Trump ataca. Há saída democrática?
Em resposta à guerra de Trump, Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania ocorrerá em Porto Alegre, em março. Reunirá partidos, organizações e movimentos para dialogar sobre as estratégias e iniciativas em cada um de nossos países
Publicado 15/01/2026 às 17:15

A invasão da América Latina através do bombardeiro do território venezuelano, com o sequestro de seu presidente e da primeira combatente, é a senha do governo norte-americano dizendo ao mundo que nunca teve qualquer apreço pela democracia. Logo depois, vieram as ameaças contra Colômbia, Cuba, Groelândia e agora, a saída de todos os espaços de diálogos multilaterais das Nações Unidas. É, inequivocamente, uma declaração de guerra contra toda América Latina.
Na verdade, essa atitude não é uma surpresa. O imperialismo sempre foi um instrumento do grande capital para dominar, explorar e empobrecer milhões de seres humanos, enriquecendo uma pequena minoria. Por décadas, essa dominação se deu através do controle das reservas de petróleo, do comércio internacional centrado no dólar, da hegemonia militar e tecnológica e de um arranjo de governança global tutelada através do sistema ONU.
A mudança da estratégia do império é a prova que o mundo mudou. Os avanços tecnológicos e econômicos da China alteraram a geopolítica global, abrindo uma janela para um mundo multipolar, diverso e, talvez, até mais democrático. Com um modelo econômico voltado a inclusão de milhões de pessoas, a experiência chinesa tem se mostrado uma alternativa eficaz e eficiente ao modelo capitalista neoliberal. Contraditoriamente, a China comunista, criou um capitalismo de estado, com enorme capacidade de atuação em todo planeta. Que pese a questão ambiental ter se incorporado somente nos últimos anos, sua concepção tem se demonstrado antagônica ao imperialismo norte-americano. Isto porque, apesar de sua supremacia econômica, militar e tecnológica, a China, pelo menos em relação a América Latina, não tem um comportamento de dominação, e tem buscado construir relações de respeito entre as nações baseadas na cooperação. A criação dos BRICS[1], uma iniciativa ousada e potente, é a prova real de que a China pretende construir uma liderança global multipolar sem os Estados Unidos. Frente a imposição deste novo cenário, o embate com os EUA era previsível e inevitável. Por isso, a quinada na estratégia norte-americana tem como principal motivação, não sua força, mas a decadência do modelo neoliberal na qual toda sua política se centraliza.
Neste novo contexto, os EUA têm duas armas poderosas. A primeira é, literalmente, seu poderio militar, capaz de fazer frente a qualquer conflito armado. Soma-se a sua capacidade bélica, a ausência de qualquer ética. Tenhamos certeza, em matéria militar eles praticam qualquer atrocidade, sem nenhum pudor. A outra arma, é a dominação político ideológica, em especial, nas sociedades da América Latina. Essa capacidade de dominação se intensificou com as redes sociais dominadas e instrumentalizadas pelas big techs norte-americanas e que estão nas mãos de praticamente todo cidadão e cidadã latino-americana. Criando suas próprias narrativas, organiza um exército interno, em cada um dos nossos países, pronto para agir contra a democracia.
A crise social e econômica decorrente do colapso neoliberal favorece a estratégia norte-americana que aposta num ambiente de barbárie, desestruturação social, crise institucional e deslegitimação dos Estados nacionais. Um ambiente onde a regra é a lei do mais forte, com a proliferação de grupos paramilitares ou milicianos, alimentando discursos de ódio, praticando violência contra a juventude negra, como ocorreu no Rio de Janeiro, contra as mulheres, comunidade LGBTQIAPN+ e, nos próprios EUA[2], através da violência do ICE contra imigrantes e nacionais. Neste cenário, o combate ao narcotráfico é mera narrativa visando dar alguma legitimidade social a tanta violação de direitos. Aliás, há poucos meses escrevi que o projeto imperialista é alimentar guerras civis em todos os países democráticos, desestabilizando sua institucionalidade e criando condições para uma dominação externa com baixos níveis de resistência. E essa mensagem está expressa em alto e bom som pelo Governo Trump em suas declarações oficiais, como aquela feita em início de dezembro de 2025 quando apresentou a “Nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA[3]”. Para nós, latino-americanos, o terrível é que estamos muito próximos ao colapso do império. Neste contexto, a pergunta é o que fazer?
Desde as primeiras edições do Fórum Social Mundial em Porto Alegre[4], as forças progressistas e democráticas do mundo denunciavam os limites das democracias burgueses capitalistas, indicando que era preciso a constituição de um outro marco referencial de democracia, mais participativa, popular e, principalmente, planetária, capaz de fazer frente a insanidade do neoliberalismo. Para construir uma transição democrática ao neoliberalismo, as organizações e movimentos sociais sempre defenderam a organização e mobilização massiva das nossas sociedades em prol de pautas de defesa da democracia participativa, da inclusão social, de controle do grande capital, dos direitos humanos e ambientais. Essas seguem sendo as armas contra a potência militar e a dominação ideológica norte-americana neste momento de agudização do conflito: organização e mobilização social.
Passados 25 anos do primeiro FSM, ainda estamos aqui, resistindo. A dominação só acontece quando nossos corpos e mentes cedem ao poder da força injusta, como se ela fosse invencível. E não é. A força mobilizadora das sociedades civis é capaz de deter o avanço do fascismo e do imperialismo. A América Latina é um território de paz, solidariedade e desenvolvimento social. Em 2026 haverá eleições em vários países latino-americanos, em especial, no Brasil, e o ambiente de instabilidade política e social é arma nas mãos daqueles que desejam acabar com a democracia e instalar um estado de dominação, medo e terror. Precisamos, como sociedade civil plural e diversa, construir um novo pacto com os partidos políticos de todos os matizes, na defesa do estado democrático de direito. Um novo pacto político entre sociedade e governos, para que, as verdadeiras democracias se levantem na defesa de sua autonomia, sua soberania, de seus territórios e de seu povo. A resistência deve ser nas ruas, com mobilizações massivas, em todas as cidades do continente. A América Latina precisa despertar e levantar-se agora.
Por mais que pareça que a ofensiva norte-americana é sinal de sua força, na realidade, ela representa o oposto. Por isso, precisamos criar mecanismos para que seja possível sobreviver a queda do império como indivíduos, coletivos, nações e como humanidade. Precisamos imaginar como podemos, sociedade civil e governos democráticos e progressistas de todo mundo, criar um ambiente para uma nova fase histórica da humanidade. Essa guerra militar, política e cultural não será vencida sem uma sociedade civil organizada, mobilizada e interconectada na defesa da dignidade e dos direitos de todos os seres humanos. Finalizo dizendo que a 1ª Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos[5] que ocorrerá em Porto Alegre, em março de 2026, será um importante momento de reunir os partidos, organizações e movimentos sociais e sociedade civil como um todo para dialogar sobre as estratégias e iniciativas em cada um de nossos países. A realidade nos chama à ação e, com certeza, estaremos à altura deste desafio.
Notas
[1] https://balanca.economia.gov.br/balanca/brics/brics.html
[2] https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/analise-morte-de-mulher-por-agente-do-ice-aumenta-tensao-politica-nos-eua/
[3] https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/eua-divulgam-nova-estrategia-de-seguranca-e-politica-externa-entenda/
[4] https://www.fsm.org.br/projects-2
[5] https://antifas2026.org/#programacao
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