Petróleo e as veias abertas da Venezuela
Nos últimos dez anos, a exportação do óleo venezuelano para os EUA caiu drasticamente. Mas um país passou a ser de longe o principal destino – e perigo à hegemonia do Império: a China, hoje o 8º maior produtor e o 2º que mais consome petróleo no mundo
Publicado 12/01/2026 às 17:04 - Atualizado 12/01/2026 às 17:05

Nunca um episódio foi tão adequado para parafrasear Eduardo Galeano, o escritor uruguaio, autor do livro clássico de 1971: As Veias Abertas da América Latina, particularmente nesse momento em que os Estados Unidos invadiram a Venezuela, sequestraram o presidente Nicolás Maduro – e sua esposa, Cilia Flores – sendo ambos acusados, levados para o território norte-americano e indiciados por “conspiração para narcoterrorismo”, “conspiração para importação de cocaína”, “posse de metralhadoras e dispositivos explosivos”, além de “conspiração para a posse desses armamentos com o objetivo de atentar contra os Estados Unidos”, mesmo com a revisão ou recuo da acusação em alguns dos crimes imputados a Maduro.
Não debateremos aqui o absurdo presente no processo judicial em questão, muito menos como se deu a operação militar norte-americana na Venezuela, em flagrante desrespeito ao Direito Internacional e à soberania das nações, e nem mesmo as ações que ainda permanecem em curso, pois a intenção inicial dos EUA era, nas palavras de Donald Trump, “governar o país [run the country, em inglês] até o momento em que possamos fazer uma transição segura, apropriada e justa” (sic), mas como quase tudo dito no Governo Trump ou é um paradoxo ou muda rapidamente, disse ele: “Vamos ficar até que uma transição apropriada seja feita. Vamos governar direito e vamos fazer muito dinheiro.”1 (grifamos)
Esse artigo não tem por objetivo uma análise de geopolítica, temática a ser tratada por especialistas da área, mas nosso argumento é que na economia encontraremos boa parte das respostas para a ação articulada, empreendida e impetrada pelos norte-americanos no país vizinho.
Nesses termos, a resposta pode estar na afirmação: “It’s the economy, stupid” (É a economia, idiota), escrita como uma pequena variação da frase “The economy, stupid” (A economia, idiota), cunhada em 1992 por James Carville, estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton contra George H. W. Bush, presidente dos Estados Unidos na época.2
De alguma forma nosso entendimento é que ao desvendar minimamente o chamado mundo do petróleo, poderemos entender as razões que levaram os EUA a invadirem a Venezuela, sequestrarem o presidente daquele país e se apossarem de sua maior riqueza mineral, ou seja: a maior reserva de petróleo do mundo!
Um primeiro olhar sobre a produção de petróleo mundial (Tabela 1) permite atestar que os EUA possuem a maior produção de petróleo do mundo, com produção superior aos 20 milhões de barris por dia (mb/d) e uma participação global de 21%, com crescimento de 61,4% no período considerado (2015/2025). Na sequência, observamos que Brasil, Irã e Canadá foram as nações que apresentaram as maiores taxas de crescimento na sua produção, sendo: 53,8%; 42,9%; e 44.2%, respectivamente. Destaque-se, ainda, que ao considerar o conjunto de países listados abaixo, os membros da OPEP representam em torno de 1/3 da produção mundial de petróleo.
