IA: A China tem outro projeto

Assumir, até 2030, liderança na nova tecnologia. Empregá-la para transformar a economia e as relações sociais. Apostar em códigos abertos, e no comando público. Quebrar monopólios. Exame da estratégia chinesa, a partir de seus documentos

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Como qualquer observador dos temas digitais está cansado de saber, a inteligência artificial deixou de ser apenas uma tecnologia disruptiva para se tornar o epicentro de uma disputa geopolítica e geoeconômica que redefine as relações de poder no século XXI. Enquanto o mundo observa e os Estados Unidos tentam manter sua liderança, a China executa silenciosamente uma das mais ambiciosas estratégias nacionais da história recente: transformar-se na líder mundial de IA até 2030. Mas o que exatamente o país asiático busca com essa corrida tecnológica? Como veremos, a resposta vai muito além de inovação ou competitividade.

Durante duas décadas após a crise financeira asiática de 1997, a economia global prosperou com base numa sinergia simples: os Estados Unidos dominavam o software, a China fabricava o hardware. Essa complementaridade beneficiou ambos enormemente e impulsionou o crescimento mundial. A partir do primeiro governo Trump, Washington começou a usar a dominância de suas empresas em software para conter a ascensão chinesa, forçando a China a desenvolver substitutos próprios. Com escala, talento e recursos financeiros, o país asiático tem todas as condições para alcançar seus objetivos de autonomia tecnológica. Paradoxalmente, essa pressão americana está motivando a China a impedir justamente a emergência de dominância de sistemas ou plataformas em novas tecnologias como a IA por parte das empresas de tecnologia dos EUA — exatamente o que os investidores ocidentais esperavam conquistar.

Transformação como política de Estado

Em 2017, o governo chinês lançou o documento estratégico “New Generation Artificial Intelligence Development Plan” (AIDP), que estabeleceu marcos ambiciosos e cronologicamente precisos. Em 2020, a ideia principal seria alcançar paridade tecnológica com os líderes globais em IA, tornando a inteligência artificial um novo motor de crescimento econômico para a China. Até o ano passado, a meta era atingir liderança mundial em áreas selecionadas de IA, gerando 400 bilhões de yuans em indústria central e 5 trilhões de yuans em setores relacionados, estabelecendo sistemas iniciais de governança e segurança. Para 2030, o objetivo principal: tornar-se o principal centro global de inovação em IA com indústria central de 1 trilhão de yuans e indústrias relacionadas de 10 trilhões de yuans, ocupando os segmentos dominantes da tecnologia e consolidando a China como líder absoluto mundial.

Mesmo há quase uma década e ainda sem a presença avassaladora da IA generativa, não se tratava de retórica política vazia. Alibaba, um dos principais grupos tecnológicos do país, reservou 380 bilhões de yuans, ou 54 bilhões de dólares, para capacidade de computação e infraestruturas de IA apenas em 2024. Segundo o Bank of America, o investimento total da China em IA foi estimado entre 600–700 bilhões de yuans (US$ 84–98 bilhões) para 2025. O investimento maciço, que envolve várias gigantes nacionais, reflete uma coordenação entre governo e setor privado raramente vista em outras economias, onde empresas como Alibaba, ByteDance, Tencent e Huawei alinham suas estratégias corporativas aos objetivos nacionais.

Para além da competitividade econômica, a China enxerga a IA como um catalisador de mudanças estruturais profundas. O Conselho de Estado formalizou em agosto de 2025 uma estratégia de integração intensiva da inteligência artificial em todos os setores da sociedade e da economia, com o objetivo de reconfigurar os modos de produção e de vida. Essa visão transformadora está explicitamente ligada ao projeto político chinês. A implementação massiva de IA é vista como parte da evolução do “socialismo com características chinesas” para uma nova etapa, onde a colaboração entre humanos e máquinas redefine as relações de trabalho e produção. Não é apenas sobre ter a melhor tecnologia, mas sobre moldar como essa tecnologia reorganiza a sociedade. E tudo isso vem sendo alinhado com sua política para economia de dados, base de qualquer estratégia de desenvolvimento em IA. O ativo foi alçado a fator de produção, ao lado de capital, trabalho, terra e equipamentos.

A importância estratégica da IA para a liderança chinesa fica evidente na análise das sessões de estudo do Politburo em 2025 feita por Fred Gao, de Inside China. Em fevereiro, a primeira sessão do ano integrou a “segurança da IA” dentro da estrutura de segurança nacional holística, sinalizando que tecnologias emergentes não são vistas apenas como oportunidades econômicas, mas como questões de segurança pública que exigem governança preventiva.

