Da saia escocesa à reinvenção da democracia

 

Milhares de escoceses manifestam-se pela independência, que será decidida em plebiscito. Últimas pesquisas apontam enorme avanço do "sim", que pode encerrar união do país à Inglaterra, em vigor desde 1707

Milhares de escoceses manifestam-se pela independência, a ser decidida em plebiscito. Últimas pesquisas apontam enorme avanço do “sim”, que pode encerrar união do país à Inglaterra, em vigor desde 1707

Se a Escócia separar-se da Grã-Bretanha, em 18/11, não chame de “nacionalismo”. Veja como reação, saudável e necessária, à ditadura dos mercados

Por Nuno Ramos de Almeida

A eventual vitória dos independentistas na Escócia, o referendo marcado pelo governo autônomo da Catalunha para Novembro, para não falar do conflito na Ucrânia, demonstram que as fronteiras políticas no mundo não estão escritas nas estrelas e dependem da variação das questões políticas que estão em discussão e de múltiplas correlações de forças em presença.

O recrudescimento das nações, e até de um certo nacionalismo na Europa, mais que um regresso ao passado é uma reação ao presente.

Há muito que é sabido que as nações e as tradições são construções ideológicas, mas nem por isso são menos reais na vida dos homens que as supostas determinações biológicas para os animais. Os trabalhos de Eric Hobsbawm e Trevor-Roper sobre o papel da invenção das tradições na legitimação do nacionalismo é a esse respeito exemplar: mostra, por exemplo, que a reputada como antiga “parafernália nacionalista”, através da qual os escoceses celebram sua identidade nacional, é na verdade bastante moderna e a própria ideia de que existe uma cultura e uma tradição específicas das Terras Altas não passa de uma invenção retrospectiva. A parte mais divertida das conclusões de Trevor-Roper é a demonstração de que o famoso kilt escocês é uma invenção de um industrial inglês e não a recuperação de uma tradição ancestral: “o kilt é uma vestimenta absolutamente moderna, idealizada e vestida pela primeira vez por um industrial quaker inglês, que não o impôs aos montanheses para preservar o modo de vida tradicional deles, mas para facilitar a transformação deste mesmo modo de vida: para os trazer das urzes para a fábrica”. A sua recuperação pelo nacionalismo foi feita em reação à repressão britânica após os acontecimentos de 1745, que passa a proibir a utilização dos trajes montanheses, que, após 35 anos, pareciam ter-se extinguido.

Tanto o nacionalismo escocês como o basco ou o catalão, mais que uma recuperação de velhas tradições milenares são a afirmação da crescente insatisfação das populações com um modelo político que lhes retirou soberania e capacidade de decisão. Antes de ser nacional, a crise é democrática: o processo de globalização econômica e da construção europeia roubou aos povos da Europa a capacidade de discutir o seu próprio futuro. Hoje as decisões fundamentais da vida das pessoas são tomadas pelos mitológicos “mercados”, que mais não são que a expressão disfarçada dos interesses do grande capital financeiro, e a gestão política do poder é entregue de fato a uma burocracia europeia não eleita.

TEXTO-MEIO

No atual quadro da União Europeia, tanto as eleições para os parlamentos nacionais como as do parlamento da UE não passam de espetáculos em que as luzes da ribalta e a agitação escondem que as principais decisões estão tomadas independentemente da vontade dos cidadãos. Os parlamentos e os governos nacionais ficaram sobretudo com o poder de tocar o hino e hastear as respectivas bandeiras. E o parlamento de Estrasburgo é apenas uma máquina de produzir fumaça.

Mais que os nacionalismos, aquilo que hoje está em causa na Europa é uma reação soberanista. As pessoas querem espaços políticos em que possam decidir a sua vida e não instrumentos de ilusionismo político que servem para disfarçar que são sempre os mesmos a decidir.

O poder da casta dos negócios sobre a generalidade da população baseia-se também na continuação desta mentira. Cortar com ela é devolver às pessoas a possibilidade de decidirem no seu bairro, no seu trabalho, na sua localidade e no país em que vivem: não é nacionalismo, é simples democracia contra a ditadura dos mercados.

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Nuno Ramos de Almeida

Nuno Ramos de Almeida é jornalista português, editor-executivo do Jornal I (www.ionline.pt).

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