Massacre de indígenas no MS é também um massacre midiático

caarapó

Estadão noticiou em 77 palavras um atentado de fazendeiros que deixou um morto e vários feridos, entre eles um menino de 12 anos; em 2013, mataram Denilson, de 15

Por Alceu Luís Castilho (@deolhonoagro)*

O Estadão traz no pé da página A8, hoje, lá no cantinho direito, a seguinte notícia: “Ataque deixa um índio morto e cinco feridos”. Contei 77 palavras na notícia, incluídos, os artigos, preposições e palavras inevitáveis, como “Mato Grosso do Sul” e “terra indígena Dourados Amambaipeguá I”. Não encontrei o nome do morto. “Uma liderança indígena”. Deu tempo de registrar o “o ataque de 70 fazendeiros armados em 60 veículos”.

Quase uma palavra para cada fazendeiro.

Esse descaso da imprensa representa uma metralhadora às avessas. O pé de página é a vala – quando muito – onde os jornais brasileiros enterram as centenas de Guarani Kaiowá mortos nos últimos anos, entre assassinados, atropelados, mortos por problemas básicos de saúde e os que, em meio ao confinamento histórico do qual são vítimas, se suicidaram. Cada uma das 77 palavras significa o silêncio entre cada bala assassina. Continuar lendo

Matheus, 5 anos; Ana Beatriz, 5 anos; Ryan, 4 anos; descansaremos em paz?

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Matheus tinha 5 anos e jogava bolinha de gude quando foi baleado (Reprodução: Arquivo Pessoal)

Todos foram baleados; Matheus jogava bolinha de gude quando foi morto, no sábado, sob a clássica alegação policial de que havia “confronto”; família nega

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Três casos recentes de crianças baleadas e mortas em municípios do Rio.

Matheus Santos Moraes, 5 anos. Jogava bolinha de gude na rua quando foi baleado, no sábado, em Magé. Enterro foi no domingo. Os policiais descansarão em paz?

Ryan Gabriel, 4 anos. Estava na porta da casa do avô, em Madureira, na capital, em pleno domingo de Páscoa. O governador do Rio descansará em paz?

Ana Beatriz Duarte e Sá, 5 anos. Atingida por bala perdida no dia 10, em São Gonçalo. Descansaremos em paz? Continuar lendo

Eu, leitor, à espera de notícias sobre um bebê indígena assassinado

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Foto: Gabriel Felipe/RBS TV

Bebê Kaingang é degolado no litoral de Santa Catarina; percorro os jornais para obter mais informações e ver a comoção; mas devo estar distraído, onde estão as notícias?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Ele tinha 2 anos e foi assassinado. Um homem o atacou enquanto sua mãe o amamentava. Passou a faca em seu pescoço. Estivesse no Guarujá, ou na Barra, sua morte teria gerado uma comoção nacional. Mas não. Ele estava numa rodoviária. Em Imbituba, no litoral sul de Santa Catarina. Chamava-se Vitor Pinto, morava em Chapecó, na divisa com o Rio Grande do Sul. Era um bebê indígena.

Vi ontem a notícia no G1, o portal da Globo: Menino indígena de 2 anos é morto em frente a rodoviária no Sul de SC. Na hora, pensei: isso é uma notícia nacional. Internacional. Mania de jornalista. Pensar na repercussão. isso não significa indiferença, pelo contrário. Significa querer que essa vida seja percebida. Que os indígenas sejam respeitados. Outros casos, evitados. Continuar lendo

Esquerda indiferente a golpe maximiza Dilma e relativiza democracia

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É preocupante ver a proliferação de um pensamento conformista em relação às manobras da direita; como se defeitos da presidente justificassem o retrocesso

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Está em curso um raciocínio distorcido, à esquerda do espectro político. São enumerados todos os incontáveis defeitos do governo Dilma Rousseff (o horror das políticas indígena, agrária e ambiental, a conivência com mineradoras, sua truculência pessoal, a política econômica, as traições de campanha) para em seguida se dizer: não importa, portanto, que ela caia; ela não representa a mim e nem os excluídos, e sim aquela nossa velha plutocracia de sempre.

Essa percepção ignora o decisivo fato de que estamos em uma democracia. Imberbe, um arremedo, mas uma democracia. E traz embutida uma certa ingenuidade. Como se vivêssemos em uma curiosa espécie de parlamentarismo onde só esses setores da esquerda apitassem. Um jogo de xadrez só com as nossas peças. “Não gostamos?” – pensam esses indignados veementes subitamente transformados em indignados blasé. “Que troquem – pois não faz diferença mesmo”. Continuar lendo