A segunda sessão, realizada em 25 de abril, dedicou-se inteiramente ao desenvolvimento e regulação da inteligência artificial. O professor Zheng Nanning, da Universidade de Xi’an Jiaotong, apresentou aos membros do Politburo uma visão que equilibra inovação com controle. A sessão revelou três diretrizes fundamentais que estruturam a estratégia chinesa:

· Autossuficiência tecnológica: Identificaram-se lacunas críticas em teorias fundamentais e tecnologias centrais, especialmente em chips de alta performance e software básico. O objetivo declarado é construir um sistema autônomo, controlável e colaborativo de hardware e software para IA. Esta não é apenas retórica nacionalista — é uma resposta direta às sanções tecnológicas ocidentais.

· Desenvolvimento orientado por aplicações: Enquanto se busca autonomia tecnológica, a ênfase está em resultados práticos imediatos. A China quer aproveitar suas vantagens em recursos de dados, sistemas industriais, cenários de aplicação e potencial de mercado. A estratégia prevê um sistema de inovação colaborativa liderado por empresas, integrando indústria, academia, pesquisa e aplicação.

· Governança de riscos em ciclo completo: As palavras-chave “benéfica, segura e equitativa” e “segura, confiável e controlável” aparecem repetidamente. O documento enfatiza monitoramento técnico, alertas de risco e sistemas de resposta emergencial. A IA deve ser desenvolvida, mas sob estrito controle estatal.

Esta abordagem dual — buscar simultaneamente avanços tecnológicos e manter controle rígido — caracteriza o modelo chinês de desenvolvimento de IA. É uma corrida pela liderança tecnológica que jamais perde de vista o imperativo do controle político e social.

Pragmatismo versus concentração

Uma das características mais marcantes da abordagem chinesa é sua orientação prática. Enquanto os EUA exploram conceitos como inteligência artificial geral e superinteligência artificial, procurando responder a questões de grande alcance, incluindo a própria definição do que é ser humano, a China adota uma postura diferente. O foco chinês está na aplicação imediata da IA em cenários reais para criar valor econômico e aumentar a eficiência industrial. Isso significa integrar inteligência artificial em sistemas de diagnóstico médico, veículos autônomos, plataformas educacionais, sistemas de vigilância e, principalmente, em processos produtivos que possam reduzir custos e aumentar a competitividade global da indústria chinesa.

Essa diferença filosófica revela muito sobre as prioridades de cada potência. Artigo de Andy Xieilustra bem esta distinção. Enquanto o Vale do Silício, como apoio de Washington, busca criar sistemas cada vez mais poderosos e generalizados, concentrando os principais investimentos em suas campeãs nacionais com alta capacidade de alavancagem, a China quer aplicações que resolvam problemas concretos agora, gerando retorno imediato para a sociedade e a economia.

Neste sentido, a aposta chinesa em plataformas de código aberto não é apenas uma estratégia de mercado, mas uma manobra geopolítica calculada para evitar que sistemas proprietários se transformem em pontos de estrangulamento. Enquanto os Estados Unidos investem trilhões esperando criar novos monopólios lucrativos ao estilo Microsoft, Google ou Meta, a China está deliberadamente impedindo que esse cenário se concretize. Empresas como DeepSeek, Moonshot AI, Zhipu AI e MiniMax disponibilizam suas tecnologias gratuitamente ou a custos muito baixos, buscando conquistar participação de mercado através do volume de usuários e da construção de ecossistemas, em vez de receitas diretas imediatas.

A consultoria Gartner estimava investimentos globais em IA em 1,5 trilhão de dólares em 2025, ultrapassando 2 trilhões ao final do novo ano. As empresas que investem esses montantes esperam atingir poder monopolístico num mercado potencialmente gigantesco, apostando que o princípio “o vencedor leva tudo” funcionará como em ondas tecnológicas anteriores.

Mas a realidade está tomando outro rumo. Os modelos chineses de código aberto já detêm cerca de 30% do mercado global de IA. A previsão é que no horizonte próximo superem seus competidores americanos tanto em participação de mercado quanto em velocidade de aquisição de novos usuários. Mesmo que os modelos de código aberto não sejam tecnicamente superiores aos proprietários, poderão vencer os adversários simplesmente por serem suficientemente bons para realizar o trabalho — e por oferecerem controle aos usuários.

