Futebol e a luta por outros mundos possíveis
Obra da editora sobinfluencia reúne a rica produção textual zapatista dedicada ao esporte. Escritos revelam como a prática se relaciona com a autonomia do movimento e fortalece o engajamento político. Leia, com exclusividade, um trecho. Sorteamos um exemplar
Publicado 25/02/2025 às 19:24

Quem apoia o jornalismo de Outras Palavras garante 25% de desconto no site da sobinfluencia edições. Faça parte da rede Outros Quinhentos em nosso Apoia.se e acesse as recompensas!
Desde o levante de 1994, no estado mexicano de Chiapas, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) tem sido um símbolo de resistência e de criatividade na busca por novos modos de existência, nos quais a política se faz de maneira coletiva, horizontal e profundamente enraizada na cultura local.
Ao longo das últimas três décadas, o movimento zapatista vem compartilhando sua proposta de autonomia, autossuficiência e resistência à opressão imposta pelos sistemas neoliberais e excludentes.
Dentre suas práticas, figura o futebol como uma ferramenta simbólica para, de maneira coletiva, expressar e aprofundar seus ideais.

O livro Rostos cobertos, corações à mostra: futebol, autonomia e luta zapatista, organizado pelo historiador Micael Zaramella, e coeditado pela editoras sobinfluencia e Autonomia Literária, surge como uma coletânea que nos permite explorar essa fascinante relação entre futebol e política no movimento zapatista.
Outras Palavras e sobinfluencia edições sortearão 1 exemplar de Rostos cobertos, corações à mostra: futebol, autonomia e luta zapatista, organizado por Micael Zaramella, entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 10/3, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!
A obra reúne textos escritos pelos próprios zapatistas, como correspondências do Subcomandante Marcos endereçadas a Eduardo Galeano; histórias de partidas disputadas em comunidades zapatistas; além de narrar o intercâmbio dos indígenas do estado mexicano de Chiapas com o clube FC Internazionale de Milão.
O livro revela como o futebol se torna um terreno fértil para a invenção de novos sentidos políticos. Em suas páginas, a prática não é apenas um esporte, mas uma linguagem que expressa a luta contra as desigualdades, contra as imposições externas e contra a alienação.
Nas montanhas de Chiapas, conforme narrado pelos zapatistas, o campo aberto é o cenário onde se forjam estratégias de resistência, onde se praticam valores como a solidariedade, a cooperação e a luta contra o inimigo mais poderoso: a opressão do capital.
Aqui, o jogo de futebol é comparado a uma batalha, onde os zapatistas enfrentam forças aparentemente mais poderosas, mas sempre com a convicção de que a resistência, a habilidade de lutar juntos e a força da coletividade podem inverter o jogo e criar novas possibilidades.
Além disso, o livro também demonstra como o futebol se conecta a outras formas de cultura e resistência, como a música. Referências a cumbias mexicanas, ska mestizo e outras canções latino-americanas criam uma sonoridade que impregna as narrativas e torna a luta zapatista ainda mais vívida e vibrante.
Ao revisitar a luta zapatista por meio do esporte, é possível perceber como movimentos de resistência podem se articular de maneiras criativas, trazendo novas formas de pensar a solidariedade, a justiça e a autonomia, criando outros mundos possíveis.
Leia, logo abaixo, um trecho da obra. Boa leitura!
ZAPATISTAS QUE JOGAM BOLA
E OUTROS MUNDOS POSSÍVEIS
Em 1º de janeiro de 1994, cerca de 2 a 3 mil zapatistas se le vantaram em armas e tomaram sete municípios do estado de Chiapas, no México. Apresentando suas demandas na Declaração da Selva Lacandona – organizada fundamentalmente em torno de “trabalho, terra, abrigo, alimentação, saúde, educação, independência, liberdade, democracia, justiça e paz” [1] – naquele momento o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) apresentava-se abertamente ao resto do mundo, após mais de dez anos de construção e organização articulada entre as comunidades indígenas chiapanecas.
