O Agente Secreto: Pra não morrer na praia

Para mascarar a finitude e evitar os riscos da construção de um futuro comum, Brasil pode, como Fernando, condenar-se à indiferença e solidão. Mas se o país é capaz desse filme, pode salvar-se do enredo medíocre e decadente em que se meteu

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A metamorfose de Wagner Moura nas cenas finais de O Agente Secreto insinua paradoxos que oferecem pistas formidáveis para a identificação do enigma que nós somos -nós, o formigueiro magnífico cravado nos trópicos. Nomear o enigma, acercar-se dele, não significa desvendá-lo, mas talvez nos deixe mais perto do cão sem plumas e do coração selvagem das coisas que perdemos no fogo. Perto o suficiente para impedir que continuemos a negar sua existência. Perto o bastante pra sentir o cheiro de enxofre e queimar as pontas dos dedos. O incêndio guardado na caixinha de música da vovó é a mais poderosa arma de destruição em massa -como o cinema feroz e delicado, arrebatador e rigoroso, popular e sofisticadíssimo de Kleber Mendonça. Afinal, se nosso país é capaz desse filme, é perfeitamente capaz de salvar-se do enredo medíocre e decadente em que se meteu.

Melhor recomeçar, mas devo dizer que escrevo sob o impacto de dois textos brilhantes, de Leandro Saraiva e Toinho Castro. O que escrevo, portanto, são apenas notas complementares.

Wagner Moura, o Fernando adulto das cenas finais, herdeiro do legado que ignora, é filho do Wagner protagonista, Armando/Marcelo, durante a ditadura. Wagner pai, professor em fuga, perseguido por ter testemunhado a cumplicidade criminosa do capital com os militares, viúvo de uma colega valente -como são destemidas e generosas as mulheres no enredo-, abre o filme de volta ao Recife em pleno carnaval, assombrado e assombroso, depois da baldeação no posto de gasolina do fim do mundo. Lá, somos nós as testemunhas. O que vemos? O sertão e seus jagunços, lugar nenhum na aridez, os “Baleias” ávidos por devorar um qualquer “Fabiano” assassinado. A cena magistral remete ao vasto arquivo semiológico de nosso cinema, como assinalou Leandro Saraiva.

Wagner, o filho, encerrando o filme, jovial, acessível mas tímido, poroso, e não exatamente leve, carrega uma pedra de melancolia nas costas, temendo que a memória desabe sobre sua cabeça. A moça que vem de São Paulo lhe traz o recado do passado, gravado no pen-drive. Wagner-Fernando é jovem: milagrosamente o ator remoça em cada gesto, em cada movimento dos olhos, na luz do rosto, na voz mais líquida, contínua, embora insegura, hesitante. O contraste com o pai é uma das mais sublimes performances do cinema brasileiro. Espantoso constatar que o pai, mesmo que fosse mais velho, em 1977, vibrava numa voltagem que remetia a algo vago e incisivo, associável à juventude -revolta, indignação e disposição de luta, seja no labirinto dos arquivos, seja nas ruas do Recife. O protagonista mostrava-se tomado por uma vitalidade que o sofrimento e o medo não devoravam.

O fio que liga pai e filho é o sangue e a variação de seu significado, derramado e colhido, letal e salvador. Entre a geração mutilada pela ditadura e sua descendência, nossa contemporânea, transitamos da repressão sanguinária ao banco de sangue, da polícia matadora à saúde pública em um país se batendo, embrionariamente, pela institucionalização democrática. A medicina era a ciência dos mortos, dos legistas, enquanto o jovem médico trabalha numa fonte de cura. Entretanto, mesmo situado do lado da vida, Fernando, filho de Armando-Marcelo, é abandonado pelo filme na encruzilhada entre encarar o passado, suportando a verdade, e render-se ao esquecimento como recurso para seguir a própria vida -a equação, nessa hipótese, reduz-se ao indivíduo e sua carreira, e a uma história sem horizonte. Contudo, sabemos que do recalque traumático só pode resultar o eterno retorno da iniquidade fascista.

Sob ditadura, toda ação -a agência humana- é clandestina, secreta. A agência é secreta. Portanto, o agente também o será. E no entanto, não há propriamente mistérios, a indignidade é víscera exposta, a torpeza reina. A dignidade e a resistência estão nas frestas, nos pequenos gestos dos mais modestos e obscuros personagens, não só nas grandes batalhas dos grandes heróis -como disse Toinho Castro.

Pois aí estão os paradoxos que talvez nos ajudem a encarar o enigma-Brasil: (1) O herdeiro é mais velho; o pai morto é mais vivo. (2) O legado mais corrosivo da ditadura é o veto, sob o modo de amnésia e recalque, a qualquer futuro que se possa celebrar como antecipação comum positiva. O futuro ameno, amoroso e inclusivo, esmagado pelo horror do passado esquecido, não pode ser imaginado. O único passado acessível à consciência autoritária é a imagem falsa, pasteurizada, que não resiste à eletricidade incandescente e disruptiva de um carnaval. Fernando parece saber que, se houver rememoração, a verdade terá de ser encarada, e ela dói como a foto de Itabira na parede, no poema de Drummond. 

No fundo, todos sabemos disso: pressentimos o tubarão. Essa imensa alteridade submersa, monstruosa. Em 1977, vivíamos a iminência do ataque, sofremos o ataque. Hoje, regredimos à ambiência paranóica. Intuímos o assalto -a fera já nos levou a perna. Resta cambalear pelos cantos, sem admitir que é nossa a perna cabeluda. O pressentimento da mutilação que castra nos faz reféns do terror e nos induz à resignação, quando os fascistas evocam o passado idealizado em seus cantos de guerra.

É esse o mito reacionário por excelência: retornar ao paraíso perdido da lei e da ordem, da estabilidade, da segurança, da perfeita previsibilidade -paraíso que nunca existiu, cuja descrição é puro exercício negacionista. Acontece que as novas gerações que hesitam entre abrir ou não os arquivos da história têm diante de si o dilema de Dorian Grey: para mascarar a finitude, enganar a morte, evitar os riscos da arte e da construção política de um futuro comum em mar aberto, correm o risco de condenar-se à decrepitude precoce, ao rebaixamento de expectativas e horizontes, à impotência, a uma vida de indiferença e solidão -exangue. Pra não navegar, arriscam-se a morrer na praia.

Ainda bem que nossa gente bronzeada mostra seu valor. E viva o agente secreto.

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