Esta dinâmica ameaça destruir os sonhos de lucros trilionários que motivam os investimentos atuais em IA dos investidores de Wall Street. A bolha financeira pode estar prestes a estourar não por falha tecnológica, mas pela impossibilidade de monetização monopolística num cenário dominado por alternativas abertas e gratuitas calcadas em outros tipos de negócio.

Política industrial e propriedade intelectual

Para justificar o avanço chinês sem admitir as próprias falhas estratégicas, o Ocidente construiu uma narrativa conveniente: a China progride porque não respeita a propriedade intelectual. Este “conto chinês” serve como desculpa moral, transformando um problema complexo de política industrial em uma fábula simples com um único vilão.

A realidade, porém, é bem diferente. Desde 2014, a China estabeleceu tribunais especializados em propriedade intelectual, integrados num sistema judicial cada vez mais sofisticado. O país tornou-se um dos principais motores do crescimento mundial de solicitações de patentes, segundo dados da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI). Um país que despreza a propriedade intelectual não investe nessa escala em registros, litígios e aparato institucional.

O que existe, na verdade, é uma aplicação seletiva e estratégica da propriedade intelectual. Ela funciona como um interruptor: aplica-se com rigor quando convém estabilizar um mercado ou proteger campeões nacionais, e toleram-se zonas cinzentas quando o objetivo é acelerar a difusão tecnológica e o aprendizado coletivo. Esta flexibilidade pragmática é o que o Ocidente interpreta erroneamente como ausência de proteção.

Como nos mostra Enrique Dans, o que realmente impulsiona o progresso chinês não é a ausência de proteção à PI, mas uma política industrial massiva, explícita e sustentada no tempo. O programa “Made in China 2025” não foi apenas um slogan, mas uma mobilização coordenada de capital, permissões, ativos imobiliários e incentivos para setores considerados prioritários.

O setor de veículos elétricos exemplifica esse modelo. Com mais de 30 fabricantes, a China não lidera porque “copia sem consequências”, mas porque durante anos empurrou financiamento, infraestrutura, demanda pública e competição interna até transformar o mercado numa corrida por execução de projetos. Dezenas de fabricantes competindo com margens mínimas aceleraram o aprendizado, a redução de custos e o controle da cadeia de suprimentos. O mesmo padrão se observa na energia solar, onde o país domina a fabricação global após financiar massivamente a capacidade produtiva, aceitando sobrecapacidade e guerras de preços como parte consciente do processo.

Esta “distorção” que o Ocidente critica é, na realidade, um efeito buscado de forma deliberada. É impossível competir contra quem transformou ineficiências aparentes em vantagens competitivas reais. O caso da DeepSeek ilustra perfeitamente essa capacidade de inovação sob pressão. O modelo R1, lançado no início de 2025, alcançou desempenho comparável aos melhores sistemas ocidentais utilizando hardware menos avançado e a uma fração do custo. Essa eficiência não veio de componentes superiores, mas de otimização de software e arquitetura mais inteligente.

Defesa e a parte sensível da estratégia

A aplicação militar da inteligência artificial representa talvez o aspecto mais crítico — e menos transparente — da estratégia chinesa. O Exército de Libertação Popular (ELP) vê a IA como central na próxima revolução nos assuntos militares, capaz de transformar fundamentalmente as métricas de poder militar. Análises de contratos militares do ELPrevelam sete áreas prioritárias de investimento: veículos inteligentes e autônomos, inteligência e reconhecimento, manutenção preditiva e logística, guerra de informação e eletrônica, simulação e treinamento, comando e controle, e reconhecimento automático de alvos. O foco principal está em sistemas não tripulados inteligentes, que devem revolucionar as formas tradicionais de combate.

Em 2025, a China revelou progressos significativos. Durante desfile militar, sistemas de guerra eletrônica alimentados por IA demonstraram capacidade de desconectar redes inimigas e fornecer contramedidas aéreas e espaciais. A fabricante estatal Norinco apresentou o veículo militar P60, capaz de realizar operações autônomas de apoio ao combate a 50 km/h,alimentado pelo modelo DeepSeek. Sistemas de artilharia com assistência de IA foram testados para melhorar precisão e alocação de munições.