Tabela 1 – Produção Mundial de Petróleo – 16 Maiores Produtores (2015 – 2025)
Unidade: milhões de barris por dia (mb/d)
| Rank | País | Produção 2015 (mb/d) | Produção 2025 (mb/d)* | Crescimento 2015–2025 (%) | Participação Global 2025 (%) |
| 1º | Estados Unidos | 12,7 | 20,5 | +61,4% | ~21,0% |
| 2º | Arábia Saudita (OPEP)** | 10.2 | 10,8 | +5,9% | ~11,0% |
| 3º | Rússia | 10.9 | 10.6 | –2,8% | ~10,8% |
| 4º | Canadá | 4.3 | 6.2 | +44.2% | ~6.3% |
| 5º | Irã (OPEP) | 3.5 | 5.0 | +42,9% | ~5,1% |
| 6º | Iraque (OPEP) | 4.1 | 4.6 | +12,2% | ~4.7% |
| 7º | EAU*** (OPEP) | 3.5 | 4.2 | +20,0% | ~4.3% |
| 8º | China | 4.3 | 4.1 | –4,7% | ~4.2% |
| 9º | Brasil | 2.6 | 4.0 | +53,8% | ~4,1% |
| 10º | Kuwait (OPEP) | 2.9 | 2.8 | –3.4% | ~2.9% |
| 11º | Noruega | 2,0 | 2.1 | +5,0% | ~2.2% |
| 12º | México | 2.6 | 1.9 | –26,9% | ~2,0% |
| 13º | Cazaquistão | 1.7 | 2.0 | +17.6% | ~2.0% |
| 14º | Qatar**** | 1,5 | 1,8 | +20,0% | ~1,8% |
| 15º | Nigéria (OPEP) | 1.9 | 1.6 | –15,8% | ~1.6% |
| 16º | Argélia (OPEP) | 1.5 | 1.4 | –6.7% | ~1.4% |
| — | Outros | ~26.0 | ~30.0 | — | ~14,6% |
Fonte: Energy Institute – Statistical Review of World Energy 2025; U.S. Energy Information Administration (EIA).
Nota Metodológica: valores consolidados e aproximados, incluindo petróleo convencional e não convencional. Dados compilados a partir de relatórios internacionais de petróleo e energia (2015–2025), incluindo estimativas consolidadas de produção anual. Os valores são aproximados e sujeitos a revisões anuais. Podem ocorrer variações por mudanças metodológicas, revisões estatísticas e diferenças entre produção de petróleo bruto, condensados e líquidos de gás natural.
(*) 2025 = estimativas consolidadas (Energy Institute / EIA).
(**) Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Em conjunto, os membros da OPEP representam aproximadamente 31,0% da produção mundial de petróleo, incluindo: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Irã, Kuwait, Venezuela, Argélia, Angola, Congo, Guiné Equatorial, Gabão e Nigéria. A produção apresentada reflete os volumes nacionais totais.
(***) Emirados Árabes Unidos—em inglês, a sigla é UAE (United Arab Emirates).
(****) O Quatar encerrou sua filiação à OPEP em 2019.
O Gráfico a seguir traz indicação relevante quanto ao comportamento consistente da retomada da produção de petróleo pelos EUA, a partir de 2017, mas particularmente a partir do início deste século.

Os EUA têm a maior produção de petróleo do mundo (em torno de 21%). Ao analisarmos o consumo dessa produção mundial, por países (Tabela 2), observaremos que os EUA são os que mais produzem (~21,0%) e os que mais consomem petróleo no mundo (19,4%). O destaque, no entanto, é a China que sendo apenas o 8º maior produtor (~4.2%) é, agora, o segundo país que mais consome petróleo no mundo (16,3%). A título de complemento desta breve análise, cabe destacar que os demais países não listados na Tabela 2 representam mais de 1/4 do consumo global de petróleo (25,7%).
Certamente reside no debate em torno das reservas mundiais de petróleo o cerne do debate em pauta, particularmente após a invasão norte-americana na Venezuela. Ainda não restaram suficientemente claros os próximos passos dos EUA (e suas empresas petrolíferas presentes na Venezuela), mas é no destino da produção e das exportações do petróleo da Venezuela que encontraremos as respostas que hoje buscamos.
Tabela 2 – Consumo Mundial de Petróleo – 16 Maiores Consumidores (2015 vs. 2025 estimado)
Unidade: milhões de barris por dia (mb/d)
| Rank | País | Consumo 2015 (mb/d) | Consumo 2025 (mb/d)* | Crescimento 2015–2025 (%) | Participação Global 2025 (%) |
| 1º | Estados Unidos | ~19,0 | ~20,6 | +8,4% | 19,4% |
| 2º | China | ~12,9 | ~17,3 | +34,1% | 16,3% |
| 3º | Índia | ~4,5 | ~5,8 | +28,9% | 5,5% |
| 4º | Japão | ~4,2 | ~3,7 | −11,9% | 3,5% |
| 5º | Arábia Saudita | ~3,8 | ~3,9 | +2,6% | 3,7% |
| 6º | Rússia | ~3,1 | ~3,9 | +25,8% | 3,7% |
| 7º | Brasil | ~2,8 | ~2,6 | −7,1% | 2,4% |
| 8º | Coreia do Sul | ~2,6 | ~2,6 | 0% | 2,4% |
| 9º | Canadá | ~2,4 | ~2,5 | +4,2% | 2,3% |
| 10º | Alemanha | ~2,5 | ~2,3 | −8,0% | 2,1% |
| 11º | França | ~1,8 | ~1,7 | −5,6% | 1,6% |
| 12º | México | ~1,9 | ~2,0 | +5,3% | 1,9% |
| 13º | Indonésia | ~1,8 | ~1,9 | +5,6% | 1,8% |
| 14º | Reino Unido | ~1,7 | ~1,6 | −5,9% | 1,5% |
| 15º | Itália | ~1,6 | ~1,5 | −6,3% | 1,4% |
| 16º | Tailândia | ~1,5 | ~1,6 | +6,7% | 1,5% |
| — | Outros países | — | ≈ 27,3 | — | ≈ 25,7% |
| — | Total Mundial (2025) | — | ≈ 106,3 | — | 100% |
Fontes: Energy Institute / BP Statistical Review of World Energy – séries históricas de consumo por país [2015: histórico]; e OPEC Monthly Oil Market Report (MOMR), World Oil Outlook; IEA Oil Market Report & outlooks; U.S. EIA STEO / global oil demand trends; Reuters / Bloomberg sínteses setoriais [2025: estimativas].
Observação metodológica: Os valores de 2025 são estimativas de demanda por país, não dados consolidados finais. Pequenas diferenças podem ocorrer entre fontes.
Tabela 3 – Reservas Provadas de Petróleo – 10 Maiores Países (2015 – 2025)
| Rank | Países | Gb – bi de barris (2015) | Estimativas (2025) | Cresc. % (2015/2025) | Participação % (2025) |
| 1º | Venezuela (OPEP)* | 300,9 | 303,8 | +0,9% | 17,36% |
| 2º | Arábia Saudita (OPEP) | 266,5 | 297,5 | +11,6% | 17,00% |
| 3º | Irã (OPEP) | 157,8 | 208,6 | +32,2% | 11,92% |
| 4º | Canadá | 171,0 | 168,1 | -1,7% | 9,61% |
| 5º | Iraque (OPEP) | 143,1 | 145,0 | +1,3% | 8,29% |
| 6º | EAU (OPEP)** | 97,8 | 113,0 | +15,5% | 6,46% |
| 7º | Kuwait (OPEP) | 101,5 | 101,5 | 0,0% | 5,80% |
| 8º | Rússia | 102,4 | 80,0 | -21,8% | 4,57% |
| 9º | EUA | 43,8 | 68,8 | +57,1% | 3,93% |
| 10º | Brasil | 13,0 | 15,1 | +16,1% | 0,86% |
| 11º | Outros Países | – | 148,6 | – | 14,20% |
| – | Total Mundial | – | 1.750,0 | – | 100,0% |
Fonte: OPEC Annual Statistical Bulletin 2025 & Energy Institute.
(*) Organização dos Países Exportadores de Petróleo. A OPEP detêm 71,71% das reservas mundiais.
(**) Emirados Árabes Unidos—em inglês, a sigla éUAE (United Arab Emirates).
Tabela 4 –Exportações mundiais de petróleo e principais destinos (2015 – 2025)
Unidade: Milhões de barris por dia (mb/d) – 2015 e 2025
| 2015 | 2025* |
| 1º Arábia Saudita (OPEP) ≈ 7,3 • China — ≈ 1,0 • Japão — ≈ 1,0 2º Rússia (OPEP+) ≈ 4,9 • Europa (UE) — ≈ 3,3 • China — ≈ 0,6 3º Iraque (OPEP) ≈ 3,1 • China — ≈ 0,8 • Índia — ≈ 0,7 4º Canadá ≈ 2,8 • Estados Unidos — ≈ 2,6 • Europa — ≈ 0,1 5º Emirados Árabes Unidos (OPEP) ≈ 2,6 • Japão — ≈ 0,8 • China — ≈ 0,5 6º Nigéria (OPEP) ≈ 2,1 • Europa — ≈ 0,8 • Estados Unidos — ≈ 0,5 7º Angola (OPEP) ≈ 1,8 • China — ≈ 0,9 • Índia — ≈ 0,3 8º Venezuela (OPEP) ≈ 1,7 • Estados Unidos — ≈ 0,7 • China — ≈ 0,4 9º Cazaquistão (OPEP+) ≈ 1,4 • Europa — ≈ 1,0 • China — ≈ 0,2 10º Noruega ≈ 1,4 • Reino Unido — ≈ 0,5 • Países Baixos — ≈ 0,4 | Arábia Saudita (OPEP): 7,0 mb/d • 1º Destino: China (1,75 mb/d) • 2º Destino: Japão (1,05 mb/d) Rússia (OPEP+): 4,6 mb/d • 1º Destino: China (2,20 mb/d) • 2º Destino: Índia (1,60 mb/d) Iraque (OPEP): 3,8 mb/d • 1º Destino: China (1,10 mb/d) • 2º Destino: Índia (1,05 mb/d) Estados Unidos: 3,7 mb/d • 1º Destino: Holanda (0,85 mb/d) • 2º Destino: Coreia do Sul (0,60 mb/d) Canadá: 1,8 mb/d • 1º Destino: EUA (0,90 mb/d) • 2º Destino: China (0,50 mb/d) Brasil: 1,7 mb/d • 1º Destino: China (0,80 mb/d) • 2º Destino: EUA (0,25 mb/d) Noruega: 1,6 mb/d • 1º Destino: Reino Unido (0,70 mb/d) • 2º Destino: Países Baixos (0,50 mb/d) Angola (OPEP): 1,5 mb/d • 1º Destino: Índia (0,70 mb/d) • 2º Destino: China (0,50 mb/d) Líbia (OPEP): 1,4 mb/d 1º Destino: Itália (0,60 mb/d) 2º Destino: Espanha (0,40 mb/d) Omã (OPEP+): 1,2 mb/d • 1º Destino: China (0,60 mb/d) • 2º Destino: Índia (0,40 mb/d) |
Fontes: (2015) CIA World Factbook – Crude Oil Exports (2015 est.); OPEC Annual Statistical Bulletin 2016 (dados de 2015); e IEA Oil Market Reports (2016 retrospective sections); e (2025) Kpler, Vortexa, OPEC MOMR 2026.