Esse longo processo, iniciado em 1983 entre os distintos agrupamentos e agentes políticos que investiram na criação do EZLN, produziu uma organização política militarizada primordialmente indígena. [2] De suas demandas, contextualmente organizadas em torno da questão fundiária, originaram-se os impulsos para o levante armado realizado em 1994, no mesmo dia em que entrava em vigor o Tratado de Livre Comércio da América do Norte, assinado pelo presidente mexicano Salinas de Gortari com o governo dos Estados Unidos.
Trinta anos depois, os desdobramentos desse levante são múltiplos, e colecionam sentidos simbólicos e materiais. As situações de confronto, diálogo e negociação com as instâncias governamentais mexicanas oscilaram nos momentos imediatamente posteriores ao levante, ao mesmo tempo que os zapatistas propunham que se repensasse o problema do poder e se formulasse uma nova cultura política. Nesse processo, a criação de canais de diálogo com a sociedade civil mexicana e internacional colaborou para o fortalecimento e a defesa da experiência autônoma levada a cabo pelos zapatistas em seus territórios em Chiapas. Até 1997, contornos mais nítidos dessa autonomia política se expressaram na criação dos Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas (Marez) e na criação de instituições como escolas e clínicas de saúde zapatistas; em 2003, por sua vez, as escalas geográficas da estrutura política zapatista passaram a se delinear com maior clareza em três níveis: comunitários, municipais e regionais, nos quais as decisões provinham de assembleias orientadas pelo princípio zapatista do “mandar obedecendo”. Os caracóis, que aludem, em sua nomenclatura, ao movimento lento e vagaroso, mas que não deixam de avançar, definiram-se enquanto espaços de encontro político e cultural localizados em cada uma das zonas zapatistas. [3]
Em fins de 2023, uma série de transformações dos aspectos organizacionais e simbólicos do zapatismo incluíram a extinção dos Marez, o fechamento dos caracóis à população externa por tempo indeterminado (o que já ocorrera em outras ocasiões, convém mencionar) e a morte simbólica da figura porta-voz do EZLN, o Subcomandante Insurgente Galeano (ex-Subcomandante Marcos), que ressurgiria, dessa vez, como Capitán Insurgente Marcos. O zapatismo demonstrava, às vésperas do aniversário de trinta anos do levante de 1994, que segue vivo, em movimento e que, aparentemente, também vislumbra na efeméride uma ocasião fecunda para proposições políticas. Os componentes dessa reformulação estrutural foram progressivamente apresentados em uma série de comunicados, emitidos através do portal Enlace Zapatista e rapidamente difundidos através das redes.
No quinto comunicado, intitulado Ahí va el golpe, joven, Marcos apresenta uma série de irônicos comentários supostamente proclamados pelas profundas análises e investigações de “zapatólogos”, que estariam sentenciando a morte do zapatismo. Entre os vários sintomas de uma presumida descaracterização, menciona-se:
Nada mais falta para que as indígenas jovens usem calças, ou até mesmo, que horror!, joguem futebol e dirijam carros, ao invés de servir nas senhoras colheitas. Inclusive, que se atrevam a dançar cumbias e ska ao invés do bolonchon, [4] e cantar rap e hip-hop ao invés de salmos e odes aos agricultores. [5]
Nas páginas que se seguem, iremos nos aproximar de algumas das múltiplas experiências que enredam o futebol ao cotidiano zapatista. Aquilo que se reafirma no quinto comunicado encontra escopo no conjunto destas experiências e relatos: ao longo dos trinta anos transcorridos desde o levante de 1994, a autonomia zapatista se alimentou permanentemente de interações com os componentes culturais mais vivos que circulam entre as populações indígenas que habitam seus territórios. Jogar e pensar o futebol se apresenta como um desses elementos – assim como dançar cumbia ou cantar rap, como veremos. De tal maneira, nossa intenção neste livro é costurar a várias mãos a possibilidade de pensar e experimentar – conforme a imaginação dos textos zapatistas nos convoca – outros mundos possíveis a partir do jogo.
A estrutura do presente volume, composto maciçamente pela seleção de textos assinados pelo ex-Subcomandante Marcos (e ex-Galeano), se estrutura em quatro blocos de sucessão cronológica, mas que também definem seus contornos ao redor de personagens, eventos ou temáticas mais ou menos específicas. No primeiro bloco, quatro textos publicados entre 1996 e 1998 apresentam as primeiras referências ao futebol mobilizadas por esta escrita. O bloco se inicia com uma correspondência dirigida ao escritor uruguaio Eduardo Galeano, notabilizado por sua sensibilidade dirigida às lutas sociais na América Latina, bem como por seu profundo interesse por futebol (do qual deriva o clássico Futebol ao sol e à sombra, [6] além de outros textos compilados em volumes póstumos). [7] Nessa carta, o Subcomandante Marcos nos apresenta o personagem Olivio, que, sempre acompanhado de sua bola, reaparece em outros escritos como protagonista ou coadjuvante. Temas como as condições do debate político mexicano no contexto, as posições do EZLN frente a essa conjuntura, a interlocução zapatista com a sociedade civil e a Copa do Mundo de 1998 são explorados na construção dos demais textos do bloco, já caracterizados nesse primeiro momento pela peculiar costura entre denúncias políticas, narrativas anedóticas e linguagem formal e coloquial, em uma combinação que caracterizaria ao longo de três décadas a prosa singular de Marcos-Galeano-Marcos.
Outras Palavras e sobinfluencia edições sortearão um exemplar de Rostos cobertos, corações à mostra: futebol, autonomia e luta zapatista, organizado por Micael Zaramella, entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 10/3, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!
No segundo bloco, nos debruçamos especificamente sobre uma partida ocorrida em 15 de março de 1999, no Estádio Jesús “Palillo” Martínez (Cidade do México), entre uma equipe de ex-futebolistas mexicanos e uma delegação do EZLN. A realização da partida, organizada pelo ex-jogador Javier “Vasco” Aguirre, vinculava-se a uma série de atividades organizadas junto à Consulta pelo Reconhecimento dos Direitos dos Povos Indígenas e Pelo Fim da Guerra de Extermínio. Essa campanha integrava um conjunto de iniciativas zapatistas para pressionar o cumprimento dos Acordos de San Andres, firmados em 1996 com o governo mexicano em torno das demandas indígenas por autonomia. [8] O episódio se tornou o primeiro acontecimento futebolístico zapatista de maior alcance midiático, especialmente porque os zapatistas disputaram a partida com os rostos cobertos por seus tradicionais pasamontañas, utilizando chuteiras emprestadas. Embora os dois textos do bloco se debrucem especialmente sobre o processo de organização da Consulta, também referenciam a partida em comentários preliminares e póstumos à sua realização: sobre o resultado final (5 a 3 para a equipe capitaneada por Aguirre), o bem humorado Subcomandante Marcos comenta que “não perdemos, nos faltou tempo para vencer”.
O episódio que estrutura o terceiro bloco, por sua vez, corresponde ao mais conhecido vínculo estabelecido entre o EZLN e a esfera futebolística: em 2005, uma troca de correspondências entre o Subcomandante Marcos e o presidente do clube italiano A.C. Internazionale Milano, Massimo Moratti, balizou a criação de um laço insólito entre uma experiência autônoma, indígena e contra-hegemônica e um clube de destaque do futebol profissional europeu. Os componentes dessa aproximação incluíram convites zapatistas para a realização de amistosos, posicionamentos favoráveis proclamados por atletas interistas – como o capitão argentino Javier Zanetti – e visitas oficiais de delegações do clube aos territórios zapatistas em Chiapas. Embora nenhuma partida tenha efetivamente ocorrido, os dois textos reunidos nesse bloco expressam a imaginação política zapatista diante de sua possibilidade. Na primeira carta, destaca-se a bem-humorada referência de Marcos ao fato de que todas as bolas em território zapatista estariam furadas, razão pela qual os interistas deveriam levar bolas adequadas para a realização do eventual amistoso. Ainda que isso nunca tenha acontecido, a delegação que visitou Chiapas em 2005 efetivamente levou bolas novas, entre outros equipamentos esportivos que foram doados às comunidades.
O quarto bloco da compilação, intitulado “Outros calendários, outras geografias, outros futebóis”, alimenta-se da terminologia a respeito da multiplicidade de concepções e experiências do tempo e do espaço, que a imaginação zapatista sublinha. [9] Nessa seção, nos debruçamos sobre uma variedade de experiências futebolísticas, que após um longo hiato voltam a obter relevância na construção das publicações e comunicados. O primeiro texto selecionado, de 2013, esmiúça um conjunto de críticas tecidas no ambiente virtual à experiência zapatista, e se constrói repleto de referências a esse universo e sua linguagem: vai e volta, de forma descentrada e veloz, reproduzindo supostos tuítes e mensagens difundidas virtualmente. O elemento futebolístico, que no primeiro texto aparece através de referências a Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e variadas torcidas de clubes mexicanos, ganha protagonismo nos escritos seguintes, em que se relatam imaginativas situações em torno do jogo nas escuelitas zapatistas, [10] nos territórios dos caracóis, em datas como o 8 de Março e, por fim, na realização da Travessia pela Vida, viagem empreendida por militantes do EZLN ao continente europeu em 2021.
Entre os textos compilados nesse último bloco, convém situar, ocorrem alguns acontecimentos de destaque, como a “morte” do Subcomandante Marcos e seu ressurgimento como Subcomandante Insurgente Galeano, em 2014. Por essa razão, dentre os textos compilados, aqueles publicados a partir de 2015 aparecem assinados com esse nome. Na composição das narrativas, por sua vez, novos personagens ganham protagonismo, como a menina Defensa Zapatista, cujo nome e atividades se relacionam fundamentalmente com a prática do futebol nos campinhos dos territórios zapatistas.
Simultaneamente também se destaca, no conteúdo dos textos, uma expressão mais evidenciada do protagonismo de mulheres na construção da experiência autônoma zapatista, deflagrando eventos como o Encontro Internacional, Político, Artístico, Esportivo e Cultural de Mulheres que Lutam, ocorrido em 2018 no caracol da zona Tzotz Choj. [11] Quem nos lê certamente notará que, particularmente nos últimos textos da seção, questões de gênero expressam evidência nas narrativas, que frequentemente tematizam o contraponto entre as mulheres zapatistas e a própria figura do Subcomandante Galeano, autorreferida na escrita com as ironias que lhe são características.
O exercício de tradução dos textos incluídos nos quatro blocos, realizado por Letícia Gil, foi permeado de escolhas que se produziam diante das peculiaridades da linguagem escrita zapatista, em seus variados momentos. Diante do desafio de transpô-la para outro idioma, por vezes optamos por manter alguns termos no original (em espanhol e em outras línguas) e traduzir outros por palavras que consideramos equivalentes no português brasileiro. As justificativas dessas escolhas são explicitadas em algumas notas de rodapé, que também indicam inquietações, referências e, por vezes, algumas leituras provisórias que essa escrita nos propôs durante o processo de tradução e revisão.
Após os quatro blocos que constituem o corpus zapatista da compilação, encerramos com dois apêndices redigidos especialmente no contexto de organização deste volume. O primeiro deles é uma contribuição do pensador e ativista uruguaio Raúl Zibechi, notabilizado por sua proximidade e envolvimento com experiências de autonomia e daquilo que chama de um “mundo outro” em movimento (conceito formulado justamente a partir das proposições zapatistas). [12] Seu texto nos apresenta o futebol das comunidades populares de Buenos Aires, pensado a partir da imagem do potrero – o campinho das regiões platinas – em diálogo com as formas de organização nessas comunidades e nos territórios zapatistas. Os debates deflagrados a partir da experiência futebolística em tais espaços – a respeito das questões de gênero, por exemplo – também encontram ressonância nos relatos zapatistas de nossa compilação.
O texto final, por sua vez, constitui uma escrita coletiva realizada por integrantes de equipes do circuito de futebol autônomo e libertário da cidade de São Paulo. Adriana Shiraishi, Danilo Heitor, Jaqueline Almeida e Soraia Costa assinam como “futebolistas abaixo e à esquerda”, e nos apresentam uma retrospectiva da formação desse ambiente, a partir da fundação da equipe Autônomos F. C. no ano de 2006, na cidade de São Paulo. A reverberação das experiências zapatistas e as interlocuções com as atividades políticas de outros grupos – punks, anarquistas e outras dissidências – proliferaram possibilidades múltiplas, metaforizadas na escrita do texto a partir da imagem de um polvo com vários tentáculos.
A composição da capa do volume, por fim, se dá sobre um recorte da pintura Outro campo pra jogar, da artista Marina da Silva, cujo trabalho plástico se debruça sobre as relações entre imagem e território, e frequentemente tematiza futebóis. Escolhemos esta pintura pois, evidentemente, remete ao tema do livro, mas também especificamente a um evento em particular: o jogo realizado na abertura do já mencionado Encontro Internacional, Político, Artístico, Esportivo e Cultural de Mulheres que Lutam, no dia 8 de março de 2018.
A partida em questão, disputada por mulheres zapatistas, se deu entre as equipes Arcoiris Rebelde, representando o caracol La realidad, e Jóvenas Rebeldes, composta por integrantes do caracol Oventic. Com os rostos cobertos por pasamontañas, as jogadoras não ostentavam nomes às costas das vestimentas (quando muito, alguns codinomes de guerra), e uma regra peculiar, definida antes do início da partida, determinava que as autoras dos gols escrevessem frases relacionadas ao Encontro em uma lousa à beira do campo, durante suas comemorações. O resultado final de 6 a 0 para a equipe Arcoiris Rebelde foi celebrado coletivamente, e as frases inscritas na lousa expressavam uma variedade de temas vinculados ao evento: “Bem-vindas as companheiras de diferentes cidades”, “Este gol foi para vocês”, “Sempre as levaremos no coração”, “Esse gol é para a locutora Marichuy” (que narrava a partida ao vivo), “Que morra o capitalismo e que vivam as mulheres” e “Viva as mulheres do mundo”. [13]
A realização dessa partida, assim como os demais episódios relatados no conjunto dos textos, reverbera as possibilidades de exercício da imaginação política na reinvenção material e simbólica do jogo. Atentando à potência desses experimentos nos territórios zapatistas e outras geografias, procuramos aproximá-los através das interlocuções entre a apropriação inventiva do futebol e a construção de experiências de autonomia, em diálogo com os textos apêndices e a variedade de mãos e cabeças que conjuramos no encontro produzido pela organização deste volume.
De tal forma, a compilação de textos aqui reunida se propõe, primordialmente, a intensificar possibilidades de enredamento entre os domínios do esporte e da política. Tecidos no contrapelo de diretrizes hegemônicas estabelecidas em cada uma dessas esferas, os relatos, comunicados e histórias de zapatistas que jogaram e pensaram o futebol ao longo dos últimos trinta anos estimulam esse cruzamento. Simultaneamente, nos alimentam na construção de outros mundos desde as quatro linhas e para além delas – sempre abaixo e à esquerda, onde está o coração.
Micael Zaramella
São Paulo, janeiro de 2024
NOTAS
[1] “Primera declaración de la Selva Lacandona”. Enlace Zapatista, 1º jan. 1994. Disponível em: https://enlacezapatista.ezln.org.mx/1994/01/01/primera-declaracion-de-la-selva-lacandona/
[2] Uma retrospectiva desta primeira etapa de construção do EZLN pode ser consultada em BASCHET, Jérôme. A experiência zapatista: rebeldia, resistência, autonomia. Trad. Domingos Nunez. São Paulo: n-1 edições, 2021.
[3] Um detalhamento mais amplo da estrutura de organização política e territorial zapatista pode ser consultado em ALKMIN, Fábio M. Por uma geografia da autonomia: a experiência de autonomia territorial zapatista em Chiapas, México. São Paulo: Humanitas/Fapesp, 2017.
[4] Música dos povos maias, vinculada à tradicional dança do tigre.
