Sérgio Machado e Romero Jucá: diálogo entre um fazendeiro e um minerador

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Representante exemplar de uma elite arcaica (Foto: Geraldo Magela/ Ag. Câmara)

Pivôs da crise têm atividades tão pouco republicanas quanto suas conversas; ex-diretor tem fazenda questionada pelo MST; ex-ministro é um conflito de interesses ambulante

Por Alceu Luís Castilho (@deolhonoagro*)

No dia 18, quarta-feira, 2 mil famílias de sem-terra que ocupavam desde março a fazenda Santa Maria, no oeste do Paraná, foram expulsas pela polícia do governador Beto Richa, a mando do Judiciário. Um dos donos da fazenda, ao lado dos irmãos? Sérgio Machado, ele mesmo, o ex-presidente da Transpetro – agora famoso por causa das conversas pouco republicanas com o senador Romero Jucá (PMDB-RR). “Homens, mulheres, crianças e até um cadeirante foram expulsos com extrema violência para garantir uma propriedade adquirida com dinheiro oriundo da corrupção”, resume o jornalista Aluizio Palmar.

Do outro lado do Brasil, Jucá. Dono de TV (em nome dos filhos), minerador. Entre outras cositas más. “Em 1987, em plena epidemia de malária e gripe, trazida pela invasão de garimpeiros, o então presidente da Funai, Romero Jucá, alegando razões de segurança nacional, retira as equipes de saúde da área Yanomami”. É um trecho do relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Resultado? Aumento de 500% dos casos de malária. “Mais de 4 mil yanomamis morreram de malária, tuberculose, de assassinato”, resume o líder indígena David Kopenawa.

Avancemos no relatório:

– O caso mais flagrante de apoio do poder público à invasão garimpeira se deu na gestão de Romero Jucá à frente da Funai, na região do Paapiu/Couto de Magalhães, onde o garimpo se iniciou a partir da ampliação de uma antiga pista de pouso pela Comissão de Aeroportos da Região Amazônica (Comara), em 1986. A Funai e os demais agentes públicos abandonaram a região, deixando a área livre para a ação dos garimpeiros.
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Em 12 anos, novo líder do PMDB aumentou patrimônio em 56 vezes

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Picciani, líder destituído, era contra impeachment de Dilma. (Foto: Luis Macedo/ Câmara)

Relator do Código de Mineração, Leonardo Quintão recebeu R$ 700 mil de empresa da Vale em 2014; é autor de leis que beneficiam drogarias, financiadoras de campanha

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

As prestações de contas do deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG), novo líder do PMDB após manobra do presidente da Câmara, não podem ser acusadas de ausência de transparência. Lá ficamos sabendo que, entre 2002 e 2014, esse economista de Taguatinga (DF), 40 anos de idade, multiplicou seu patrimônio em 56 vezes: de R$ 315 mil para R$ 18 milhões.

Lá estão também registrados os R$ 2 milhões recebidos, como doações de campanha em 2014, de mineradoras ou empresas ligadas ao setor – ele que é relator do novo Código de Mineração, em franca atividade para aumentar os benefícios das empresas. Leia aqui: Relator do Código de Mineração foi reeleito com milhões do setor. Continuar lendo

É o PMDB, jornalistas! Na mineração, é o PMDB

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Jornais divulgam doações de campanha por empresas da Vale para deputados, mas se esquecem de apontar destinação majoritária da verba a políticos do PMDB

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

E agora o Estadão deu, a Folha deu: lista de deputados que investigarão o crime ambiental em Mariana (MG), ou discutem o Código da Mineração, e receberam dinheiro da Vale ou de empresas do setor. O Estadão publicou texto nesta segunda-feira. A Folha, no sábado. Sem tanto estardalhaço, claro, pois os olhos da imprensa brasileira estão voltados para a França.

Ótimo que circulem mais informações sobre a conexão entre políticos e empresas mineradoras. Mas novamente a imprensa brasileira perde a oportunidade de encarar algo muito mais estrutural: o controle do Ministério das Minas e Energia, e órgãos a ele relacionados, pelo PMDB. Insisto no tema desde 2013: “Teia de interesses liga políticos a mineradoras em debate sobre novo Código”. Continuar lendo

Tragédia em Mariana: quem recebe dinheiro da Vale

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Doações eleitorais da empresa que controla Samarco “explodem”. Metade vai para PMDB, partido que controla mineração no governo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O PMDB recebeu R$ 23,55 milhões dos R$ 48,85 milhões destinados por empresas da Vale a comitês financeiros e diretórios na campanha de 2014. O partido controla o setor de mineração no Brasil, indicando o ministro das Minas e Energia e a maioria dos chefes dos Departamentos Nacionais de Produção Mineral (DNPM). Essas cifras se referem às doações eleitorais de seis empresas ligadas à Vale: Vale Energia, Vale Manganês, Vale Mina do Azul, Minerações Brasileiras Reunidas, Mineração Corumbaense Reunida e Salobo Metais.

Em 2010, a soma das doações da Vale alcançava R$ 29,96 milhões, para todas as siglas. Isso mostra um aumento exponencial do investimento do grupo Vale em campanhas políticas. Mas é mais que isso: naquele ano, a empresa só doava para os comitês e diretórios. Em 2014, doou também para candidaturas específicas, do Congresso à Presidência. Isso soma mais R$ 39,32 milhões drenados da Vale para políticos do governo e da oposição, perfazendo um total de R$ 88 milhões – três vezes mais que em 2010. Continuar lendo

A lama da Samarco e o jornalismo que não dá nome aos bois

Bento Rodrigues: povoado soterrado pela Samarco sintetizava um modo de vida tão esquecido pela imprensa quanto os impactos sociais e ambientais do mundo corporativo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Por trás da lama da Samarco afirma-se o gosto amargo de um jornalismo subserviente, a serviço do mercado. Dezenas de pessoas estão desaparecidas em Mariana (MG). Entre elas, crianças. O vídeo acima mostra como era o cotidiano de um povoado destruído. Mas a maior tragédia socioambiental brasileira do século XXI  já começa a ser soterrada pelos jornais, após uma cobertura protocolar. Da lama à ordem: ignoram-se os conflitos, minimizam-se as contradições e se assimilam os discursos cínicos de executivos e de membros do governo. Com a clássica blindagem dos sócios da empresa.

Primeiro enumeremos os donos. Já se sabe que 50% da Samarco pertence à Vale, a Vale que tirou o Rio Doce de seu nome e nele despejou lama tóxica. A outra metade pertence à anglo-australiana BHP Billiton, uma fusão da australiana Broken Hill Proprietary Company com a inglesa (radicada na África do Sul) Billiton, atuante nas veias abertas do Chile, Colômbia e Peru (onde tomou uma multa ambiental de US$ 77 mil após contaminação por cobre), no Canadá, Reino Unido e nos Estados Unidos, na Argélia, no Paquistão e em Trinidad & Tobago. Já protagonizou na Papua Nova Guiné uma contaminação fluvial histórica. As maiores mineradoras do mundo. Continuar lendo