Quando o indivíduo derrota a liberdade

No Rio, “Killer Joe” leva ao palco ambiente em que vontade egoísta de cada um supera qualquer resquício de afetividade, num círculo insensível em que crimes que geram crimes

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No Rio, “Killer Joe” leva ao palco ambiente em que vontade egoísta de cada um supera qualquer resquício de afetividade, num círculo insensível em que crimes que geram crimes

Por Wagner Correa de Araujo | Imagem: Hudson Motta

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Killer Joe está em cartaz no Rio de Janeiro apenas até 26/8

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Terças e quartas, às 21h, no Teatro Poeira.

Rua São Joao Batista, 104 — Botafogo (mapa) — Fone: (21) 2537.8053

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O dramaturgo americano Tracy Letts é o autor tanto do texto teatral Killer Joe, como do roteiro do filme homônimo que, aqui, foi exibido sob o título de Matador de Aluguel (2013). Ele já tinha colaborado anteriormente com o cineasta William Friedkin (Os Possuídos), nesta linha nitidamente próxima à estética trash de filmes B.

Assustado por uma dívida com traficantes, o “pitbul” Chris Smith (Gabriel Pinheiro) encomenda ao matador de aluguel Joe Cooper (Carca Rah) a morte de sua própria mãe, a quem ele acusa de ter subtraído sua carga de cocaína.

De olho, é claro, num seguro de 50 mil dólares, que ele pretende dividir com o pai Ansel (Fernão Lacerda) e com a madrasta Sharla (Aline Abovsky). Mas é surpreendido com a garantia sexual exigida – sua irmã Dottie (Ana Hartmann), de erótica ingenuidade.

Numa trama de permanente tensão, pontuada de brutalidade, paranóia e sordidez, seus personagens, habitantes de um universo de perversão moral e caos social, desconhecem qualquer principio de honradez e respeito humano.

Seu convívio cotidiano é um frio atentado à liberdade, em que a vontade egoísta de cada um está acima de qualquer resquício de afetividade, na contínua insensibilidade de crimes que geram crimes.

Dominadores e dominados, humilhados e ofendidos, são todos retratados pela incisiva direção de Mário Bortolotto, num clima sem limites, de rara presença nos nossos palcos, na sua extrema bizarrice, ultraje e brutalidade.

A performance não disfarça uma gestualidade agressiva e despudorada, na exposição do difícil suporte presencial dos atores que, pela exigência física cotidiana, vai muito além da singular e passageira cena fílmica.

Este elenco coeso que chega a chocar a plateia pela veracidade com que assume uma nuance de humor negro, com um referencial de caricato sadismo e bestialidade, tem nos figurinos (Letícia Madeira) uma perfeita caracterização de personalidades desavergonhadas.

Completada pela extremada ambientação de misantropia e decadência, tanto na arquitetura cenográfica hiper-realista (Mariko /Seiji Ogana), como na trilha incidental, efeitos especiais e lutas marciais, numa especial conjuntura criativa sob o comando de Bortolotto.

Enfim, embora nos conduzindo através de sua ácida estética de violência pela violência ao árido medo do próprio medo latente na convivência da nossa contemporaneidade, Killer Joe já é, sem dúvida, uma das maiores surpresas da temporada.

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