A estratégia de fusão militar-civil permite que avanços civis alimentem aplicações militares. Empresas como a U-Tenet desenvolveram modelos de IA especificamente militares: Tianji (um “cérebro de decisão” baseado em nuvem para planejamento operacional), Tianwang (repositório de inteligência em tempo real) e Tianjian (sistema integrado de inteligência de campo de batalha). Segundo dados da empresa de consultoria ifenxi, esses sistemas foram construídos com mais de um milhão de documentos de alta qualidade e 300 terabytes de imagens militares.

A dimensão mais delicada — e potencialmente perigosa — neste campo é a integração da IA em sistemas de comando e controle nuclear (NC3). Em novembro de 2024, Xi Jinping e Joe Biden concordaram que a decisão de usar armas nucleares deve permanecer sob controle humano, não sendo delegada à inteligência artificial. Mas a realidade é mais complexa que esse compromisso sugere.

A China mantém oficialmente uma política declaratória de “no-first-use” nuclear desde 1964. Contudo, o Departamento de Defesa dos EUA afirma que o país está construindo diversos sensores de alerta precoce baseados no espaço e na terra, projetados para detectar lançamentos nucleares e fornecer opção de postura de lançamento sob alerta, permitindo retaliação rápida antes que uma arma nuclear detone. Em 2024, a China aprimorou sistemas espaciais de alerta precoce capazes de detectar um míssil balístico intercontinental em 90 segundos e alertar um centro de comando em três a quatro minutos.

Especialistas chineses reconhecem que comandantes podem ser sobrecarregados pela quantidade massiva de informações sobre ações adversárias, impedindo decisões rápidas e informadas. A IA surge como solução para processar dados de alerta precoce, mas essa integração cria riscos significativos. Modelos avançados de IA podem “alucinar” dados falsos — no contexto nuclear, isso poderia significar detectar falsamente um ataque iminente. A natureza de “caixa-preta” da IA profunda dificulta compreender o processo interno que leva a determinada saída, tornando verificações e redundâncias essenciais.

Analistas chineses também identificam ameaças à estabilidade estratégica. A IA preditiva é capaz de aprimorar capacidades de contraforça e fornecer vantagens ofensivas que ameacem capacidades retaliatórias adversárias. Tecnologias de IA e sensoriamento remoto podem permitir veículos submarinos não tripulados autônomos para detectar, rastrear e atacar submarinos de mísseis balísticos, reduzindo sua capacidade de sobrevivência. Essas dinâmicas criam corridas armamentistas e pressionam por sistemas de dissuasão estratégica mais robustos, desencadeando contramedidas chinesas para melhorar mobilidade e capacidade de penetração de suas forças nucleares.

A questão não é se a China usará IA para gerenciar armas nucleares, mas a profundidade com que a tecnologia será integrada nos sistemas que informam, recomendam e facilitam decisões nucleares, mantendo nominalmente humanos “no circuito” de decisão final. E, sem ingenuidade, entender que empresas como Palantir e Anduril podem estar fazendo o mesmo em seus contratos com o Pentágono.

Autonomia tecnológica e soberania digital

Com estas demandas postas, um dos objetivos centrais da estratégia chinesa é reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras com soluções de engenhosidade. Até 2026, o país pretende triplicar a produção doméstica de chips de IA, desenvolvendo também nanochips e ferramentas industriais de automação inteligente. A Huawei, por exemplo, planeja lançar um sistema altamente competitivo ao longo deste ano, completamente independente de componentes americanos.

Em dezembro de 2025, analisa Markus Sandelin, a Reuters revelou que a China completou um protótipo operacional de litografia EUV (ultravioleta extremo) numa instalação de alta segurança em Shenzhen — não através de engenharia reversa de máquinas ASML capturadas, mas recrutando os humanos que sabiam construí-las. O ex-cientista da ASML Lin Nan, que liderou a tecnologia de fonte de luz EUV na Holanda de 2015 a 2021, registou oito patentes EUV em dezoito meses sob nova identidade no Instituto de Óptica de Xangai. Os bônus de contratação variaram entre US$ 420 mil e US$ 700 mil, além de subsídios habitacionais e documentos de identidade. A máquina ocupa um andar inteiro de fábrica, funciona com eficiência de conversão de 3,42%, e embora ainda não tenha produzido chips funcionais — meta prevista para 2028–2030 — ela existe, comprimindo o cronograma previsto de 2035–2040 para aproximadamente uma década antes.

