Nos ombros de mulheres e negros, o peso da precarização

O mercado de trabalho continua sexista e racista, mostram dados detalhados do IBGE sobre informalidade e desemprego. Disparidade salarial é chocante: negros recebem 40% menos do que brancos, e mulheres, 27% do que homens. Como aliar políticas afirmativas e de geração de emprego?

Foto: Agência Senado
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O mercado de trabalho brasileiro apresenta disparidades estruturais que se manifestam de forma persistente ao longo do tempo, refletindo desigualdades históricas baseadas em raça e gênero. Segundo os dados mais recentes divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, pessoas pretas e pardas continuam enfrentando taxas de desemprego superiores à média nacional, além de maior informalidade e menores rendimentos quando comparadas às pessoas brancas (IBGE, 2025). Da mesma forma, as mulheres ainda experimentam desvantagens significativas em relação aos homens, tanto em termos de acesso ao emprego quanto de remuneração. Este estudo busca analisar essas desigualdades como características estruturais do mercado de trabalho brasileiro, explorando suas manifestações contemporâneas e impactos sociais.

Panorama atual das desigualdades raciais no emprego

No quarto trimestre de 2024, o panorama do desemprego no Brasil revelou uma clara estratificação racial. Enquanto a taxa média de desemprego nacional situou-se em 6,2%, a população branca registrou índice de apenas 4,9%. Em contraste, as taxas entre pessoas pretas (7,5%) e pardas (7%) superaram significativamente a média nacional (IBGE, 2025). Como destaca Adriana Beringuy, coordenadora da pesquisa do IBGE, “essa desigualdade é uma característica estrutural do mercado de trabalho brasileiro, não apenas relacionada a esse trimestre”.

Tais disparidades persistentes evidenciam que, mesmo com avanços nas políticas de inclusão, o componente racial continua sendo um fator determinante nas oportunidades de emprego no país. Não estamos falando de fenômenos isolados ou temporários, mas de um padrão consistente que se mantém ao longo de décadas, refletindo estruturas sociais profundamente enraizadas na história brasileira.

A informalidade no trabalho representa outro indicador crucial que revela desigualdades raciais estruturais. No último trimestre de 2024, a taxa geral de informalidade no Brasil atingiu 38,6%. Contudo, quando analisada por recorte racial, observa-se que pessoas pretas (41,9%) e pardas (43,5%) estão significativamente mais representadas no trabalho informal que pessoas brancas (32,6%) (IBGE, 2025).

O trabalho informal vai muito além de números em uma pesquisa. Na prática, significa viver sem garantias básicas como férias remuneradas, licença maternidade ou paternidade, seguro-desemprego e aposentadoria. São milhões de brasileiros, majoritariamente negros, que trabalham sem a proteção de direitos trabalhistas fundamentais, perpetuando ciclos de vulnerabilidade social e econômica que atravessam gerações.

O sociólogo Ricardo Antunes (2020) argumenta que a informalidade não é apenas uma condição transitória do mercado de trabalho brasileiro, mas um componente estrutural que afeta de modo desigual diferentes grupos sociais, especialmente os racialmente discriminados.

As disparidades salariais constituem uma das manifestações mais evidentes da desigualdade racial no mercado de trabalho. Com um rendimento médio mensal nacional de R$ 3.215 no último trimestre de 2024, observa-se que trabalhadores brancos recebem salários significativamente acima da média (R$ 4.153), enquanto trabalhadores pretos (R$ 2.403) e pardos (R$ 2.485) recebem valores substancialmente inferiores (IBGE, 2025).

Esta diferença de aproximadamente R$ 1.700 entre o salário médio de trabalhadores brancos e negros tem impactos concretos no cotidiano. Significa menos acesso à moradia adequada, saúde, educação de qualidade e lazer. Representa também maiores dificuldades para acumulação de patrimônio, formação de poupança e capacidade de investimento em qualificação profissional. Em última análise, as disparidades salariais alimentam um círculo vicioso de desigualdade que se perpetua através das gerações.