(*) Volumes de exportação são estimativas baseadas em dados consolidados de plataformas comerciais e relatórios internacionais. As estimativas refletem médias anuais de 2025 e podem variar conforme condições do mercado e dados atualizados. As estimativas presentes nos dados coletados estão apresentadas em mb/d (milhões de barris por dia). Os valores referentes a 2015baseiam-se em dados históricos consolidados, enquanto os números de 2025 resultam de estimativas (construídas nas fontes indicadas a partir de rastreamento marítimo e outras informações preliminares de mercado). As estatísticas incluem petróleo bruto e condensados, mas excluem derivados. Importante notar que exportação não equivale a produção total, já que parte significativa do petróleo produzido é consumida internamente por muitos países. Os países foram classificados com base no volume exportado em 2025 (estimado), e os principais destinos correspondem aos maiores compradores individuais de cada exportador. Como os valores são arredondados, pequenas diferenças podem ocorrer na soma total. Por fim, cabe destacar que os dados para 2025 permanecem sujeitos a revisão à medida que novas bases estatísticas forem consolidadas e o acompanhamento de mercado for atualizado.
Nesses termos, a questão central aqui considerada reside no destino do petróleo dos países exportadores. Como esperado, a China se constitui hoje (2025) em um dos principais destinos do petróleo explorado e vendido pelas diversas nações exportadoras, como se observa na Tabela 4. É também possível observar que entre 2015 e 2025 as exportações mundiais de petróleo estão concentradas em dez países. Em 2015, esse grupo respondia por aproximadamente 61,2% do total global exportado. Já para 2025, as estimativas indicam que a participação conjunta do “Top 10” fica em torno de 66,6% do volume mundial. Referida centralização do comércio internacional de petróleo, entre outros aspectos, pode ser explicada: (i) pela consolidação dos EUA como exportador relevante após 2015, tendo como estimativa um volume de exportação de petróleo de 3,7 mb/d em 2025; (ii) crescimento das exportações do Iraque (3,8 mb/d); e (iii) o papel persistente dos países da OPEP e da OPEP+3 nos mercados mundiais.
Tabela 5 – Venezuela – Exportações de petróleo e principais destinos (2015/2025)
(Unidade: milhões de barris por dia — mb/d)
| 2015 | 2025 |
| Total Exportado (2015): ~1,5 a 1,8 mb/d 1º Destino: EUA (~0,80 mb/d) 2º Destino: Índia (~0,30 mb/d) Obs.: China também relevante: ≈ 0,20–0,30 mb/d) | Total Exportado (2025): ~1,0 a 1,2 mb/d 1º Destino: China (estimado em 0,40 mb/d) 2º Destino: EUA (estimado em 0,30 mb/d) Obs.: China responde por 60–70% em vários meses) |
Fontes: 2015 – U.S. Energy Information Administration (EIA) — Venezuela crude oil exports by destination (historical series); OPEC Annual Statistical Bulletin (edições históricas); e Compilações setoriais – IEA / BP / mercado (para 2015); e Rastreamento de embarques (AIS) — Kpler, Vortexa; Reuters / Bloomberg Energy desk; OPEC MOMR (2025–2026); Relatórios de mercado sobre retomada parcial de exportações aos EUA (estimativas para 2025).
A Tabela 5 traz aspectos fundamentais para o debate:
- primeiro, como a Venezuela já mantinha uma presença significativa no mercado global de petróleo em 2015 [entre 1,5 e 1,8 milhões de barris por dia (mb/d)], tendo os Estados Unidos e a Índia como seus principais compradores, mas tendo a China como destino relevante já naquele ano; e
- segundo, que a alteração de destino do petróleo venezuelano em 2025 (passando a China a ser o principal destino com 0,4 mb/d), revela uma inversão que ocorre juntamente com a redução do envio de petróleo venezuelano para os EUA. Aliás, destaque-se que tal fato revela uma substancial redução (de ~0,8 mb/d para 0,3 mb/d) nos dando uma primeira pista das razões para entendermos a atual crise que resultou na operação militar que levou à prisão de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela.
Dados da OPEC Annual Statistical Bulletin & Reuters Oil Research permitem um olhar ainda mais específico na comparação entre os EUA e China como destino do petróleo venezuelano, como se pode observar na Tabela 6, ratificando que não é de hoje que se trava uma luta pelo petróleo venezuelano e, os dados indicam, a queda na participação dos EUA na aquisição do volume exportado pela Venezuela, particularmente para a China (em torno de meio milhão de barris/dia). Esse pode ter sido o estopim para o que estamos assistindo.
