Brasil precisa de uma Crítica da Aceleração Cínica

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O cinismo no Brasil virou um atropelo. Uma disparada. Uma manada de cínicos tomou o Planalto, referendada por cínicos de toga e por multidões de cínicos políticos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O filósofo alemão Peter Sloterdijk escreveu sua “Critica da Razão Cínica” em 1983. Mais de 30 anos depois, podemos usar o mote para pensar na extensão do cinismo em terras brasileiras, nestes tempos recentes. A ética das conveniências – uma ética às avessas, portanto – tem sido invocada por atores políticos de diversos matizes. Particularmente pelos que pretendem preservar o estado atual das coisas. Como os cínicos descritos pelo alemão.

Não falo dos cínicos originais, claro. Como o grego Diógenes, aquele da Lanterna. Assim como outros termos (“prudência”, por exemplo), a palavra cinismo foi ganhando, ao longo dos séculos, um contorno oposto. De uma postura libertária, provocativa, contestadora, iconoclasta, foi aos poucos se tornando isso o que está aí – uma palavra em sintonia com as práticas cotidianas da burguesia. Ligada a um fingimento – mas um fingimento conservador, quase violento. Continuar lendo

A lama da Samarco na Bahia também representa a “crise”

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Foto: Instituto Últimos Refúgios

Palavra “crise” também está em disputa; que modelo queremos para o planeta, para além da conjuntura econômica? Por que não se fala das crises inerentes ao sistema?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A palavra “crise” costuma ser enunciada de forma direcionada no Brasil. Como se apenas retrações econômicas devessem motivar a utilização do termo. As crises mais amplas do capitalismo – inerentes ao modo de produção – não costumam ser mencionadas. Como se coubesse somente a determinados governos prevenir ou não a “crise”. Os aspectos sociais são tomados de modo periférico – um indicador de desemprego aqui, outro ali. Os aspectos ambientais, nunca.

É como se não vivêssemos uma gigantesca crise ambiental, a exaurir os recursos naturais. A lama da Samarco/Vale/BHP (de mineradoras multinacionais, portanto) chega ao litoral baiano – como governo, empresas e certos pesquisadores garantiram que não chegaria – e tomamos como se fosse um acidente natural. Não como um resultado da… crise… do sistema. De um modelo que, para garantir o lucro de alguns (os primeiros a reclamar de crises econômicas sazonais), coloca em risco o próprio planeta. Continuar lendo