Este caso exemplifica um erro estrutural fundamental da estratégia de segurança tecnológica ocidental: a suposição de que o conhecimento vive nas máquinas, não nas pessoas. Enquanto os controles de exportação bloquearam a venda de sistemas EUV da ASML à China, a operação de aquisição de talentos chinesa funcionou às claras porque artefatos nunca são o ativo real — são apenas recibos do conhecimento que existe nas mentes humanas.

O Ocidente garantiu aproximadamente seis anos de vantagem temporal, mas desperdiçou esse tempo com autocongratulação sobre os controles, consolidação de dependências existentes e concentração contínua em Taiwan, assumindo que a lacuna nunca se fecharia. A lição se repete agora com a Ucrânia, cujos engenheiros desenvolveram os sistemas de defesa mais avançados em testes reais de combate — conhecimento que a China está posicionada para extrair da mesma forma, enquanto o Ocidente oferece apoio mínimo viável em vez de investimento estratégico no talento que representa valor insubstituível.

Essa busca por autonomia vai além da segurança econômica; trata-se de soberania digital. A China não quer depender de tecnologias que possam ser usadas como instrumentos de pressão geopolítica por adversários. O controle sobre a cadeia de produção de IA, desde os chips até as aplicações finais, garante liberdade de ação em um mundo cada vez mais polarizado.

Não por acaso,um dos aspectos mais impressionantes da estratégia chinesa é como o país tem contornado as sanções americanas que limitam o acesso a chips de IA de última geração. Os fornecedores chineses optaram por uma abordagem baseada no uso de um maior número de chips, em vez de recorrer às GPUs de alta performande como as da Nvidia. Estratégia que fez Trump recentemente revisar sua política e permitir que a principal fabricante dos EUA continuasse a fornecer estes componentes críticos a empresas chinesas.

Liderança no Sul Global e governança multilateral

A estratégia chinesa também tem uma dimensão internacional importante. Na World AI Conference de 2025, Pequim apresentou um plano de 13 pontos para a governança global do chamado AI+, destacando a colaboração internacional e o papel do Estado na criação de normas. Até 2027, a meta é que novas infraestruturas, tecnologias e serviços baseados em IA estejam presentes em 70% da economia real chinesa, atingindo mais de 90% até 2030. Recentemente, fez algo similar em termos de cooperação internacional com seu policy paper de cooperação com América Latina e Caribe.

Diferentemente dos Estados Unidos, que promovem exportação de tecnologia principalmente para aliados estratégicos, a China se posiciona como parceira dos países do Sul Global, oferecendo transferência de tecnologia com menor condicionamento político. Essa abordagem busca construir influência global através da cooperação em IA, posicionando a China como líder do multilateralismo tecnológico.

Uma corrida que apenas começou

A competição sino-americana em IA está longe do final. Essa disputa deve continuar a alternar entre fases de forte valorização do mercado e momentos de correção, refletindo tanto o ritmo do investimento como as incertezas tecnológicas, econômicas e geopolíticas.

E o que a China quer com IA, afinal? Quer liderança tecnológica, autonomia estratégica, transformação econômica, reorganização social e influência global. Quer redefinir as relações de poder no século XXI através do domínio da tecnologia que promete ser uma das mais transformadoras desde a Revolução Industrial. E diferentemente de muitas declarações de intenção, a China apresenta não apenas ambição, mas execução coordenada, investimento maciço e resultados concretos que já a colocam como rival direto dos Estados Unidos.

A consequência mais difícil de admitir é que o Ocidente confiou demasiadamente que o mercado, por si só, seria suficiente para sustentar a liderança tecnológica e industrial. Essa etapa terminou. Os Estados Unidos assumiram isso com o CHIPS and Science Act e a mobilização explícita de recursos públicos para reconstruir capacidade em semicondutores e controlar as exportações destes componentes. A União Europeia tenta avançar, com mais fricção interna, através do Net-Zero Industry Act.

Para o Brasil, a pergunta não é se devemos copiar o modelo chinês. A questão real é se estamos dispostos a admitir que, sem política industrial coordenada, sem estratégia de escalabilidade e sem reconhecer que a velocidade também importa, não há construção de soberania tecnológica possível.

Esta é a grande vantagem chinesa: a capacidade de seguir estratégias plenamente intencionadas e marcadas a longo prazo. Continuar negando essa realidade não nos torna mais virtuosos, nem mais liberais, nem mais competitivos. Torna-nos apenas menos relevantes no cenário tecnológico global que está sendo redesenhado neste exato momento.

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