Orelha

Os passos, as vozes, as mãos, os olhos de quem se aproxima: tudo tão familiar e convidativo, tudo prestes a desatar em brincadeira. O ouvido sempre apurado do cão registra apenas o que há de humano nos gritos dos rapazes, os sons que se articulam e formam palavras. Com o resto ele não atina.

.

(crônica-homenagem ao cãozinho Orelha, brutalmente assassinado em Santa Catarina)

Por Denilson Cordeiro
(curadoria de Tercio Redondo)

– A praia era brava, mas a comunidade era branda, até chegarem os primeiros dias do novo ano. A cidade aqui é flor; o estado, dizem, é santo, mas tem vezes que o tempo fecha e o melhor é ficar na moita. Quem diria que depois de tantos votos de felicidades, de saúde e de alegrias nas festas sucedesse o pior?

Sempre fui bicho do mar, diziam, caiçara, nascido e criado na orla, amigo da geral e disposto para os rolês a que me convidavam. Caí na vida cedo, porque lá em casa era praticamente a mesma coisa que todo esse mundão de areia e água salgada, tinha de me virar, e muita gente, desde cedo, me pedia atenção e proteção. Nunca negava.

Não posso recusar, contudo, que tivesse preferências. A mão pesada da gente do povo cheia de consideração e palavras duras de afeto, adorava. Com pouco, não diviso a causa, esses mesmos passaram me chamar Orelha. De um grupo ao outro, nesses dez anos de ronda e zelo pelas pessoas, o nome pegou e onde suspirassem eu aparecia de prontidão, abelhudo, querendo saber da brincadeira.

A turma do comércio tinha linguagem variada para mim, porque apreciavam e recompensavam minha presença, às vezes. Em outras, embaraçados com os negócios, batiam o pé me afugentando, como se no fundo não tivessem ajudado a cultivar nossa amizade. Desculpavam-se à noite ou no dia seguinte em silêncio, com um agrado aqui e ali e a garantia de puxar o sono em chão mais fresco.

Vez ou outra, apareciam estranhos, brancos demais, cobertos demais, e em geral gente boníssima que me dava água de garrafa. Aproveitei uma chance de amizade promissora certa feita para subir com eles na mata ao pé da serra. Nunca vi gente que gosta de caminhar tanto. O resultado no alto, pareceu, foi melhor para eles, porque o melhor para mim foi tudo desde o princípio daquele passeio. Almoçamos com vento úmido e novas artes.

Tive também meus momentos no mar. Fui assistente de muitos pescadores, ajudando com a rede na praia, guardando a pesca contra os pássaros rapineiros, avisando sobre o mau tempo quando assoprava ainda longe do tino deles. Ao final do dia, a recompensa vinha na forma dos afagos de agradecimento e do alimento compartilhado à beira-mar. Adorava quando faziam fogueira nos dias de pouca lua.

Fiz muitas amizades com os da minha espécie e de várias outras, embora tivesse resistência aos caranguejos, bichos traiçoeiros de beliscão ardido. Biboca, Capitu, Alfredo, Pingu e Ticão eram da minha geração. Mesmo nos corres, a gente sempre se reunia nos forrobodós. A gente enturmava fácil com os visitantes, apreciavam nossas habilidades e gracejos.

No dia 4 de janeiro de 2026, depois de um dia agitado, recolhi-me embaixo do meu chapéu-de-praia à beira do areal e puxava um sono justo e profundo quando fui despertado por um falatório estridente ali perto. Abri só um olho e distingui quatro adolescentes vindo na minha direção. Vinham com paus e poderia ser diversão à vista. Mas depois de tudo de bom que tinha me acontecido em matéria de convivência, quem poderia supor o pior? Viver continua sendo mesmo muito perigoso.

Sem publicidade ou patrocínio, dependemos de você. Faça parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: apoia.se/outraspalavras

Leia Também:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *