Hamnet: Shakespeare e o poder do luto

Filme narra a vida do dramaturgo e o trauma da morte do filho que teria inspirado sua obra-prima. É um drama bem construído, mas às vezes resvala num apequenamento da criação literária, reduzindo-a à catarse de uma tragédia familiar

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Por José Geraldo Couto, no Blog do IMS

Assim como a obra literária e teatral de William Shakespeare é inesgotável – em termos estéticos, filosóficos, humanos –, são escassos os documentos e informações sobre sua vida pessoal. Por conta disso, não foram poucos os escritores, dramaturgos e cineastas que procuraram preencher com a imaginação as inúmeras lacunas de sua biografia. Aquilo que desconhecemos é uma porta aberta, um terreno fértil para a fantasia.

Foi assim com Shakespeare apaixonado (John Madden, 1998) e é assim agora com Hamnet – A vida antes de Hamlet, de Chloé Zhao. Baseado no livro homônimo de Maggie O’Farrell, o novo filme conta, em linhas gerais, a história do casamento de Shakespeare (Paul Mescal) com Agnes (Jessie Buckley), do trauma da morte do filho pequeno do casal, Hamnet, e, por fim, da suposta influência dessa desgraça sobre a escrita da tragédia Hamlet.

Há nesse entrecho muitos fatos comprovados: de fato Shakespeare era filho de um pequeno fabricante de luvas e arreios em Stratford-upon-Avon; de fato se casou aos18 anos com a vizinha Agnes (ou Anne) Hathaway, oito anos mais velha; de fato, ela estava grávida; de fato, tiveram três filhos, Susanna (Bodhi Rae Breathnach) e os gêmeos caçulas Judith (Olivia Lynes) e Hamnet (Jacobi Jupe); de fato Hamnet morreu aos 11 anos, tudo indica que de peste.

Todo o resto é especulação, o que não é problema nenhum, até pelo contrário, desde que o espectador não acredite piamente que “foi assim que aconteceu”. A publicidade que atribui ao filme a revelação “de um lado desconhecido de Shakespeare”, ou o exalta por “dar visibilidade” a Anne Hathaway, é, evidentemente, enganosa. Cada um construirá o “seu” Shakespeare, e toda leitura trará as marcas do seu tempo.

Ligação com a natureza

Não temos informações comprovadas sobre as atividades e interesses pessoais de Anne/Agnes, portanto é legítimo que o livro de Maggie O’Farrell e o filme de Chloé Zhao a retratem como uma mulher de personalidade forte, ligada profundamente à natureza e com uma sensibilidade quase paranormal. Na época em que viveu, uma mulher assim talvez fosse considerada algo como uma bruxa.

Alguns dos momentos mais interessantes de Hamnet são aqueles em que se investe justamente na fantasia, sem grande preocupação com possíveis inverossimilhanças e anacronismos. Por exemplo, na cena em que os filhos de Agnes e William se fantasiam de bruxas e reproduzem a interpelação das figuras sinistras ao guerreiro Macbeth, no início da peça que só seria escrita vários anos depois.

Outra ideia poética de grande força é a tentativa dos irmãos gêmeos de trocar de papéis para enganar os outros. Quanto a isso, há duas cenas que se espelham: na primeira, cômica, eles tentam iludir o pai. Na segunda, sombria, tentam – e aparentemente conseguem – enganar a morte.

Do trauma familiar à tragédia

Depois da morte precoce de Hamnet, o filme oscila, a meu ver, por dois terrenos perigosos. O primeiro é a crise do casal Agnes/William, retratada quase como uma DR dos dias atuais. A recriminação de Agnes às prolongadas ausências de William, que tentava se estabelecer no teatro em Londres, parece ecoar um drama familiar contemporâneo: “Ah, o marido que só pensa na carreira e larga a bucha na mão da mulher”.

A certa altura Agnes pergunta ao marido: “O que você tanto vai fazer em Londres?” Dá vontade de responder: “Nada não, só produzir a obra literária mais grandiosa de toda a língua inglesa, quiçá de todo o Ocidente”. Para que não nos esqueçamos da estatura do personagem, a diretora nos lança na tragédia Hamlet, escrita quatro ou cinco anos depois da morte de Hamnet. A ideia (ou “tese”) é de que o trauma familiar inspirou Shakespeare a produzir aquela que é talvez sua obra-prima, embora na peça, inversamente ao que ocorreu na vida, haja um filho instado a vingar a morte do pai (ambos de nome Hamlet).

Curiosamente, a questão da paternidade e das relações familiares difíceis, sublimadas ou redimidas pela arte, aproxima dois dramas recentes, díspares em todo o resto: o norueguês Valor sentimental e o anglo-americano Hamnet. Nada contra: a porosidade entre a vida e a arte sempre foi um tema importante, ainda mais nesta nossa época de valorização da “autoficção”.

O problema é quando se tenta explicar a obra de arte pela psicologia ou pela biografia de seu autor, subvalorizando o papel da imaginação, da pesquisa histórica e estética, da capacidade criadora do sujeito. No caso de Hamnet, fica uma sensação de apequenamento, em que uma das grandes tragédias filosóficas já escritas se reduz praticamente à catarse de um drama familiar.

Reflexão sobre a morte

Hamlet, escrita em 1600 ou 1601, é uma profunda e dolorosa reflexão sobre o luto, sobre o que fazer com o fantasma de quem nos deixou, e sobre o medo da morte, por mais que a vida possa ser um flagelo sem fim. Albert Camus disse famosamente que “só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia”. Shakespeare disse o mesmo há quatrocentos anos, no mais célebre solilóquio de Hamlet. Nesse sentido, claro que a morte do filho pequeno deve ter sido uma das inspirações para a abordagem dilacerante da peça. Mas o risco é transformá-la numa espécie de psicodrama pessoal, de reflexo imediato de um fato biográfico.

Tudo somado, Hamnet é um drama bem construído, bem fotografado e agradável de se ver, que cresce quando chegamos ao Globe Theatre em Londres, e conta com um elenco notável, em especial das crianças. Em tempo: nomes como Hamlet/Hamnet e Agnes/Anne eram praticamente intercambiáveis, grafados e pronunciados de maneiras variáveis numa época de pouca gente alfabetizada. Não sou nenhum scholar: tirei a maioria dessas informações de um livrinho encantador de Bill Bryson, Shakespeare – O mundo é um palco (Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira).

Há que louvar, por fim, a ousadia e o destemor da diretora Chloé Zhao. Nascida na China e radicada nos Estados Unidos (depois de ter estudado também em Londres), ela abordou a América profunda em Nomadland (2020) e agora resolveu bulir com o maior nome da cultura britânica, ninguém menos que William Shakespeare. Bendito atrevimento.

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