Tabela 6 – Fluxo de Exportação de Petróleo da Venezuela para EUA e CHINA (2015 – 2025)
| Destino da exportação | 2015 | 2025 (estimativas) |
| EUA | 0,78 mb/d (41,1%) | 0,18 mb/d (24,0%) |
| CHINA | 0,52 mb/d (27,4%) | 0,48 mb/d (64,0%) |
FONTE: OPEC Annual Statistical Bulletin & Reuters Oil Research.
A título de conclusão
Em um cenário no qual a questão central é o comércio internacional, destacamos que os EUA, há muito, vêm deixando de ser a principal “fábrica do mundo”, posto agora ocupado pelos asiáticos, comandados pela China (sem mencionar determinados nichos, como o da aviação, em que o Brasil também passou a disputar mercados). Ganha relevo a decisão anunciada por um dos assessores de Donald Trump, de obrigar a Venezuela a comprar exclusivamente produtos estadunidenses, fato que denuncia e explicita a perda de espaço dos produtos norte-americanos no comércio internacional. Há riscos de o método utilizado na Venezuela ser extensivo a outras partes do mundo. Um dos alvos principais dos EUA são os acordos comerciais e financeiros dos membros dos BRICS4, das ações implementadas pelo Banco dos BRICS, particularmente do novo sistema de compensações financeiras que virá substituir o SWIFT5, assunto para um outro momento.
Uma espécie de ministro das Minas e Energia dos EUA, o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, pontuou após a invasão que o governo americano quer “vender o petróleo venezuelano e depositar o dinheiro em contas controladas pelos EUA” (grifamos), ressaltando que a intenção é direcionar parte desse óleo para o mercado doméstico.6 Não se trata de irmos muito mais fundo nas declarações do Secretário de Energia, que acrescentou: “… o governo dos EUA quer vender petróleo venezuelano para refinarias americanas e também colocar o petróleo da Venezuela no mercado global”. Não parece restarem dúvidas quanto ao fato de que o domínio sobre o petróleo venezuelano é a resposta norte-americana à perda de hegemonia no comércio mundial. O secretário Chris Wright ainda destacou que o controle das vendas é visto como instrumento de pressão política. Parafraseando o jornalista Guga Chacra: “Na prática, Trump está dizendo que a Venezuela é dele”.7
Ninguém aqui é estúpido ou idiota! Sabemos que por trás dos dados apresentados – quase à exaustão – está a mais dura e cruel realidade: diante do multilateralismo alardeado como ideal no mundo da diplomacia, aos norte-americanos interessa uma hegemonia mundial perdida ao longo dos anos, e que se desmorona frente à realidade dos fatos, como resultado de um progresso tecnológico8 não mais acompanhado pelos EUA e a perda de competitividade de parte dos produtos norte-americanos no comércio internacional.
As consequências econômicas do cenário descrito para os norte-americanos se fazem sentir no dia a dia, em razão do acirramento da competição pelos mercados mundo a fora e na perda de tais mercados. Já no início do seu atual mandato, Trump foi levado (sic) a fazer política econômica via implementação de elevadas taxas sobre os mais variados produtos, dos mais distintos países com os quais possui relações comerciais.9
Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, afirmou logo após a invasão à Venezuela: “Este é nosso hemisfério”. E complementou: “Esta é a nossa região. É aqui que vivemos — e não vamos permitir que ela seja usada contra nossos interesses”.10 A intenção está explicitada: impedir que o petróleo venezuelano seja destinado aos chineses, quiçá aos russos e outros mais. Este é o desejo de um império, que aparentemente vem se desmanchando ao longo do tempo, e se explicita no grito de uma velha águia cujas penas não tem o mesmo brilho do pós-guerra, mas que precisa enfrentar dragões, ursos e outros bichos que povoam o planeta.