A economista Cecília Machado (2023) observa que as diferenças salariais por raça persistem mesmo quando controlamos por nível educacional, experiência e setor de atividade, o que indica a existência de mecanismos discriminatórios no mercado de trabalho brasileiro.

Desigualdade de gênero: um recorte necessário

Além das desigualdades raciais, o mercado de trabalho brasileiro também é marcado por significativas disparidades de gênero. No quarto trimestre de 2024, enquanto a taxa de desemprego entre homens foi de 5,1%, entre as mulheres esse índice alcançou 7,6% (IBGE, 2025). Esta diferença de 2,5 pontos percentuais revela obstáculos persistentes enfrentados pelas mulheres na inserção profissional.

O desequilíbrio também se manifesta claramente nos rendimentos. Os homens fecharam o último trimestre de 2024 com rendimento médio mensal de R$ 3.540, enquanto as mulheres receberam R$ 2.783 – uma diferença de aproximadamente 27%. Esta disparidade persiste mesmo com o maior nível educacional médio das mulheres brasileiras, evidenciando que fatores estruturais vão além da qualificação profissional.

A socióloga Helena Hirata (2018) argumenta que o acesso das mulheres ao emprego é dificultado por múltiplos fatores, incluindo a divisão sexual do trabalho doméstico e de cuidado, que continua recaindo predominantemente sobre elas.

A interseccionalidade entre raça e gênero

Quando se cruzam as variáveis de raça e gênero, as desigualdades se intensificam de maneira ainda mais acentuada. As mulheres negras enfrentam o que a acadêmica Lélia Gonzalez (1984) denominou como “dupla discriminação”—de raça e de gênero—resultando em sua posição mais vulnerável no mercado de trabalho brasileiro.

No dia a dia, isso se traduz em menos oportunidades de emprego, maior concentração em setores de baixa remuneração e menores possibilidades de ascensão profissional. Não por acaso, as mulheres negras estão super-representadas em ocupações como o trabalho doméstico, caracterizado historicamente por menor remuneração e menor proteção legal. Mesmo com a PEC das Domésticas, que ampliou direitos para esta categoria, persistem significativas taxas de informalidade e precarização.

A professora Márcia Lima (2021), do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), constata em seus estudos que as mulheres negras estão sobrerrepresentadas nos trabalhos mais precários e de menor remuneração, e têm maiores dificuldades de ascensão profissional mesmo quando possuem níveis educacionais elevados.

A educação, frequentemente considerada um equalizador social, não tem conseguido eliminar completamente as desigualdades raciais no mercado de trabalho brasileiro. Pesquisas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA, 2023) demonstram que, mesmo entre pessoas com o mesmo nível educacional, persistem disparidades salariais significativas entre brancos e negros.

Este fenômeno revela que as discriminações no mercado de trabalho operam através de mecanismos complexos que vão além da qualificação formal. Preconceitos implícitos, estereótipos negativos e barreiras invisíveis ao desenvolvimento profissional continuam afetando a trajetória de trabalhadores negros, mesmo quando possuem formação acadêmica equivalente à de seus colegas brancos.

Juventude, raça e desemprego: uma combinação preocupante

A juventude brasileira enfrenta desafios particulares no mercado de trabalho, com taxas de desemprego que chegam a ser o dobro da média nacional. Segundo dados do IBGE (2025), enquanto a taxa geral de desemprego no Brasil é de 8,8%, entre jovens de 18 a 24 anos esse índice atinge 18%.

Esse cenário representa um obstáculo significativo para milhões de jovens que buscam sua inserção profissional e independência financeira. O primeiro emprego, já naturalmente difícil de conseguir pela exigência contraditória de experiência prévia, torna-se ainda mais inacessível para jovens negros, que enfrentam barreiras adicionais relacionadas ao racismo estrutural.

