um novo abismo. A nova trégua de 15 dias acordada entre as partes é uma oportunidade para uma solução ser negociada, mas tal possibilidade é cada vez menor.

Terreno fértil

Apesar das políticas sectárias, do terror e das violações dos direitos humanos que a Síria viveu durante o regime de Bashar al-Assad, existe uma cultura de não-violência, sistemas de resiliência comunitária, espaços de coexistência entre comunidades étnicas e religiosas e uma sociedade civil capacitada e comprometida com o diálogo nacional e a reconciliação.

Iniciativas como a Hope League, um programa comunitário que trabalha com crianças e jovens no nordeste da Síria para fortalecer a coesão social por meio do esporte, mostram como, mesmo em um contexto de guerra prolongada, é possível reconstruir laços sociais a partir do nível local. Nessa mesma linha, o relatório Uma nova agenda para a paz no nordeste da Síria reúne as demandas e propostas dos atores da sociedade civil da região para avançar em direção a uma solução política inclusiva. Reforçar esses espaços de coesão social e dar centralidade às vozes locais continua sendo uma das formas mais eficazes de frear o extremismo violento e evitar um novo ciclo de colapso na região.

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