“Empresas”, 7, “vítimas”, 1 – uma análise do discurso de Dilma sobre Mariana

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Como Dilma enxerga a tragédia de Mariana? (Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Pescadores e povos indígenas receberam uma menção cada durante a fala de 21 minutos da presidente; ela celebrou 24 vezes o acordo e não citou a palavra “crime”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Que palavras a presidente Dilma Rousseff utilizou no discurso que anunciou o polêmico acordo com Samarco, Vale e BHP, na quarta-feira, relativo à catástrofe em Mariana (MG)? “Catástrofe”, por sinal, não foi um termo enunciado. Ela preferiu “tragédia” (5 vezes), “desastre” (8) e “acidente” (1). Mas uma oposição específica sintetiza o espírito do evento: aquela entre “empresas” e “vítimas”. O placar foi de 7 x 1.

Claro que análises de discurso qualitativas são mais do que bem-vindas. Mas essa abordagem quantitativa traz algumas informações no mínimo curiosas. Outras, bastante representativas. Seja pela quantidade de vezes que a palavra foi utilizada – ela enunciou 24 vezes o termo “acordo” -, seja pela absoluta ausência ao longo dos 21 minutos de fala. Por exemplo: Dilma não mencionou a palavra “crime”. Continuar lendo

A lama da Samarco e o jornalismo que não dá nome aos bois

Bento Rodrigues: povoado soterrado pela Samarco sintetizava um modo de vida tão esquecido pela imprensa quanto os impactos sociais e ambientais do mundo corporativo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Por trás da lama da Samarco afirma-se o gosto amargo de um jornalismo subserviente, a serviço do mercado. Dezenas de pessoas estão desaparecidas em Mariana (MG). Entre elas, crianças. O vídeo acima mostra como era o cotidiano de um povoado destruído. Mas a maior tragédia socioambiental brasileira do século XXI  já começa a ser soterrada pelos jornais, após uma cobertura protocolar. Da lama à ordem: ignoram-se os conflitos, minimizam-se as contradições e se assimilam os discursos cínicos de executivos e de membros do governo. Com a clássica blindagem dos sócios da empresa.

Primeiro enumeremos os donos. Já se sabe que 50% da Samarco pertence à Vale, a Vale que tirou o Rio Doce de seu nome e nele despejou lama tóxica. A outra metade pertence à anglo-australiana BHP Billiton, uma fusão da australiana Broken Hill Proprietary Company com a inglesa (radicada na África do Sul) Billiton, atuante nas veias abertas do Chile, Colômbia e Peru (onde tomou uma multa ambiental de US$ 77 mil após contaminação por cobre), no Canadá, Reino Unido e nos Estados Unidos, na Argélia, no Paquistão e em Trinidad & Tobago. Já protagonizou na Papua Nova Guiné uma contaminação fluvial histórica. As maiores mineradoras do mundo. Continuar lendo