[5] “Quinta parte: ‘ahi va el golpe, joven’”. Enlace Zapatista, 8 nov. 2023. Disponível em: https://enlacezapatista.ezln.org.mx/2023/11/08/quinta-parte–ahi-va-el-golpe-joven/. (Tradução do organizador.)
[6] GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra. Trad. Eric Nepomuceno e Maria do Carmo Brito. Porto Alegre: L&PM Editores, 2004.
[7] Eduardo Galeano faleceu em 2015. Posteriormente, alguns de seus textos futebolísticos foram compilados e publicados em um volume póstumo, traduzido e publicado no Brasil com o título de “Fechado por motivo de futebol”. Ver: GALEANO, Eduardo. Fechado por motivo de futebol. Trad. Eric Nepomuceno, Sergio Faraco, Ernani Ssó e Marlova Aseff. Porto Alegre: L&PM Editores, 2018.
[8] ALKMIN, op. cit., p. 146-150.
[9] Ver: SUBCOMANDANTE INSURGENTE MARCOS. Nem o centro nem a periferia: sobre cores, calendários e geografias. Trad. Danilo Ornelas Ribeiro e Coletivo Protopia S. A. Porto Alegre: Deriva, 2008.
[10] Em agosto de 2013 ocorreu a chamada Escuelita Zapatista em diversos caracóis, constituindo uma experiência de formação política fundamentada no contato direto com o cotidiano das comunidades autônomas em Chiapas. Parte dos “alunos/as” eram integrantes advindos de outras experiências e movimentos políticos, mas também participaram pessoas sem vínculo com quaisquer coletivos, além de intelectuais que acompanhavam a experiência zapatista.
[11] Ver: As mulheres zapatistas. Palavras das mulheres zapatistas no encerramento do primeiro encontro internacional, político, artístico, esportivo e cultural de mulheres que lutam no caracol zapatista da Zona Tzotz Choj. In: LACERDA, Mariana; PELBART, Peter Pál (Orgs.). Uma baleia na montanha. Trad. Ana Patto [et. al.]. São Paulo: n-1 edições, 2021, p. 141.
[12] Ver: ZIBECHI, Raúl. Movimentos sociais na América Latina: o “mundo outro” em movimento. Trad. Timo Bartholl, Eduardo Tomazine, Luiz Rafael Gomes. Rio de Janeiro: Consequência Editora, 2020.
[13] Ver: FINK, Nadia. Zapatistas: la pelota en los pies y la revolución en el pecho. Marcha, 18 mar. 2018. Disponível em: https://marcha.org.ar/zapatistas-la-pelota-en-los-pies-y-la-revolucion-en-el-pecho/
Em parceria com a sobinfluencia edições, Outras Palavras irá sortear um exemplar de Rostos cobertos, corações à mostra: futebol, autonomia e luta zapatista, organizado por Micael Zaramella, entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 10/3, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!
Outras Palavras disponibiliza sorteios, descontos e gratuidades para quem contribui todos os meses com a continuidade de nosso projeto de jornalismo de profundidade e pós-capitalista. Outros Quinhentos é a ferramenta através da qual é possível construir conosco esse horizonte. Pela colaboração, diversas contrapartidas são disponibilizadas: sorteios, descontos e gratuidades oferecidas por nossos parceiros – são mais de vinte parcerias! Participe!
NÃO SABE O QUE É O OUTROS QUINHENTOS?
• Desde 2013, Outras Palavras é o primeiro site brasileiro sustentado essencialmente por seus leitores. O nome do nosso programa de financiamento coletivo é Outros Quinhentos. Hoje, ele está sediado aqui: apoia.se/outraspalavras/
• O Outros Quinhentos funciona assim: disponibilizamos espaço em nosso site para parceiros que compartilham conosco aquilo que produzem – esses produtos e serviços são oferecidos, logo em seguida, para nossos apoiadores. São sorteios, descontos e gratuidades em livros, cursos, revistas, espetáculos culturais e cestas agroecológicas! Convidamos você a fazer parte dessa rede.
• Se interessou? Clica aqui!