A pesquisadora Angela Figueiredo (2022), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), aponta que o desemprego entre jovens negros é sistematicamente mais elevado que entre jovens brancos, refletindo barreiras adicionais no acesso ao primeiro emprego e na permanência no mercado de trabalho.

As empresas têm papel fundamental na redução das desigualdades raciais e de gênero no mercado de trabalho. Não se trata apenas de uma questão de responsabilidade social, mas também de inteligência empresarial. Organizações diversas tendem a ser mais inovadoras, apresentar melhores resultados e conectar-se de forma mais efetiva com seus diversos públicos.

Nos últimos anos, tem crescido o número de empresas brasileiras que implementam programas de diversidade e inclusão com foco em equidade racial. Estas iniciativas incluem metas para contratação de profissionais negros, programas de trainee exclusivos para este público, mentorias direcionadas e revisão de processos seletivos para eliminar vieses inconscientes. No entanto, estas ações ainda estão concentradas principalmente em grandes corporações, sendo necessária sua ampliação para o tecido empresarial como um todo.

A redução das desigualdades raciais e de gênero no mercado de trabalho brasileiro requer um conjunto articulado de políticas públicas. As iniciativas devem atuar tanto na ampliação do acesso à educação de qualidade quanto na criação de oportunidades de emprego formal com garantia de direitos.

As políticas de ação afirmativa, como cotas raciais em universidades e concursos públicos, representam avanços importantes, mas precisam ser complementadas por outras medidas. A fiscalização efetiva contra discriminação nos processos seletivos, incentivos para contratação de grupos sub-representados e programas específicos de qualificação profissional são exemplos de iniciativas necessárias.

É fundamental também fortalecer a atuação dos órgãos de promoção da igualdade racial e de gênero, assegurando seu adequado financiamento e capacidade operacional. A implementação efetiva do Estatuto da Igualdade Racial, por exemplo, ainda enfrenta desafios significativos que precisam ser superados.

Os dados recentes do IBGE confirmam a persistência de desigualdades raciais e de gênero estruturais no mercado de trabalho brasileiro. Pessoas negras continuam enfrentando maiores taxas de desemprego e informalidade, além de receberem salários significativamente inferiores em comparação com pessoas brancas. Da mesma forma, as mulheres ainda experimentam desvantagens importantes em relação aos homens.

O enfrentamento dessas desigualdades requer um esforço conjunto do Estado, empresas e sociedade civil. Não há soluções simples ou imediatas para problemas estruturais que se formaram ao longo de séculos, mas existem caminhos possíveis que envolvem políticas públicas efetivas, mudanças nas práticas empresariais e transformação cultural.

A construção de um mercado de trabalho verdadeiramente inclusivo e equitativo é não apenas uma questão de justiça social, mas também condição necessária para o desenvolvimento pleno do potencial econômico e humano do Brasil. Somente superando estas desigualdades históricas poderemos construir um país que ofereça oportunidades reais para todos os seus cidadãos, independentemente de sua raça ou gênero.

Referências

Agência Brasil. (2025). Desemprego e informalidade de pretos e pardos é acima da média do país. Recuperado de https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-02/desemprego-e-informalidade-de-pretos-e-pardos-e-acima-da-media-do-pais

Antunes, R. (2020). O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. Boitempo Editorial.

Figueiredo, A. (2022). Juventude negra no mercado de trabalho: desafios e perspectivas. Revista Brasileira de Estudos de População, 39, e0173.

Gonzalez, L. (1984). Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 223-244.

Hirata, H. (2018). Gênero, classe e raça: interseccionalidade e consubstancialidade das relações sociais. Tempo Social, 30(1), 11-26.

IBGE. (2025). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínua. Recuperado de https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho.html

IPEA. (2023). Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

Lima, M. (2021). Trajetórias educacionais e desigualdades raciais no mercado de trabalho. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 36(105), e3610502.

Machado, C. (2023). Diferenças salariais por raça e gênero no Brasil. Texto para Discussão. FGV EPGE – Escola Brasileira de Economia e Finanças.

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