Diante de palavras que buscam obscurecer a realidade, todos devemos estar plenamente cientes dos fatos e do que provavelmente James Carville diria ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio: É a economia, idiota!
Referências
GUIMARÃES, A.O. Do mercantilismo à pós-globalização (11/04/2025). In https://aterraeredonda.com.br/do-mercantilismo-a-pos-globalizacao/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novas_publicacoes&utm_term=2026-01-07
VIOTTI, E.B. Teoria Econômica, Desenvolvimento e Tecnologia – uma introdução (pp. 9-22). In VIOTTI, E.B. et al. Dimensão econômica da inovação. Brasília: SEBRAE, 1997.
Notas:
1 Ver https://exame.com/mundo/trump-diz-que-eua-vao-governar-venezuela-mas-deixa-questoes-em-aberto/
2 Ver https://pt.wikipedia.org/wiki/It%27s_the_economy,_stupid
3 A OPEP+ é formada por uma combinação de membros oficiais da OPEP e países aliados não membros da OPEP. No total, o grupo tem cerca de 23 países, incluindo: Membros da OPEP (13 países): Arábia Saudita; Iraque; Irã; Kuwait; Emirados Árabes Unidos; Venezuela; Nigéria; Líbia; Argélia; Guiné Equatorial; República do Congo; Gabão; Angola (algumas listas incluem Angola; a participação atual depende de decisões da OPEP) e países não membros da OPEP que fazem parte da OPEP+: Rússia; Cazaquistão; Azerbaijão; México; Omã; Bahrein; Brunei; Malásia; Sudão; Sudão do Sul. O Brasil participa de um fórum de cooperação associado à OPEP+ (Charter of Cooperation)— um espaço de diálogo e troca de visões entre grandes produtores, sem as obrigações de corte de produção típicas de membros plenos.
4 Atualmente, o BRICS é composto por onze países membros: seus cinco membros originais – África do Sul, Brasil, China, Índia e Rússia -, e os seis novos membros admitidos em 2024-25 – Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. O agrupamento foi primeiramente composto por Brasil, Rússia, Índia e China em 2006; a África do Sul aderiu em 2011; a nova expansão, efetivada em 2024, derivou de mandato da Declaração de Joanesburgo, de agosto de 2023. In https://brics.br/pt-br/sobre-o-brics
5 A Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais (SWIFT), legalmente S.W.I.F.T. SC, é uma cooperativa estabelecida em 1973 na Bélgica (francês: Société Coopérative) e pertencente aos bancos e outras empresas membros que utilizam seu serviço. A SWIFT fornece a principal rede de mensagens através da qual os pagamentos internacionais são iniciados. In https://en.wikipedia.org/wiki/SWIFT .
6 Ver https://www.msn.com/pt-br/noticias/brasil/eua-querem-vender-petróleo-da-venezuela-e-controlar-recursos-diz-secretário-de-energia-americano/ar-AA1TKGn5?ocid=msedgntp&pc=U531&cvid=695e875424a54d35919e8b34a0608cda&ei=27 .
7https://www.bing.com/videos/riverview/relatedvideo?q=Guga%20Globo%20News%20Venezuela&mmscn=stvo&mid=21A078E8D8BA0463D80321A078E8D8BA0463D803&ajaxhist=0 .
8 VIOTTI, E.B. Teoria Econômica, Desenvolvimento e Tecnologia – uma introdução (pp. 9-22). In VIOTTI, E.B. et al. Dimensão econômica da inovação. Brasília: SEBRAE, 1997.
9 GUIMARÃES, A.O. Do mercantilismo à pós-globalização (11/04/2025). In https://aterraeredonda.com.br/do-mercantilismo-a-pos-globalizacao/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novas_publicacoes&utm_term=2026-01-07.
10 https://www.metropoles.com/mundo/este-e-nosso-hemisferio-diz-rubio-apos-acao-dos-eua-na-venezuela.
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